quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Entrevista Antônio Roberto ESPINOSA - Greve na Cobrasma de 1968

Elaboração, coleta e transcrição da entrevista: Alessandro de Moura.
[Falta revisão]


Nasceu em Osasco, em 1946. Seus pais migraram de Rancharia, interior para Osasco. O pai era operário da construção civil (pedreiro e mestre de obra). Foi admitido na Cobrasma aos 15 anos, em 1961. trabalho na empresa até finais de 1966. Ser no exército junto com Zequinha Barreto e Lamarca. Na adolescência organiza uma série de atividades entre secundaristas. Disputa eleições do Grêmio da escola, sua chapa vence, depois compunha à organização do CEO - Circulo Estudantil Osasquense. A partir do grêmio e do CEO, em conjunto com outros militantes que desponta, constroem uma ampla base de militantes em Osasco. Em 1967 estuda filosofia na USP mas continua militando em Osasco. Em conjunto com Zequinha Barreto e Ibrahim, organiza grupos de estudos entre estudantes e trabalhadores, por meio dos cursos organizam cerca de 1000 trabalhadores e estudantes. Entre os trabalhadores esse grupo foi chamado de Vanguarda Operária. Em meio a tudo isso milita pela eleição da Chapa Verde em 1967. Com a vitoria da Chapa Verde, encabeçada por Ibrahim, com que havia estudado, milita em conjunto com o sindicato e em auxilio de Ibrahim. Em 1968 ingressa na fileira da VPR - Vanguarda Popular revolucionária, juntamente com uma ampla camada de operários que aderem a mesma organização. Espinosa será um dos mais importantes dirigentes dessa organização, ode militaram também Barreto e Lamarca. Participa da organização das atividades do Primeiro de Maio da Praça da Sé. Participa também do planejamento da greve da Cobrasma em junho de 1968. Será ele que escreverá a maior parte dos materiais que serão distribuído ao operariado de Osasco, e também do balanço da greve. Escreveu também o balanço dos processos de Contagem e Osasco sob o titulo: "Dois relâmpagos na noite do arrocho", o qual disponibilizamos na seqüência da entrevista. Foi preso no final de 1969, passou por intensas seções de tortura e só foi solto recuperou a liberdade em 1973.



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Todos os meus amigos do futebol, da molecagem de rua, quando completavam 14 anos iam para a Cobrasma. A Cobrasma não foi o meu primeiro emprego, completei quatorze anos e, quinze dias depois, fui trabalhar na Cerâmica Industrial Hervy, do outro lado da linha de trem, mais perto de Presidente Altino, fica atrás da estação de Osasco. A Hervy ficava onde é a rodoviária hoje. Tem ainda um restinho... Olhando assim, no fundo da rodoviária, você vê umas paredes meio avermelhadas... Aquilo conserva da Hervy... Foi trabalhar numa... acho que chamava expedição... expedição de certas peças.. Encaixotando pequenas peças, colocando em caixas de papelão fiquei lá acho que seis meses e consegui na Cobrasma. Na Cobrasma eu comecei como office-boy... Fui trabalhar inicialmente como office-boy na seção pessoal. Albertino Oliva era chefe da seção pessoal.

Tinha muito adolescente na Cobrasma?

Entrava, tinha muito. No Ceneart por exemplo, nem era Ceneart, era Ceart, depois passou a chamar Ceneart. No Ceart por exemplo, acho que uns 60% dos alunos eram empregados da Cobrasma. 

Ceart era um colégio secundarista?

Secundarista. Colégio Estadual Antônio Rapozo Tavares. Depois virou Colégio e Escola Normal Antonio Rapozo Tavares. Que era cede, era ponto de partida dos grandes movimentos locais. Não havia nenhum curso superior. Cenearte também era o núcleo, antes do golpe, de uma organização municipal de estudantes, chamado UEO - União dos Estudantes de Osasco. Com o golpe, todas as UEs foram fechadas. Em 1967 nós criamos o CEO - Circulo Estudantil Osasquense. Que na verdade era o UEO com outro nome, tocamos o U pelo C. E fazer um registro em cartório, enfim, a gente acabou cumprindo esse papel. Mas todo esse pessoal, toda essa molecada, ou trabalhava na Cobrasma ou aspirava trabalhar na Cobrasma, Cobrasma pagava um pouco mais. Quem não conseguia na Cobrasma ia para a Cerâmica, ou para algumas variantes, tinha a Ford em Presidente Altino. Aqui do ouyro lado da avenida, tinha a Brown Boveri, tinha a Eternit, enfim, quem não ia para a Cobrasma ia para uma dessas... Cimat, a Brás-Eixos, que era do lado da Cobrasma. Quem não conseguia ir para a Cobrasma ia para uma dessas, mas aspirava ir para a Cobrasma... Porque a Cobrasma, enfim... pagava um pouco melhor, dava uma espécie de prestigio. De uma certa maneira, a Cobrasma antecedeu o Bradesco, a molecada hoje vaia para o Bradesco, claro que não na mesma proporção. Porque na época Osasco tinha 100 mil habitantes. 1968 não tinha chegado a... 1968 um pouco mais. Década de 1960, em 1960 Osasco tinha chegado a 120 mil habitantes. A Cobrasma empregava 3.500, 4.000, dependendo da estação... na época. tinha uma força de trabalho que era... local, de uns 30, 35 mil... quer dizer, 10% trabalhava na Cobrasma, era significativo. Aliás, nessa época, Osasco tinha uma força de trabalho de.. perto de 90 mil e na Cobrams trabalhava muuita gente [enfase] de fora, e, que vinha ou dos municípios da região, que já eram municípios, Barueri, Jandira, Cutia, ou que vinha de São Paulo. 30, 40%, isso é impressão, não é pesquisa, mas 30, 405 dos empregado da Cobrasma não moravam em Osasco, vinham de fora. E Osasco era uma cidade industrial por excelência. Quer dizer, quem morava em Osasco trabalhava em Osasco, e além disso, a cidade recebia empregados de fora... depois mudou... Década de 1970 mudou, virou cidade dormitório. 

A indústria metalúrgica mais pesada era a indústria ferroviária. A Cobrasma nasce como uma empresa ferroviária. Quando eu trabalhei lá já fabricava poucos trens. Ela já começava a ser um setor de auto-peças. Começava a dominar... Começou a redirecionar. Nessa época ela fabricava... sei lá... 4, 5 trens por mês... Vagões por mês. É pouco, antes era muito mais. Então as indústrias ferroviárias, A Cobrasma, a Soma, a Sofunge, todas foram construídas ao longo da ferrovia da Sorocabana ou da Santos-Jundiaí... A indústria metalúrgica ficava nesse pedaço, lapa, barra funda... Barra funda para cá, até Osasco.Nessa fase o ABC era marcenaria, indústria quimica, ao longo da década de 1960 é que a indústria automobilística ganha impulso. E é principalmente nos anos da ditadura que há uma preferência pelas rodovias às ferrovias, que as fábrica desse lado entram... Ou vão mudando sua identidade ou vão falindo, e o ABC se fortalece.

Então aqui, a garotada queria passar por lá. E eu não fugi a exceção. Só que como eu não consegui ir para a Cobrasma, acabei indo para a Hervy. Aliás, minha mãe é que foi me arrumar emprego. Completava quatorze anos... Antes disso eu já trabalhava, fui ajudar meu pai nas obras dele. (...). Fui trabalhar na seção de pessoal, o Albertino era o chefe, ainda era o chefe linha dura, não tinha mudado. Era o cara mais temido da Cobrasma. O segundo mais temido... O mais temido era o diretor de relações indústriais chamado França Pinto. Fiquei dois meses trabalhando como office-boy dele, do Albertino. Ai fui trabalhar no escritório de arquivista na forjaria. Também fiquei lá nem sei porque, eu acho que iam mandar embora... Acabei saindo de lá e fui para a fundição, no escritório da fundição. Estava cheio de menores, não havia essa proteção que há hoje. O Ibrahim por exemplo, que tinha a mesma idade que a minha... (...). O Ibrahim foi trabalhar no controle de qualidade, andando no meio das coisas. Mesmo o office-boy, também era o tempo inteiro andando no meio daquelas... aço fervente passando naquelas pontes rolantes. Uma visão do inferno, o funcionamento de uma fundição, limpeza e acabamento, esmeril, ferro quente, ponte rolante passando por cima e pingando aço. Claro que eles levavam o aço em uma direção que não havia ninguém embaixo. Aliás o papel do operador da ponte rolante era ver se tinha alguém na frente e [avisar] sai, sai, [faz som de assovio]. De vez em quando aquele negócio caia em cima de alguém, triturava né..

Que ano o senhor entrou na Cobrasma?

1961, de 1961 a 1966, até começar a fazer o cursinho. Interrompi 10 meses, que eu não cheguei a ser demitido, fui fazer serviço militar. Aqui em Quintaúna em Osasco também, no Segundo Gcam 90, ao lado do Quartel Henrique, era o Quartel em que Lamarca serviria depois. O Lamarca era daqui. Quer dizer era daqui... era carioca, mas ele fazia... Era Comandante de uma Companhia aqui no 4° R.I. em Quintaúna... (...). Aqui em Altino, onde você esta morando... Dos dois lados, também tinha quartéis, esses foram removidos... onde está hoje o Walmart, o Shopping União... Ali era um quartel.

Bom... Então fui trabalhar na Cobrasma dessa maneira. Foi assim... Bom, da forjaria eu fui para fundição, na fundição eu fiquei um tempo trabalhando nos fornos. Tinha um escritoriozinho mínimo, fiquei lá, acho que um mês ou dois. Era office-boy dos fornos, um barulho infernal, um calor... Você ficava acho vinte metros dos fornos. Só podia sair do escritoriozinho (...) com capacete, óculos de proteção. Você tinha que andar rigorosamente dentro das faixas, era muito perigoso. A cada dez, doze dias morria um. Distraia, você morria. 

Então aquele caso do operário que morreu queimado não foi um caso isolado?

Não. Isso acontecia muito. Eu era garoto, quinze, dezesseis anos de idade, quando se começaram a organiza as CIPAS - Campanha Interna de prevenção de Acidentes -, hoje está generalizada. Mas eu me lembro do inicio, o pessoal vendo a CIPAs com um certa desconfiança: O que que é isso? Na verdade era a própria legislação trabalhista que evoluía. Os trabalhadores foram obrigados a ter CIPA, surgem as campanhas. Antes disso não tinha capacetes, não tinha nada. Era uma carnificina. Até hoje o número de acidentes é muito elevado... Na época era comum... era mais comum você morrer na fábrica do que na guerra né.

E ai fui pra a fundição, na fundição fiquei um tempo como office-boy, depois fui passei a ser Cardequicista, mexer com Cardeque, arquivista, de arquivos. Um pouco antes de ir para o quartel, eu desci para o depósito de modelos. Fui encarregado desse depósito de modelos, trabalhavam lá uns 10 caras, para entregar modelos para a fundição. Então fiquei trabalhando nesse arquivo. Fui para o quartel, voltei de novo. Só que o escritório da fundição era na fundição. Esta em cima da modelação...As coisas existem ainda... Dá para visitar. Não é difícil... (...) Agora uma grande parte da Cobrasma foi reativada por várias pequenas empresas. 

Mas fiquei na fundição esse tempo todo... Fazia ordens de moldagem para realizar a programação em relação a Macharia e a Moldagem, que se mandava fabricar as coisas. Também fiquei um tempo no Laboratório de areia, os moldes são para a fundição. Os moldes são de areia, ai você enche de metal quente. Dai que vem a peça. Os furos nas peças são feitos pelos machos... Que é um outro tipo de molde que é combinado com o molde de areia, que também é de areia, mas é outro tipo de areia que você introduz para fazer a montagem. Então o laboratório de areia é o que mede as areias todas, para que elas tenham resistência, umidade, a permeabilidade necessária para cada tipo de metal. Então o laboratório ficava o dia inteiro indo pegar as ultimas areias que estavam saindo, a cada dez minutos saia com duas latinhas. Ia pegar uma amostra de cada tipo de areia que estava saindo, ia para o laboratório medir. Ai media tudo isso, tomava as notas. Voltava lá e pegava as novas areias. 

(...)

O golpe não calou o movimento operário de Osasco?

Não. Deu uma reduzida forte. Reduziu muito. Como foi no Brasil inteiro. Mas o agora o que eu me lembro, 1961, 1962, 1963, greve do décimo terceiro, todo ano tinha greve.

Quem dirigia o sindicato na época?

Tinha o PCB, tinha um papel grande, mas não era só o PCB, tinha também o PSB, partido socialista. (...). O PSB o trotskismo usava, ele entrava, mas não só o trotskismo, mesmo um embrião de uma esquerda cristã mais radicalizada também entrava no PSB. Era pequeno, tinha uma presença maior no movimento operário, no movimento social, mas fazia deputados... tinha uma... Mas em fim, não elegia membros do executivo. A não ser em Pernambuco... Alguns Estado em que o PSB era mais forte, como é hoje... Já era um partido nacional. A POLOP usava muito o PSB como... para fazer o trabalho legal. Porque esses partidos de esquerda estavam proibidos, embora fosse um regime democrático, Constituição de 1946, eles estavam proibidos. Então... O Conrado del Papa é que era o presidente, [militante]do PSB. O vice é provável que fosse do PCB, o Lino do PCB. O Lino, quando o PCB acabou, ele era dirigente ainda do PCB. Aliás, o Papa, o Lino, o PCB foram contrários a nossa chapa em 1966. Ficaram na chapa dos pelegos. Era pelego, depois o pelego que a gente derrotou em 1967, 1967, o Henos Amorina, virou fundador do PT. Eu acho que ele seguiu uma linha de continuidade... Aliás ele era o pelego, se elegeu com apoio da comissão interventora, em 1964, houve a intervenção no sindicato, e a comissão apoiou uma chapa que é a do chapa do Henos, que ganhou. A nossa Chapa, Chapa Verde, foi montada contra o Henos, e nós não economizamos a palavra pelego contra ele. (...) Aliás [Henos] quase ganhou. Só não ganhou porque nós conseguimos sei lá, quase a Cobrasma inteira, 90% da Cobrasma. [a Cobrasma] fez a diferença.

Tivemos presença em outros lugares, na Brown Boveri, na Lonaflex, nas bases do sindicato em Cutia, porque as bases do sindicato eram, e ainda são, muito amplas. Abrange acho que umas sete ou oito cidades da região. Tem as sub-sedes hoje, sub-sede Cutia, na época não tinha isso. Mas a votação na Cobrasma foi decisiva. Não fosse ela, não teríamos ganho. 

Essa campanha eleitoral tem haver com a formação da comissão de fábrica?

Em parte sim. A outra coisa é o... A ditadura foi uma das principais responsáveis pelo surgimento do grupo de Osasco. O grupo de Osasco era um grupo de moleques, era um grupo que... aliás, eu entendo... eu tenho a sensação de que o movimentos como esse hoje, do passe livre, protestos, etc. Quer dizer, eu me vejo muito naquilo. Você pega um pretexto, que não é sempre que essas coisas acontecem, mas aquela situação de opressão, ditadura. No movimento estudantil, nos fizemos aqui uma greve contra o uniforme. Porque até ai, cada um ia para a escola como queria, com a roupa que tinha. A ditadura tentou implantar o uniforme, com a mesma idéia. Uniforme até tem uma coisa meio democrática ne... Não mostra a roupa, não poder ostentar a riqueza, mas para a gente o uniforme representava um imposição. Uma coisa que vinha de cima para baixo. E para a gente, o uniforme se inspirava na farda. Era tentativa de quartelizar o movimento estudantil, de quartelizar a vida civil. 

E aqui em Osasco ouve um movimento forte contra o uniforme. Não era nem uniforme, era usar uma capa branca, tipo um jaleco. E graças ao movimento contra o uniforme, nos começamos a estruturar greve em quase todos os colégios a pesar da ditadura. E foi um movimento diferente, tinha dia.. o diretor dizia: dia tal. (...). Era um cara que recebia ordens e re-transmitia: 'Até o dia X, quem não vier com o uniforme não entra'. 'Bom, então diz que é de uniforme, tá bom, vamos usar o nosso uniforme'. A decidiu... todo mundo... era época de junho, 'todo mundo em trajes juninos'. Calça remendada, vestido de caipira... 

Isso foi em que ano?

1967, 1966. Antes de eu sir do exercito, eu sai do exército em março de 1966, acho que eu já tinha saido. Já tinha saido... Não havia entidades. Todas tinha sido fechadas. No curso classico, eu fazia o curso clássico... Eu estava ainda no exército... Nós organizamos uma associação do curso clássico do CENEART. E essa entidade, foi a primeira vez que eu disputei... O pessoal do Partidão do colégio, queria organizar no curso clássico, uma associação litero-cultural Mário de Andrade.

Mas o PC tinha peso político aqui em Osasco?

Tinha. Tinha. Antes de 1964 tinha mais. Depois ele acabou perdendo espaço, deixou um claro, fragmentou. Antes da fragmentação... Mas perdeu iniciativa, estava com medo. Agora, os militantes do Partidão estavam no colégio. Eu nunca participei do Partidão. E eu falava:

'Que conversa é essa de associação litero-cultural?, Com uma ditadura no país pô. Matando , torturando, arrocho salarial nas fábricas... E vocês querem ficar lendo poesia?'. 

E eles insistiam nisso: 'mas é Mario de Andrade!'. 

'Ainda que seja Mario de Andrade! Nos também podemos ler Mario de Andrade, sem problema nenhum. Agora, nos temos que brigar contra o regime'.

Ai organizei a Associação... A proposta era fazer uma associação dos estudantes do Curso Clássico. Fizemos um plebiscito e ganhamos. Montamos uma chapa. O Partidão montou outra. Eu e um monte de independentes. Eu era presidente dessa Chapa. Ganhamos a eleição. Então a associação do Curso Clássico, no ano de 1966, liderou todos os movimentos, mesmo os feitos fora do colégio, do CENEART, não só os do Curso Clássico... Substituiu o grêmio, substituiu a antiga UEO. Em setembro de 1966, por exemplo, houve passeatas enormes em Osasco, de todos os colégios, em setembro de 1966. Houve passeatas grandes. Quer dizer, uma passeata grande, em setembro de 1966 houve a Setembrada estudantil. A UEE estava ressurgindo, a UNE...

Aqui não tinha universidade ainda, tinha?

Não. Começava a ter nesse ano, economia. Só secundarista. Em 1966 tinha o primeiro ano do curso de economia, que era uma escola particular, que depois acabou sendo incorporada a FITO - Fundação e Instituto Tecnológico de Osasco. 

Bom, e nós fizemos a passeata em 1966, e bom... foram reprimidas pela polícia. Nós fomos a Maria Antônia buscar orientação. 

Quantas pessoas participaram da manifestação da setembrada em Osasco?

Ah, uns 2 ou 3 mil. Significativo. Porque todos os colégios participaram. Quer dizer, a partir da associação do Curso Clássico, nós contatamos gente de todos os colégios de Osasco, eram uns 6 colégios públicos, dois colégios particulares... E marcamos um ponto de encontro no Largo de Osasco, que era bem diferente, chamava Largo João Pessoa na época. João Pessoa... Hoje é Largo de Osasco, praça Antonio Menkc... Então, tínhamos marcado ali. ali iam se encontrar os secundaristas que vinham de Presidente Altino, GEPA, os que vinham de Duque de Caxias, que era um colégio particular, alguns que vinham da Vila Iara, que é um pouco acima aqui... Outros que viriam do Km 18, uns 6 ou 7 colégios da cidade. Então o ponto de encontro seria no Largo de Osasco. Esse pessoal acabou sendo objeto de trabalho que a gente fez depois... Eu dando aulas de marxismo... Eu e o [Zequinha] Barreto, dando aulas formando essa garotada contra o Partidão...

Você estudou com o Zequinha Barreto?

No Clássico. Eu estava no terceiro [ano] e o Barreto no segundo. Servimos o exército juntos também, em baterias diferentes, embora vizinhas.

Bom, então o ponto da concentração seria esse. O colégio líder da manifestação, evidentemente, seria o CENEART, que era o único que havia, dentro dele havia uma entidade organizada. Que era o Curso Clássico e tinha essa associação. Só que quando nós saímos para esse encontro, ao lado do mercado ali... A polícia estava ali nos esperando. Então entramos debaixo de um puta de um cassete. Encheram de porrada. Ai a molecada começou a cantar o Hino Nacional. Os soldados não sabiam o que fazer, paravam... Porque quando ouve o Hino Nacional tem que ficar em posição de sentido. Isso depois virou uma técnica do movimento estudantil, depois eles não ligavam mais, batiam com Hino e tudo... Mas ai, quando a gente cantou o Hino Nacional, se colocaram em posição de sentido... Nisso a gente fugiu para encontrar o resto do pessoal no Largo de Osasco. Chegando no Largo de Osasco, a molecada subiu correndo pela Antônio Augusto, dispersando... 

Mas ai fomos buscar experiência em São Paulo. 'Vamos buscar... estão reprimindo também em São Paulo'. Ai fomos lá na Maria Antônia, no São Francisco: 'oh, como é que vocês fazem para se defender?'... Bombas de gás lacrimogêneo... Ai vieram alguns representantes do movimento estudantil... Fizemos algumas reuniões aqui, em casas secretas... De como se proteger das bombas, jogar bolinha de gude para a cavalaria... Mas ai o movimento acabou se esvaziando, não teve desdobramentos... Acabou também em São Paulo. E foi, aqui, basicamente um movimento de solidariedade a São Paulo, as universidades que estavam sendo perseguidas... Mas enfim, quer dizer... Então com isso, houve essa radicalização. Eu próprio acabei me endereçando para a esquerda pelo caminho mais estranho, quer dizer, servi o exército em 1965 junto com o Barreto... E em um período difícil de fazer o serviço militar, porque você vivia de prontidão, a cada 4 ou 5 dias surgia um boato que havia uma rebelião contra o golpe, subindo do Rio Grande do Sul, que estaria chegando ao Paraná, e o boato que chegava à tropa é que nos deveríamos reprimir esses movimentos. 

Então dentro do quartel, conversando com outros soldados que também eram do CENEAR... Eu, quando me alistei, acabei fazendo uma transferência para o CEPEU-R. Quando estava fazendo o Segundo Clássico, com Segundo Clássico você já podia fazer um curso de preparação para Oficiais da reserva. Só que, na época, ante do golpe, uma das razões para dispensa de soldados do serviço militar, era que eles estivessem fazendo... fossem estudantes de colégio... Porque dá muito trabalho, é um pessoal dificil de submeter a disciplina militar... Então eu falei... puta... E alguém comentou: 

'você é um idiota, onde é que já se viu, você se inscrever no CEPEU-R, ai você vai servir mesmo. Faz a sua transferência do alistamento para a tropa, porque ai você vai ser dispensado'.

Inclusive na Cobrasma, chefe falou isso, que ia dar aumento de salário e que não ia dar porque eu ia servir... Dai eu fiz a transferência, só que nesse meio tempo aconteceu o golpe... E quando eu fui à tropa, eles pegaram mais do que depressa, porque tinham caçado vários sargentos e havia uma escassez de quadros no exército. No segundo dia, nem usava a farda ainda... No segundo dia eu já fui dar serviço de plantonista. Na semana seguinte, no serviço seguinte, eu já fui dar serviço como Sargento de dia... Não sabia nem marchar. Porque não tinha, um monte tinha sido caçados, estavam no Raul Soares... E ai fiquei... Nos primeiros 5 ou 6 meses fui fazer o curso de Cabo por causa da escolaridade. Relaxei de propósito e não virei Cabo, continuei Soldado. E tudo que era de respeito ao Quartel me enchia o saco. Quer dizer, tinha que andar fardado vinte e quatro horas por dia, não podia sair na rua, o cabelo tinha que ficar rigorosamente cortado, bota engraxada, esse negócio me enchia o saco, quer dizer, e aquela disciplina militar: 'Um, dois, um dois... paga 10, paga 20'. As ofensas dentro do Quartel: 'Filho da puta! Sua mãe é arrombada!'. A linguagem que eles utilizavam para quebrar a moral do soldado e submeter às ordens. Então isso me irritava, para mim a vida militar era uma vida de burro, de idiota, tinha nojo da farda... Saia do Quartel, dentro do ônibus já tirava a gandola, chegava em casa jogava aquilo no tanque: 'mãe joga creolina nesse negócio porque eu não agüento mais isso'. 

E com isso, com os boatos dentro do Quartel de que havia tropas surgindo no Sul, etc... Conversei com um grupo de sete ou oito colegas que eu confiava, que eram do CENEART também, falei:

'Bom, se de fato nós formos removidos para lá, para combate às tropas do Sul, nós vamos pegar as armas que a gente puder da bateria, ou do Quartel inteiro, dependendo de como elas estejam, vamos jogar dento do caminhão (eu era motorista) e vamos desertar. Vamos passar para o outro lado'.

Então, não interessava muito, a gente nem sabia que era Brizola, quem era o Movimento Nacionalista, nem conhecia direito. Mas o outro lado só pode ser melhor do que esse (risos). E bom, acabou não dando, não acontecendo, porque a gente ficava de prontidão, passava, as vezes, 10, 12 dias sem sair do Quartel. Ai liberavam, 5 ou 6 dias depois, prontidão de novo. Mas acabou não acontecendo esse deslocamento. A gente não teve a oportunidade de fazer isso. 

Mas chegaram a ter um grupo, uma esquerda organizada dentro do exército?

Não chegava a ser uma esquerda. Éramos os revoltados, quer dizer, para onde os oficiais fossem, nós íamos para a direção contrária. Quer dizer: 'esses caras estão do outro lado'. Quer dizer, começa dessa maneira em 1965. Ao mesmo tempo, dentro do CENEART, no primeiro momento em que houve o golpe, eu até festejei o golpe. Achei legal, falei: 'Até que em fim (chamava revolução), até que em fim uma revolução para dar uma resolvida nesse país'. E tinha o pessoal, um cara que virou dirigente durante muito tempo, foi dirigente do Partido Comunista em Osasco por 20 anos, o Anderson Cleiton Figueiredo. Ele era da minha classe, fazia terceira série ginasial... E o Anderson foi jubilado na terceira série, porque ele foi reprovado duas vezes na primeira série, duas na segunda, na terceira ele foi jubilado. Em 1964 é o cara que acabou se exilando na União Soviética, e fez direito na União Soviética... Quando voltou, depois da... No final da ditadura e tal... Era o dirigente do PCB, e foi até... morreu a uns 6 ou 7 anos. Enquanto existiu o PCB ele foi do PCB, depois foi para o PPS e morreu no PPS. Morreu a uns 7 anos, 8. Mas, em fim, o Anderson, o Orlando Miranda, que também era da minha classe. O Orlando Miranda que tem um livro também Obscuros heróis de capricórnio. (...). Era da área de influencia do PCB, mas ele era ligado ao Moniz Bandeira... (...). Era mais próximo do trotskismo, mas ele se entrosava com o pessoal do Partidão, dentro da... Até 1964 apoiavam a chapa do Papão, do sindicato dos metalúrgico... Ele trabalhava na Cobrasma também... O Miranda, o Cleiton, eram caras mais velhos. Na sala de aula no CEARTE era um negócio engraçado, vou até te falar isso já... esse negócio do movimento... operário-estudante.

O número de ginásios estava se multiplicando no Brasil inteiro, antes da ditadura, e a ditadura continuou esse processo, porque precisava de uma força de trabalho mais qualificada com maior nível de escolaridade, e, na década de 1950, o cara terminava o primário e abandonava a escola, então muita gente já estava com 30anos de idade, 25, já eram adultos, já tinham se casado, construído família, muitos tinham entrado no exército, em fim, virado... tinham se engajado no serviço militar, já eram Sargentos, Segundo Sargento, Primeiro Sargento e só tinham o Curso Primário. No começo da década de 1960, quando começam a ser construídos os ginásios em quantidade, muita gente que tinha parado de estudar a 10, 15 anos antes, voltou. Faziam o Curso de admissão. Então em uma sala de aula... Não era nem o Segundo grau, era o Segundo grau... O que agora faz parte do Primeiro. Equivalia de 5ª a 8ª. Era 1ª a 4ª Ginasial. Você fazia de 1ª a 4ª Ginasial, ai fazia um exame, que era o Exame de admissão e entrava no Ginásio, que era de 1ª a 4ª série ginasial. Depois você ia para o Colégio, que era 1º a 3º Colegial, colegial é o Segundo Grau atual. Então o Ginásio equivalia as quatro ultimas séries, mas eram cursos separados. Então, um monte de pessoas que tinham terminado o Curso, já eram adultos, iam para a mesma classe. Então em uma sala de aula você tinha garotos de 11 anos de idade, como eu por exemplo, como o filho do Albertino (o Airton), acho que era até um pouco mais novo do que eu, acho que uns meses menos, o Ibrahim... e da nossa classe tinha um operário da Cobrasma, um cara que já era chefe de seção da Cobrasma, com 30 anos de idade. Toda sala de aula, os 44, 45, tinha 3 ou 4 militares. Segundo Sargento, primeiro Sargento, de vez em quando um Sargento da Polícia Militar. (...). Para estudar... Nem era infiltrado, porque não era ditadura ainda, foi antes do golpe.

Então, numa mesma classe, você tinha o molequinho, o barbeiro que já era um adulto, um alfaiate, um cara que era chefe de seção na Cobrasma, um outro que era Sargento, um outro que era Investigador de polícia, tudo isso era funções que só exigiam o curso primário. Então a classe era uma miscelânea. Em função disso, nós passamos por um processo de politização rápido, porque os adultos levavam para a sala de aula as discussões de adultos: as discussões que se travavam nos sindicatos, as discussões acerca das reformas de base do governo João Goulart. A classe se organizava, se polarizava, desde a eleição para representante de classes, até a eleição do grêmio, era extremamente politizado, e esses caras entravam... É isso que faz, que cria esse fenômeno do operário-estudante. Pode ser que isso existisse em outros lugares e certamente existia em Contagem, mas não era uma coisa comum. 

Então, o movimento autonomista, ele repercutia direto dentro do colégio. A molecadinha acabava entrando. Bom, meu pai por exemplo, era do Não. O Não era contra a autonomia. E não houve nenhuma outra razão... Quer dizer, 10, 12 anos, 15 anos antes, ele tinha vindo para Osasco porque Osasco era capital. Tinha mudado do interior para a capital, agora: 'Assim? A cidade que eu vim morar vira interior?'. Era só por essa razão. Achava... Como ele também era um cara que tinha uma tradição, uma raiz mais popular, achava que os dentistas, contadores do centro, queriam dirigir a cidade. Queriam ser os manda-chuvas locais. E dizia: 'Esses caras que se danem! Vão querer ser em cima de mim? Então é melhor o Não'. [Era] descendente de espanhóis etc... Tava passando um dia pelo Largo de Osasco, tinha um coreto, cheio de gente lá em cima, convocando o pessoal para ir até o Museu do Ipiranga, buscar a tocha. Ai seu subi no caminhão e fui junto. O Museu do Ipiranga acendeu uma tocha, trouxemos, ela ficou acesa aqui no Largo de Osasco. No caminho, esse caminhão que a gente foi em cima, passou pela, enfrente a cada do prefeito, na Prestes Maia... A molecada, mais do que depressa, jogando pedra na casa do prefeito... Ai, chegar em casa, como é que eu ia falar para o meu pai, que era do Não, que votava no não, que achava que o pessoal do sim era corrupto, que eu tinha participado de uma manifestação... acabou sendo um segredo... Tudo isso percorria a cidade. Só te dei um clima de como era esse negócio de operário-estudante... Também, você completava quatorze anos, você ia para fábrica. A família te mandava... Enfim, você tinha que trabalhar, ia ser office-boy e tal... Então você convivia com esses caras mais adultos no trabalho e na escola. Saia também, a cidade toda, ela convergia para essa região central, na Rua Antonio Agu. E tinha alguns bares em que os estudantes paravam, e que os sindicalistas também. Então você se encontrava todo dia, todo dia. Claro que os que tinham quatorze anos, como era o meu caso, ah, não tinha dinheiro né... ganhava meio salário mínimo, pouco, era meio salário mínimo. Era menos, ganhava meio salário mínimo. Eles já ganhavam pelo menos o dobro, que já tinha dezoito anos. Mas em geral ganhavam mais. Então, eles paravam, conversavam um pouco e iam embora. De vez em quando, filava uma cerveja, um guaraná, uma bicadinha na caipirinha... A molecada que só enchia o saco dos mais velhos. 

O pessoal do Partidão, o Cleitom, tinham passado pela Cobrasma, estavam dentro da mesma sala de aula... Nesses bares que você freqüentava, os pequenos grupos de teatro que havia, então você tinha essa interação... Até a geografia da cidade te forçava a isso. Porque a geografia da cidade jogava todo mundo para a região central, em volta das fábricas, os colégios eram centrais, poucos colégios. Então o pessoal da periferia vinham para o centro. Havia seis no total... O principal deles era o CENEART, era o ponto de referência, era o maior... O Ceneart foi grande. A noite tinha 1.500. Tinha três períodos, devia ter 4 ou 5.000 no total, de ginásio para cima. Ginásio: Clássico (que era um curso colegial voltado para humanidades), o Científico (voltado para a área de ciências que tinha duas subdivisões. Duas partes: uma voltada para exatas. A outra, voltada pra ciências da natureza, ciências médicas, biologia. E um terceiro que era o Normal, para formação de professoras primárias. E era imenso, quer dizer, os três níveis... E era o padrão de qualidade. Quem estudava no Ceneart entrava na universidade. Quer dizer, entrava... Tinha chance de entrar. Quem vinha de colégio particular estava ferrado, na melhor das hipótese ia para o Mackenzie, que era particular na época. Era e é particular. 

Então, eram dois símbolos de desejo, um que era trabalhar na Cobrasma, o outro, entrar no Ceneart. Dava prestígio na cidade. Isso rendia mais namoradinhas, rendia mais admiração, que dizer: 'fulano é inteligente, está no Ceneart'. 'Trabalha na Cobrasma'. 'Pode não ganhar bem office-boy, mas vai ganhar, tem futuro!'. E dentro do Ceneart, numa mesma sala de aula, estavam caras que eram: o Sargento, o Investigador de polícia, o funcionário público e o molequinho. era quem tinha passado no exame de admissão. Que era uma espécie de processo de seleção de uma elitizinha local. Bom, ali passavam todos os debates, mesmo antes da ditadura. A gente tem uma.... Se torna adulto, precocemente. Entrar no colégio era se tornar adulto antes da hora, claro que você continuava sendo moleque, não deixava de ser, mas acabava participando dos assuntos adultos. 

Então, eu em relação ao Partidão, achava que o partidão era burro, porque eles eram muito chatos. Todas as questões, eles vinham com a história do imperialismo. Falava: 'Não é possível que o imperialismo explique tudo'. Na primeira vez você achava fascinante, na segunda você fala: 'Pô, esse cara está se repetindo!'. Na terceira: "É um chato! Imperialismo explica tudo'. Isso em relação ao Cleitom, que tinha uns sete ou oito anos a mais do que eu. Em relação ao Miranda, que tinha uns 10 ou 12 a mais, que vinha para Osasco como Cabo do exército, engajado... Porque ai deixou, quando saiu do exército, foi terminar o colégio, o Ginásio, no Ceneart. Foi trabalhar na Cobrasma (...) o Miranda é esse cara que eu falei, que depois acabou tendo uma relação com o Moniz Bandeira... e que é o autor do Obscuros heróis de Capricórnio, hoje ele esta com 76 anos de idade, ele foi professor da USP. Aliás, o Obscuros heróis... é a tese dele, que tem tudo menos pesquisa, ele fez uma ficção, fez uma ficção... Até para não brigar comigo, ele foi altamente elogioso... O que ele colocou na minha boca não tem nada haver com o que eu disse. Mas não foi ele que fez a entrevista, ele mandou os orientandos dele fazerem as entrevistas (...).

Mas, em fim, era a mesma classe. e esses caras sempre com a explicação do imperialismo. E quando chega o momento... termina a terceira série... foi ai que o Cenearte mudou para lá em baixo, o Cleiton foi reprovado e jubilado: 'ah, comunista é burro, eles só falam as mesmas coisas'. Então a imagem que eu tinha do comunista, era de um cara mais tapadão... mais com uma inteligência de concreto, quando move alguma coisa, é aquele barulho de pedra... Mas a ditadura foi se aprofundando, eu nas forças armadas, a disciplina, bronqueado com os caras, e nessa época mesmo, resolvi ler o Marx. No Curso clássico, para combater o pessoal do Partidão: 'Tenho que conhecer esse tal de Marx porque esse cara fala... Então combater com conhecimento de causa'. Fui ler o Manifesto Comunista, Salário, preço e lucro, e o cara [Marx] me ganhou, o cara me ganhou, era de uma lógica, uma coerência, esse negócio de apontar para o futuro. Falei: 'Pô, mas o problema não é o Marx, o problema são esses cara que se dizem marxistas'. Então eu comecei a brigar com os caras do Partidão dizendo que eles não entendiam o Marx. Acabou sendo uma briga de primos.

E isso acontecia também com outras pessoas. Tá certo... Com outras pessoas, e a gente acabou fazendo esses encontros culturais, esses grupos que se formaram, então a gente começou a discutir a idéia da revolução. E nessa coisa da revolução o Partidão entrava. Inclusive porque o Partidão não tinha feito a resistência ao golpe. O Partidão tinha sido conivente, com a Via pacífica, mesmo depois do golpe, a gente propondo alguma forma de radicalização, e o Partidão sempre falando em nome da moderação. 'Pô moderação é a puta que pariu! O negócio é revolução! Fora disso é compromisso! Como é que vocês se curvam?'. Bom, então, nesse fermento cultural, que de repente, em 1966, presidente da associação do Curso clássico, recém saído do quartel, falei: 'Sou um cara de esquerda! Aliás, nós é que somos de esquerda. Esses caras não são. Na verdade eles só dizem que são de esquerda, eles são é de direita. Eles estão afinados com o regime'. 

E isso acontece com um monte de gente. O Barretão, por exemplo, dentro do quartel, nós não convidamos o Barretão para esse grupo que ia mudar de lado. Para a gente o Barretão era caxias, caxias é o cara que é o certinho, concorre com o Duque, na linguagem... Porque o soldado que se apresentasse totalmente alinhado, a farda engomada, muitíssimo bem passada, o cabelo cortado, cortado zero, barba bem feita, aquele coturno reluzente, era premiado com menção no boletim, no boletim interno do exército e dispensado do serviço. O Barreto que vinha, vinha, porque ele era convocado para o serviço, vinha dar plantão, trabalhar de guarda, sentinela... Todo dia que ele era convocado... era bateria do lado da minha, era a bateria mais caxias, a primeira bateria. Eu estava na quarta, que eram baterias vizinhas, aquela bateria era caxias, bateria certinha. E o Barreto, nessa companhia, sempre era dispensado, de tão alinhado que ele entrava. Na verdade ele tinha um projeto. Ele tinha recém chegado do interior da Bahia, tinha dificuldade enorme para conseguir emprego, para sobreviver, quando foi fazer o serviço militar, tinha visto isso como uma oportunidade de profissionalização, tinha o projeto de se incorporar ao exército, se engajar, que era a linguagem... E fez o possível para isso, o que ele gastou de goma e de graxa no sapato... Só que quando terminou o tempo, ele pediu para se engajar e não foi aceito porque era nordestino. Sentiu na pele a questão da discriminação dentro do exército. E, eu já era um relaxado, queria me rebelar, em fim... Mas ai, dentro do Ceneart, após o serviço militar, a gente acaba se entendendo. Ele foi meu vice-presidente na associação do Curso clássico, na Chapa. 

A partir desses movimentos, dessas passeatas, tal, nós partimos para duas coisas: uma delas, organizar, re-organizar a UEO com o nome de CEO - Círculo de Estudantes de Osasco - em 1966. Em 1966 eu tinha saído da Cobrasma, estava fazendo cursinho, e acabei entrando, na primeira tentativa, em filosofia na Maria Antônia. O Barreto fez no ano seguinte, o vestibular, também entrou em ciências sociais. Uma coisa que o pessoal não fala muito, como se você ter sido estudante da USP pegasse mal. Pra um cara que tenha... operário que dirigiu a greve da Cobrasma... Mas o Barreto entrou em ciências sociais, começou a fazer. Não chegou a passar para o segundo ano porque no meio teve uma greve e ele se afastou. Mas quando houve a greve ele era estudante de ciências sociais... 

Em fim... eu entrei um ano antes que ele, então em 1966... ah não... ele era o segundo vice-presidente, o primeiro vice-presidente era o Geraldo nascimento. Ai o Geraldo Nascimento assumiu, eu entrei na USP, em fim... Tinha saído da Cobrasma um pouco antes, mas logo depois. Entre esses movimento e o vestibular, haveria eleições nacionais, para eleger Senadores, Deputados, Prefeitos, Vereadores de Osasco. Ai nós fomos procurados pelo Guaçu Piteri, queria nosso apoio, ele era do MDB. E havia três candidatos do MDB, havia três candidatos do MDB, sub-legenda, e três da ARENA. Então... a UNE defendia o voto nulo, nós, o grupo de Osasco aqui, que vinha da passeata...que começava a preparar a participação da eleição do sindicato dos metalúrgicos, que tinha o Ibrahim e o Roque na comissão de fábrica da Cobrasma, o Ibrahim era o presidente... Era o presidente por uma razão... a mais comezinha possível... O Ibrahim fazia o Curso científico, ele era da mesma turma que eu: eu primeiro Clássico e ele primeiro Científico, eu no segundo Clássico, ele no segundo Científico, terceiro e terceiro. terminamos juntos. E ele estava fazendo o Científico... Os outros membros, o Groff, etc, eram todos operários da antiga, a maioria deles não tinha acabado nem o primário. Um ou outro excepcionalmente tinha terminado o curso primário, os quatro primeiros anos. Então, o Ibrahim tinha sido eleito pelo controle de qualidade, estava fazendo já o primeiro ou segundo Científico, então ele foi escolhido como presidente porque era o que tinha maior escolaridade, o cara mais capaz de escrever a Ata. Foi essa razão... Claro que a liderança vem depois, tá certo? A liderança vem depois. Num primeiro momento, se reúnem os operários, simples, quer dizer... aquela coisa, meio que caiu do céu, proposta pelo patrão... Então escolhe um cara com maior escolaridade. 

Essa comissão de fábrica com o Ibrahim, foi a primeira?

Foi a primeira [em 1965]. E o Roque participou dela, o Roque foi secretário porque estava fazendo Ginásio, Roque Aparecido da Silva. (...).

Então, em 1966 o Guaçu nos procura, a UNE propõem o voto nulo. Então, esse grupo, que se encontrava e tal, que depois acabou ficando conhecido como Grupo de Osasco, que era essa molecada... Adota uma posição hibrida. Nós decidimos anular o voto nas eleições nacionais, para Deputado, Senador... Mas votar na eleição local, e mais do que isso, decidimos lançar três candidatos a vereador e apoiar. Nesse acordo implicava.. Esse acordo com essa fração do MDB, na época havia comícios, implicava subir em palanque, falar, no primeiro comício quem falou foi eu... no chamado Jardim d´Abril. Os candidatos eram três: Pedro Proscurcin, que era do controle de qualidade, junto com o Ibrahim na Cobrasma, que era um cara que tinha sido do Partidão, parece que depois voltou a ser de novo, na época estava rompido com o Partidão. Era um cara 4 ou 5 anos a mais que a gente, só que mais equilibrado. O outro que era um motorista de praça, chamado Lucídio Vieira dos Santos. E o terceiro, um bancário, chamado Saburo Matsubara, o Saburo, hoje é dono de uma rede enorme de hotéis, chamada Hotéis Matsubara, dono de alguns Motéis e dono de uma Faculdade aqui na Fernão Dias. O Lucídio se internou pelo interior. Depois da greve, quando terminou o mandato, o Pedro Proscurcin, perseguido pela polícia, depois houve as prisões do Partidão, acabou se mandando, foi trabalhar na Volkswagen no ABC e ficou no ABC. Mas os três se elegeram. Então nós elegemos três vereadores. E tinha os grêmios nos colégio, e o CEO, a partir do CEO organizamos grêmios em todos os colégios e em 1967, encabeçamos a Chapa Verde do Sindicato dos Metalúrgicos e ganhamos o Sindicato dos Metalúrgicos contra os pelegos, contra o Henos Amorina... Contra o Henos sobretudo.

Mas ai, o seguinte, o que que nós tínhamos, o grupo de Osasco, três vereadores. Elegeram os três, o Sabura acabou virando um pelego... acabou se enturmando, fazendo corrupção, usando o mandato para ganhar dinheiro. Os outros dois permaneceram mais ou menos fiéis a gente. Freqüentavam os movimentos estudantis... Ai, começo de 1967: 'Vamos montar uma chapa!'. Só que de concreto, dentro das fábricas, nós tínhamos um trabalho dentro da Cobrasma, o Ibrahim tinha sido o presidente, estava terminando o mandato da comissão... era de dois anos [o mandato]. O Ibrahim estava terminando o mandato, que foi de 1965 a 1966, até esse comecinho de 1967. Em outras fábricas, nós tínhamos gente, que você tinha conseguido, ou nos colégios, ou em conseqüência do trabalho na Cobrasma, mas era um trabalho menor...

Além dessa comissão de fábrica da Cobrasma, havia outras comissões?

Não. Só Cobrasma.

Nem clandestina?

Não. Só depois da Cobrasma. Depois que nós chegamos ao sindicato, então, a partir do sindicato, tentamos organizar comissões de fábrica em outros lugares. Acabamos organizando na Lonaflex, montando um embrião na Brown Boveri, mas a partir do sindicato. A Comissão da Cobrasma veio debaixo para cima e do patrão para baixo. As outra vieram a partir do sindicato, a partir da experiência da Cobrama, até ai não existia. Você tinha pessoas isoladas que tinham saído da Cobrasma, na Lonaflex tinha o Neto. Aqui na Brown Boveri tinha o Tigrão [Octaviano], que era da Frente Nacional do Trabalho, Octaviano... Bom, mas em fim, tinha só Cobrasma. A Frente Nacional do Trabalho tinha em outros lugares, a Frente participava da Chapa do Henos. E participou de novo depois. Ai nós fizemos uma proposta para a Frente. ela tinha uma simpatia [com o Henos], mas não tinha uma iniciativa de se articular, mas estava fechando com a outra Chapa, tinham gente na diretoria anterior, e acabaram entrando depois. Depois que nós fomos caçados eles acabaram voltando a participar com o Henos. O que aconteceu foi o seguinte, eles participaram da direção do Henos [1965-1966], foi vice-presidente que era deles. Depois, o próprio José Pedro, foi vice-presidente do Henos também.

Agora nós decidimos: "vamos fazer, vamos montar uma Chapa'. Então como é que a gente faz para ganhar, a partir disso. Então reunimos com a frente, propusemos uma coalizão, e o Ibrahim ofereceu o seguinte: 'todos os cargos para a Frente, exceto um; a presidência'. Então, a Frente vai tomar o sindicato, só não vai ter e presidência. Só fechamos esse cargo. E a Frente topou. E o que era a Chapa Verde? era uma Chapa em que nós tínhamos a presidência, que era o Ibrahim. quem que éramos nós, o Grupo de Osasco, também não era um grupo organizado, a gente não tinha uma experiência de centralismo democrático.

Mas tinha militantes de correntes, do PCB e outras correntes que se desprenderam?

Poucos. O Pedro Proscurcin, t inha o Neto (...), Manoel Dias do Nascimento.. O Neto foi o segundo orador, ele e o Barreto, na Praça da Sé. Hoje ele era presidente do Sindicato... Foi da VPR também... Também ficou preso vários anos... ficou exilado. Ele era o cara que dirigia a comissão de fábrica clandestina da Lonaflex. Que é a segunda fábrica que foi ocupada [em 1968].

Todos nós já éramos [da VPR], quem entrou na véspera [da greve da Cobrasma] foi o Neto, nem sei se ele lembra... O Neto entrou pela minha mão. E o Ibrahim entrou 15 dias depois. O Ibrahim estava guardado na casa do Fábio Munhoz, que era trotskista. 

Então em janeiro-fevereiro estavam montando essa Chapa?

Fevereiro. Então a gente monta a Chapa, propomos a aliança com a Frente, eles tinham todos os cargos. Ninguém entrou na Chapa, ninguém, não entrou Neto, não entrou o Roque, ninguém. E eu nem poderia porque eu não estava mais na base. Não entrou o Neto... A Chapa todinha era da Frente, esse era o acordo. E, bom, fazemos a campanha, vamos pro pau, e ganhamos a eleição, desse jeito que eu te falei. Acabamos assumindo a direção. Só que nós éramos minoria na diretoria. Um dos principais dirigentes da Frente, que era o Albertino Oliva, foi nomeado secretário do negócios jurídicos da prefeitura, foi integrar o segundo escalão do governo do Guaçu. Foi secretário municipal, em 1967, em 1966, 1967 quando o Guaçu tomou posse. O Guaçu depois, inclusive nomeia, abre um monte de cargos para que nós indicássemos. O Graçu era um janista de esquerda... Tem um livro escrito por ele, grande, de memórias. que ele também fala dessas coisas e tal... (...). O Albertino foi secretário jurídico dele. Então a gente estava no sindicato, mas meio ilhados, você está na presidência... Osasco acabou tendo um papel importante, um papel central na organização do MIA - Movimento Inter-sindical Ani-arrocho. (...).

Em todos os lugares onde o Ibrahim chegava, era o Ibrahim, quer dizer, era recebido com festa cada vez maior, porque Osasco passou a ser um símbolo. Era o único lugar em que a Oposição sindical estava no poder. Os demais sindicatos que integravam o MIA, eram descontentes, dissonantes com o Joaquinzão, com o Metalúrgicos de São Paulo, mas não chegavam a ser uma oposição. Os bancários, por exemplo, estava o Brandão, que era do Partidão, inclusive chegou a ser Deputado do Partidão, mas era a própria moderação. (...). A gente acaba vocalizando mais as oposições. Então, as oposições, cada vez mais, passam a vir a Osasco. Osasco vai se transformando em uma Mecca das oposições sindicais. (...). De outro lado, o MIA também tinha uma relação com o movimento sindical, com o Joaquinzão, etc. Então o MIA radicalizava, dentro do MIA a radicalização era puxada por Osasco. Osasco aglutinava as oposições. Mas o MIA também dialogava com o Joaquinzão, com a pelegada. Então, a proposta do Primeiro de Maio de 1968... Bom, o que aconteceu em novembro [de 1967], a proposta aprovada pelo MIA era de 35% de aumento ou greve. Houve um aumento de 2 ou 3% dentro do arrocho, e a greve não aconteceu porque não havia organização. Sofre uma frustração generalizada. 

Bom, nós corríamos o risco de nos isolar dentro da diretoria. Então desde o primeiro dia da gestão, nós criamos um negócio chamado Vanguarda de Fábrica. Essa Vanguarda de Fábrica, era uma espécie de Grupo de Frente, politizado, que era o grupo que liderava os esforço para construção de comissões de fábrica, etc, e que eram operários que se destacavam dentro dos movimentos em cada seção, com que a gente fazia um trabalho político mais aprofundado. Ou seja, dentro da fábrica... você politizava... 

Tem um cara, também não sei se ele se lembra. ele era da diretoria dos Metalúrgicos, acabou virando pelego, o Lacerda. Ele está ainda na diretoria, acho que está aposentado hoje. O Lacerda era da Brown Boveri, um trabalho na Brown Boveri. Você forjava algumas lideranças, quatro ou cindo, pegava esses quatro ou cinco, marcava reuniões clandestinas no bairro, e esse pessoal recebia um curso de formação rápida em marxismo. Então, um curso muito rápido com base no Manifesto comunista e Salário, preço e lucro, para explicar o que era mais-valia e revolução e ditadura do proletariado. Quem dava esse curso éramos eu e o Barreto. Também por critério escolaridade, não por sabedoria. Então demos trocilhões de cursos, trocilhões. Então o pessoal da Vanguarda de Fábrica era esse pessoal que tinha uma atuação destacada dentro da fábrica, tinha passado por esse curso nosso de introdução à política. era um pessoal que tinha um certo preconceito contra a esquerda organizada, induzido por nós. Sobretudo o PC, o PC era um [preconceito] fundamentado, o resto não chegava a ser tão fundamentado. O resto advinha mais da minha experiência dentro do movimento estudantil... Porque eu comecei a fazer filosofia em 1967, acabei sendo candidato do Centro de Filosofia numa Chapa com a POLOP, eu não era da POLOP, o presidente era o, um economista da Globo hoje, Carlos Alberto Sardenberg, ele era da POLOP, foi presidente da Chapa. Perdemos para a "Chapa dissidência" do Benetazzo que morreu depois, virou para a ALN e acabou morrendo. 

Bom, então eu acompanhava o movimento estudantil universitário, e ficava pessimamente impressionado com as assembléias estudantis, a técnica das 'Questões de ordem', 'Um aparte'. Aquelas reuniões que não terminavam nunca. As manobras para esperar o esvaziamento. Mas esperava o esvaziamento para decidir, ai o resto não queria acompanhar, é era questão de ordem de outra natureza... Ai eu trazia isso para Osasco, para a nossa fermentação cultural aqui, e para os cursos que eu dava, para dizer: 'o movimento estudantil, é a pequena burguesia, olha como é que a pequena burguesia age, com as questões de ordem, aparte, enrolação, manobra, é um espaço para o individualismo, Zé Dirceu, Zé Arantes, todos passavam por essa formação. Então a Vanguarda de Fábrica, eram aproximadamente 700 operários, a partir de 1967, em 1968 estava chegando a 700 operário. Isso, algumas dezenas de cursos depois. O Ibrahim, quando ficava em minoria na diretoria, e vivia ficando em minoria, então nós mobilizávamos a Vanguarda de Fábrica.

O Ibrahim chegou a militar no PC?

Não. Nunca foi. Nunca esteve. Ele tinha relação. Na verdade, a única militância que o Ibrahim teve anterior [a 1968], foi no Grupo do Onze, que ele nem entendia muito bem o que era, até 1964, do Brizola. Tinha um Grupo de Onze aqui, e ele estava na Cobrasma, participou lá sem saber muito bem. Antes disso também, ele recebia o jornalzinho da POLOP - Política Operária, mas partidão ele nunca foi. Eu também nunca fui do Partidão, aliás eu me formei politicamente contra o Partidão, na crítica ao Partidão. O Ibrahim tinha uma militância que era um pouco anterior, em 1964 eu não tinha nenhuma participação, o Ibrahim começava a ter, só que no Grupo do Onze, se ele foi alguma coisa foi Brizolista, mas também o Grupo dos Onze não durou. [O Ibrahim] não chegou a participar do MNR do Brizola. Teve esse flerte com a POLOP que ele também não entendia, era moleque, e moleque da periferia. 

Então, nós aqui, o que fazíamos, quando o Ibrahim se isolava na diretoria, você convocava assembléia. Como as assembléias tem os prazos estatutários. Você fazia um direção de massa. Então com isso, nós acabamos dando a direção do sindicato, um caráter de assembleísmo, que era um processo de radicalização constante das massas, se dava um impasse na diretoria, chamava a assembléia, só que a assembléia, o regimento do estatuto do sindicato estabelece prazo, tem que publicar, leva uma semana, dez dias... Ai então, nesse meio tempo, a gente chamava a Vanguarda de Fábrica... Ai os 23 (se eu não me engano era esse o número de diretores), 24 eu acho, da Frente [Nacional do Trabalho]... eram cercado pelos 700. Você chamava para o dia seguinte uma reunião que apareciam 300, parecia uma assembléia. E esses 300 saíam para as fábricas convocando a assembléia, a assembléia era nossa. (...). A Vanguarda de Fábrica tinha 700, a Vanguarda estudantil tinha 250, 300. Mil pessoas na cidade. 

Pessoas de variadas corrente?

Não. Pessoal que seguia nossa orientação, pessoal que seguia nossa liderança. Não tinha partido, nós éramos independentes. Então, isso também dava uma certa unidade para a gente. 

Você não estava em nenhuma entidade sindical?

Não. Nesse período eu já... estava fazendo filosofia na USP, Osasco era meu espaço de militância. Além dessa militância no sindicato, nós tínhamos Sociedade amigos de bairro, utilizávamos o espaço que nós tínhamos junto a prefeitura para mobilizar os movimentos de bairro, por ônibus, por creche, escola. Usávamos também o mandato dos vereadores para organizar por bairro... nossa atuação... Nós dominávamos o movimento estudantil, o Sindicato, nos tínhamos o presidente, e a Vanguarda de Fábrica, a partir dos dois nós controlávamos, nós deixamos a Frente [Nacional] refém. Tanto é que nós começamos a preparar a greve sem que a Frente soubesse, com alguns dirigentes da Frente contra, como o João Candido... (...). Mas acabou sendo depois isso, porque eles não sabiam. Nós começamos a preparar a greve como uma ação militar, preparando nos mínimos detalhes: a que horas aconteceria, o que iria acontecer em cada lugar, combinar... E a Frente não sabia. Começamos a preparar a greve na Vanguarda. Para a Frente, nós jogávamos o mesmo que a gente jogava para a massa, que era a propaganda da greve. Que era recuperando a idéia da campanha anterior, salarial anterior, do dissídio: '35% ou greve!'. E era isso, quer dizer, então fazíamos o chamado para a greve no jornal do sindicato, em panfletos à parte que nós fazíamos, nos discursos do Ibrahim... O pessoal da Frente se entusiasmava...

Você escrevia em conjunto os discursos do Ibrahim?

Os discursos do Ibrahim não. Mas os panfletos, basicamente, eu escrevi todos, pelo menos... Eu era o redator... Na greve também, acabei fazendo a imprensa da greve, o balanço da greve, que propõe uma 'greve de grevilha' em continuação à greve, que é assinado... O Ibrahim é que estava perdido, nós não sabíamos aonde o Ibrahim estava. Porque o Ibrahim só participou do primeiro meio dia da greve. Depois disso o Ibrahim sumiu. O Fábio Munhoz pegou o Ibrahim na saída da Cobrasma, depois da, única, assembléia e levou para uma chácara. E o Ibrahim ficou isolado... Nós acabamos dirigindo, sem estar o sindicato, sem nada, a Frente não tinha convicção, não sabia, não tinha experiência...

A Frente participou do MIA?

Ela ia. Em algumas, até pessoas da Frente falaram. Agora, as posições defendidas no MIA, inclusive pela Frente, não eram as da Frente, eram as nossas. Quer dizer, era a questão da hegemonia. E a nossa, era uma posição da radicalização, quase porra-louca. 

Então, nesse período, de 1967, o que teve de mobilização?

A Vanguarda, a formação de sociedade amigos de bairro, a atuação dentro da câmara com os três vereadores, dentro dos colégios...

E o primeiro de maio de 1968...

O primeiro foi dentro do MIA. O MIA aconteceu o seguinte, junto com a direção dos sindicatos, do movimento sindical, foi marcado um ato, que era o primeiro de maio da Praça da Sé com a presença do Abreu Sodré. 

Então vocês conseguiram fazer mais uma assembléia do MIA em 1968?

Mas, ai é a direção do MIA. Quem convida é o movimento sindical. As direções sindicais continuam a se encontrar, o Ibrahim continua. Do MIA não, do MIA acho que foi janeiro a ultima, janeiro ou fevereiro, em Osasco... Foi uma das ultimas, um pouco antes da greve da Barreto Keller.

Então aquelas assembléias de Campinas, Sorocaba, Guarulhos discutiam mais a questão do arrocho?

A questão do arrocho. O que o MIA faz é marcar um posição forte contra o arrocho. O MIA cria a palavra arrocho para descrever uma situação. 

Quando começa a discutir o primeiro de maio, já pe a partir de fevereiro de 1968?

Já é fevereiro. Começa a preparar. 

Essa assembléia do MIA em janeiro de 1968 em Osasco, tinham quantas pessoas?

Encheu. Encheu o sindicato, ficou muita agente do lado de fora. Umas duas mil. Ali dentro cabia umas 900 pessoas, apertadas, no salão. Não é despropositado falar em 2000. Sempre há um certo exagero, mas acho que está correto. 

Mas, nisso também acontece... o... movimento estudantil. Em março foi morto o Edson Luís, ai, o movimento estudantil aqui, que tinha o CEO, etc.. programa e faz duas passeatas. Faz uma primeira passeata dois dias depois aqui em Osasco (...), a primeira teve 2.000, que foi preparatória para a do dia seguinte. No dia seguinte fizemos uma outra: 5.000, que foi uma passeata ruidosissima. Mas, aberta, com fotografia do Ho Chi Minh, bandeiras de Cuba, fotos do Che, que tinha morrido seis meses antes, sete meses antes, e... radicalizadissima... No meio, o exército tentou infiltrar uns capitães, o pessoal prendia os capitães, tomaram os documentos, levaram o maior cacete. No fianal da passeata, de repente, vinham lá os caras me entregar um 38 do capitão, que eles tomaram. 

Os estudantes descobriram que tinha gente infiltrada e desarmava?

Os estudantes... Levava o cara para o meio do matinho, tinha vários terrenos baldios no caminho, ai 20, 30, levavam o cara para o meio do mato, davam-lhe um cacete, tomava as armas do cara, documento, dava um pontapé na bunda...

Nessas passeatas só duas pessoas falavam, que era para não queimar o restante, que éramos eu e o Roque, em todos os lugares. Era... fazendo os discursos agitadíssimos. chegava no final... você nem tinham mais o que dizer de novo, já tinha esgotado o seu repertório. 

Mas vocês ainda eram independentes, você e o Roque?

Independentes. Todos independentes. Ai a gente já tinha contato, porque acontece o seguinte, final de 1967, mais ou menos, a gente tinha tanto curso para dar, no movimento estudantil a gente era mais relaxado, os cursos tinham 30, 40, enchia uma sala do CEO... Mas as Vanguardas de Fábrica era rigoroso, eram quatro ou cinco [operários] não tinha mais do que isso. Primeira reunião todo mundo já adotava nome de guerra, vamos esquecer esse endereço onde a gente está hoje, ninguém quer saber o nome da mulher de ninguém, de filho, em fim, era uma aula de clandestinidade. Embora, fossemos todos independentes. Mas eram tantos grupos que a gente não dava conta. Quer dizer, você tinha dois, três grupos por dia, a semana inteira, de segunda a segunda, e só eu e o Barreto... Então, nós começamos a usar pessoas de São Paulo, das organizações, que eram pessoas que você conhecia no movimento estudantil. Aquele que você achava mais interessante, então, eu por exemplo convidei o Ottaviano del Fiori, a Betona, que eram da Quarta Internacional, o Walter Paixão... (...). Então você trazia esse pessoal da Dissidência, da AP, e confiava grupos, para que eles dessem esses cursos. Você passava mais ou menos o que a gente pretendia, e entregava os grupos na mãos, mas a, o pessoal dos próprios grupos, que acompanhvam a nossa liderança, falavam: 'Pô, o estudante que vocês arrumaram lá, pra dar curso, tá dizendo que vocês são porra-louca, que vocês não sabem como fazer...'. Ai o cara vinha lá com as palavras de ordem da AP: 'O povo na rua derruba a ditadura, expulsa o imperialismo'.... 

'Que é isso cara, é arrocho ou greve!'. 

Mas o cara não falou isso... Explicou o que era mais-valia, não?! Então cancela aquele grupo. Isso acabou reforçando o nosso discurso obreirista. Porque o pessoal vinha para cá, claro, eles queriam ganhar gente, queriam ganhar pessoas. Ai você entregava um grupo para o cara dar uma aula de marxismo... Então isso acabou reforçando o nosso obreirismo, foi depurando isso [isolando as correntes]. Já não entregava mais grupos... O único grupo que não fez um trabalho contra, que conservou a nossa simpatia, foi a POLOP, a cisão da POLOP, os dissidentes da POLOP, que viriam a formar a VPR. Até porque eles eram foquistas. Eles eram Debreistas, então eles não tinha uma posição para o movimento operário. Então, eles estavam aqui para ajudar, já que Osasco estava havendo uma radicalização, mas eles não tinham uma alternativa, então eles não fizeram um trabalho deletério junto aos quadros que a gente confiava a eles. E acabaram ganhando a nossa confiança, foram se aproximando... Nos outros grupos a gente deu uma gelada. 

Quando a greve chegava perto, todo mundo querendo fazer panfletagem própria, na porta de fábrica, etc, aquele desespero, a corrida às massas né... E a gente teve que criar uma linguagem... Teve que criar não... acabou criando uma linguagem própria. Os nossos panfleto eram panfletos escritos em um tom épico, sabe, romântico, a gente não terminava nenhum panfleto com palavra de ordem, esse negócio de povo na luta ou povo organizado, aquelas diferenças entre as organizações. No final até passamos a usar cor, imprimir papel em cor, papel colorido, espaço entre as letras. Os trotskistas faziam textos quilométricos, escrevia um lado, depois continuava do outro, panfleto em três páginas... (Os nossos nunca passavam de meia [página]). Todos terminando com palavra de ordem, espaço um... Nós escrevíamos com espaço 2, uma coisa legível, tamanho de letra maior, não muito maior, porque era máquina de escrever, era limitado, embora o sindicato tivesse máquina elétrica. Mas era na linguagem, quer dizer, então a gente estabeleceu formas de comunicação. Ai inventamos as terezas, é pendurar, colocar nos muros, na entrada de fábrica, e o pessoal sabia quais eram os nossos e liam os nossos. 

Nisso, o pessoal da POLOP acaba ajudando, o Dias, o Pio, a Ieda, então eles vão se aproximando, ganhando, o nosso, o grupo de Osasco, por outro lado, não era um grupo leninista, não tinha esse negócio de maioria, minoria, direção... Só havia direção moral e intelectual, não a direção orgânica.

Mas era um grupo de quantas pessoas, umas 20?

Esse núcleo? Era maior. É que ele era, como era um grupo espontâneo, ele era cheio de concêntricos. Então ele tinha um núcleo, núcleo, que se reunia para as coisas mais importantes, que eram 7 ou 8: era o Roque, o Ibrahim, o Pedro Proscursin, eu [Espinosa], as vezes o Davi Gronga, o Natael, o Neto (sempre), esse era o núcleo, um núcleo moral, não era um núcleo orgânico, digamos, eleito por ninguém, se perguntase para os outros se nós dirigiamos, os outros até ficaraim ofendidos. E, em torno desses, de cada um, havia outros, que também participavam em graus diferenciados, mas era um grupo que fazia tudo. Nós organizavamos o bailinho para arrecadaçãode fundos e participação, o pessoal tinha que se divertir também, salões de artes plasticas frequentes, frequentes, Waldomiro de Deus por exemplo, apareceu nessa época expondo os quadros, grupos de teatro, jornaizinhos, trabalho em periferia, festivais de música. Tinha festival de música com platéia diária, durava quinze dias, aquele sistema de seleção, torcidas organizadas, etc... com 1.500 pessoas assistindo todo dia, todo dia, aqui em Osasco, festival de musica popular de Osasco. Junto com isso a mobilização sindical, as passeatas, o movimento estudantil, e como a greve foi preparada nos mínimos detalhes, a nossa maior preocupação é que a greve ia acontecer... estava a Maria Antônia estava ocupada, desde abril mais ou menos, que a greve ia acontecer no recesso do movimento estudantil... Então nós bolamos um Curso de recuperação estudantil, com alunos de todos os colégios, e com professores que eram militantes do movimento estudantil que eu recrutava na filosofia, física, nessa época, ainda pertencia a filosofia, matemática ainda não era um estudo independente, biologia, psicologia, tudo isso ainda integrava a Maria Antônia, se bem que nem todos estivesse na Maria Antônia. Então, com estudantes de todas as tendências, trotskistas, stalinistas, o MCI, de todas elas, todos voluntários. Nós montamos a reprodução de um curso ginasial com todas as matérias, Curso clássico, Científico e Normal, todas as matérias. Conseguimos junto a prefeitura, um colégio, que era um colégio, municipal, que era um colégio de madeira que chamava Colégio Osasco, Osasco? Não lembro o nome do colégio... perto da Igreja... 

Dia primeiro de julho [de 1968] começou: Curso de recuperação escolar, 700 inscritos... alunos... E ali tinha excelentes... até hoje encontro pessoas que se lembram desse curso, falam: 'Pô, eu nunca aprendi tanta matemática quanto naquele curso que vocês organizaram, outros filosofia, em fim... Começou no dia 1º, a greve foi no dia 16 de julho. Bom, começou uma repressão desbragada, uns que davam aula tiveram que sumir, Waldir gordinho...Waldir Ferreira... O curso começou dezesseis dias antes. A gente sabia que a greve ia ser no dia 16. Estava programado. Era complicado, você não tinha mimeografo, tinha que...

O João Joaquim disse que na Cobrasma eram cerca de 100 pessoas que sabiam da greve...

O João Joaquim... A Frente [Nacional do Trabalho] tinha mô bronca do João Joaquim, porque o João Joaquim era uma cara da Frente, mas que acompanhava o nosso grupo. Era tido como infiltrado, ele era o cara que ia conosco. Era lá da Cobrasma o João Joaquim, ele era apontador de produção na Cobrasma, trabalhei junto com ele lá. E o pessoal mais velho da Frente, o próprio Groff, o Groff, o Zé Cândido, eles achavam o João Joaquim meio que uma infiltração dentro da Frente. Estou te falando isso porque acho que ninguém vai te falar...

Mas é um Curso que foi uma parte importante na greve, uma coisa completamente paralela, o que dá uma dimensão do trabalho que a gente fazia na cidade. Na verdade, o grupo de Osasco, era muito mais uma coisa anarquista. Nós éramos anárquicos, quer dizer, tudo valia. E como esse negócio que eu te falei da greve por causa do uniforme, do boicote do uniforme, um dia vestido de noiva, outro dia de traje de gala, que usava em festa de formatura.. E fizemos uma greve... Também não era só metalúrgicos, a greve dos metalúrgicos teve uma participação importante das moças da Granada que eram do setor químico, que participaram da ocupação do sindicato dos metalúrgicos, cozinhavam e faziam o trabalho de enfermagem durante a greve, e eram químicas. 

E qual foi a importância daquele primeiro de maio nessa organização?

É que são dois eventos diferentes. Mas os dois são preparados. O 1º

de maio também teve esse negócio de uma preparação, de núcleos, que estão um dentro do outro, em que cada núcleo mais fechado você tem uma coisa mais radicalizada. Então,o primeiro de maio foi preparado pelo conjunto do movimento sindical, incluía os pelegos, Joaquinzão, os pelegões tradicionais. E o MIA participava disso. Dentro desse movimento, do movimento sindical, foi negociado, que falaria, quantos falariam, falariam dois ou três do MIA. Um dos que falaria pelo MIA seria o Ibrahim. Foi negociada a ordem da... Isso no movimento sindical geral. O MIA, além dessa participação geral, se reunia à parte. Então o MIA falava da radicalização dentro da... depois de começada a manifestação. Algumas pessoas do MIA, sabiam da ocupação [do palanque], agora dento MIA, o pessoal de Osasco, o grupo de Osasco se preparou taticamente, para a ocupação, para tomar o palanque. Então, esse grupo Dory, Dory depois integrou a ALN e morreu lá em Presidente Altino. Estava... A casa dele foi cercada, ele tentou fugir pelo telhado, foi abatido, caiu do telhado no quintal, morto. O Dory era da construção civil em São Paulo. 

O Dory conseguiu porretes, esse porretes serviram para... você colocava cartazes. Na hora você tirava o cartaz, tinha um puta de um porrete com prego na ponta. Ele também conseguiu umas duzentas barras de fio de telefone, que você dobre e é um cassetete. Então, Osasco, nós preparamos o seguinte, Osasco mandou, se eu não me engano, 9 ou 19 ônibus, que foram para a praça das bandeiras, o pessoal concentrou lá. As lideranças, para as lideranças não tinha ônibus, foi todo mundo de trem. Eu por exemplo, fui com uma barra de fio amarrada aqui na cinta, chegar na hora e tirar. Vamos até a Praça Júlio Prestes. Ai fomos a pé, até a Praça da bandeiras. Lá juntamos, então, de Osasco tinha entre 900 e 1000 pessoas. Tinham outras pessoas de osasco que foram soltas. E esses 1000 de Osasco, é a Vanguarda de Fábrica e a Vanguarda estudantil, ou seja, era o pessoal nosso. Bom, pra você ter uma idéia disso, só para a VPR foram 80 quadros de Osasco. Osasco dobrou o número da VPR. Osasco deu expressão a VPR. 

E foram ganhos nesse meio tempo, de fevereiro até a greve?

Não, não, não. Depois, Todo mundo foi depois, ninguém foi antes do 1º de maio. Os únicos que no primeiro de maio, os únicos que já estavam no primeiro de maio, eu acho que era o Roque e o Barreto, só. Só os dois. Foram os primeiros a serem ganhos. Porque nós éramos um grupo anarquista. Então fizeram a cabeça do Roque, ganharam o Roque, ai fizeram a cabeça do Barreto, levaram o Barreto, e eu acabei entrando bem depois da greve, depois do primeiro de maio. E quando eu fui ganho pelo Admir, que era o Dias, em uma reunião lá casa da Jandira, que era mãe da Aninha, que era mulher do Roque, lá em Presidente Altino também, ela morava... Nessa reunião que eu fui ganho, eu soube que a Organização que estava tentando me recrutar, tinha preparado um esquema especial para o primeiro de maio. A Praça da Sé era um pouco menor do que é hoje, tinha mais uns sobradinhos num canto, uns prédios... E um desses prédios, tinha sido montado um ninho de metralhadora pelo pessoal armado. Se a repressão viesse, eles dariam um combate a repressão. Não houve repressão, o Abreu Sodré teve o bom senso de evitar isso, bom...

Mas, vocês estavam em número muito grande, não ia ser uma boa reprimir...

Não. Ia ser uma loucura. E o pessoal ia reagir a bala. E eles [a repressão] ia agir como? A bala. Morreriam dezenas de pessoas ali, ou até mais. Mas enfim, tinha, nós não sabíamos disso, na preparação. Isso foi uma iniciativa independente, dos quadros militares do que seria a VPR. 

Mas a VPR era pequena ainda nesse 1º de maio?

Era pequena. VPR devia ter uns 60 militantes. 

E estavam todos lá na praça?

Ah, sim. Não, a esquerda estava lá. O Marighela foi lá, o Jacob Gorender foi lá...

E o Lamarca era mesmo um dos chefes da segurança pela ditadura?

Não. O Lamarca é uma outra história que eu também sou a fonte por outras razões, porque depois acabei sendo amigo do Lamarca. O Lamarca estava no 4º RI [regimento da Infantaria]... Eu sou a fonte disso, porque ele morreu. Isso é uma coisa que ele me contou e eu passei para frente. O Lamarca era um oficial destacado, era um Capitão. (...). Mas, em fim, depois eu fiquei sabendo por ele, era um período em que havia uma entressafra de soldados da 7ª Companhia de Guardas. A 7ª Companhia de guardas era encarregada do policiamento do QG - Quartel General -, e reveza isso com a APE, era uma entressafra, os soldados antigo tinham dado baixa, e os novos ainda eram inexperientes. Então, nesse período, que estava dando guarda no QG eram os soldados do 4º RI, que não é a função deles normalmente. Então como o SNI tinha informado que haveria o primeiro de maio, que seria perigoso, que podia ser que a repressão da polícia paulista não desse conta, então, o exército botou um grupo de prontidão no QG. O Lamarca era o campeão de tiro, era tido como um Capitão CDF, caxias, então o Comandante do RI nomeou o Lamarca para comandar esse negócio. Então, foi a Companhia do Lamarca que foi deslocada para o QG e ficou à disposição, se a polícia de são Paulo chamasse, a primeira tropa do exército que entraria, seria esse grupo do Lamarca. 

Só que o Lamarca tinha, dentro da Companhia, um trabalho político. Com sete ou oito soldados, mais alguns Sargentos, etc, uma parte deles, acabaram depois desertando com as armas. E ele preparou os caras: 'oh, ninguém vai bater em pai de ninguém aqui, ninguém aqui vai bater em trabalhador", preparou o pessoal: "Vocês vai seguir o que eu, que sou o Comandante, mandar, está certo?'. E ele me disse que se eles fossem chamados, na hora de fazer a repressão, mudariam de lado. Na verdade, aconteceria outra coisa, tá certo? Teria um fogo cruzado nosso. O nosso pessoal que estava no alto dos prédios, com a força comandada pelo Lamarca. Um não está sabendo do outro. e acaba... em fim, nem sei como seria isso...

Bom, então estava esse pessoal em cima do prédio, o Lamarca no Quartel, Osasco, 900 a 1000 se concentram na Praça da Bandeira, vamos em passeata na Praça da Sé... Praça da Sé o pessoal estava se concentrando, estava ali... aquele clima no ar. Quando chega esse grupo de Osasco, com poucas pessoas da frente [Nacional do Trabalho], eu até acho que o João Joaquim devia estar nesse grupo. Quando esse grupo chega, e entra na Praça da Sé: '35% ou greve!', 'greve já!', com cartazes, agitando... Quer dizer, aquilo pega fogo, certo... O pessoal fala em 12 mil, não cabia isso. Praça da Sé... no máximo cinco ou seis mil. Metade do que falam. Hoje é maior, hoje caberia. Hoje cabe até uns 40, 50 mil. Mas na época não cabia isso. Mas era bastante. E também não estavam todos ali, estavam nas imediações, chegando... Mas ali dentro uns 5 ou 6 mil... E quando Osasco chega, mil entram no meio de 5 mil, quer dizer... é uma alavanca né... Aquele negócio se levanta, e o pessoal de Osasco vai, atravessa e cerca o palanque. Ai você começa a dizer: 'Vamos tomar o palanque!'. O plano era tomar o palanque quando o Ibrahim falasse, ou, se não desse nesse momento, quando o Abreu Sodré falasse. O Abreu Sodré não podia falar, esse era o plano, mas nem sempre acontece como você quer. Primeira coisa, o Ibrahim não chegou a Praça da Sé. O Ibrahim não participou. 

Por que?

Bom, o primeiro de maio rendeu uma intervenção no sindicato dos metalúrgicos...

Mas ele não chegou porque ele se atrasou ou porque ele decidiu não ir mesmo? 

Ele disse o seguinte, que o irmão dele não achou a Praça da Sé. Ele foi com o irmão. o irmão dele achou que ele não devia ir de trem e nem com o ônibus, devia ir de carro, e o irmão o levaria, e que o irmão dele se perdeu no caminho e não chegou. O fato é que o Ibrahim não chegou a Praça da Sé. Então, não haveria o discurso do Ibrahim.

Então, quer dizer que não foi proposital o grupo de Osasco esconder o Ibrahim?

Não, não [ênfase]. Quem falar isso está mentindo, quem falar isso está mentindo. Foi uma decisão pessoal dele. Que ele depois delegou para o irmão. Disse que o irmão dele não achou a Praça da Sé. Que era uma desculpa das mais esfarrapadas, que não fazia o menor sentido. Na verdade, eu acho que o Ibrahim fez uma avaliação, ele acho que seria uma porra-louquisse ele liderar a tomada do palanque. Que ele sairia de lá preso ou morto. E se não acontecesse um coisa ou a outra, ele estaria destituído do sindicato. E como nós já vínhamos preparando a alguns meses a greve, ele achava, o que eu acho até acertadamente, que a destituição dele da presidência, inviabilizaria a greve. Então, eu acho que é isso. Anos depois, eu falei isso para ele: 'não foi isso?, cá entre nós, não achar a Praça da sé, isso é desculpa esfarrapada'. Ele falou 'É mais ou menos por ai. Tanto uma coisa quanto outra, eu também estava pensando isso, mas na verdade meu irmão não achou mesmo'. Mas ai eu falei: 'E você não fez a menor questão de ajudar ele achar a Praça da Sé, não podia abrir o vidro e perduntar: oh onde é a Praça da Sé? Qualquer criancinha te falaria'. Mas em fim. Mas eu acho que foi uma decisão dele, aquelas decisões difíceis de um cara dizer que fez, e principalmente porque depois disso ele passa a ser cultuado, é o lider das massas operárias, o lider da principal manifestação de primeiro de maio, que lavou a alma da classe trabalhadora, que foi uma bofetada no meio da cara da ditadura, então porra, o cara vai dizer 'eu não fui'. Então criou aquela situação. Mesmo porque o sindicato foi caçado, o sindicato sofreu uma intervenção que durou 15 dias, e 15 dias depois ele voltou a... ele e a chapa dele voltou... Muita gente da Frente, o Zé Cândido, etc., torcia para que o Ibrahim não voltasse. Inclusive chegaram a conversar com o General Silvio Gaya, que era o delegado do trabalho em São Paulo, para que o Ibrahim fosse afastado... 'Bom vai sobrar para a gente né'. Mas, 15 dias eles ficaram fora, mas era um intervenção voltada contra o Ibrahim... (...).

E ai também, como a chapa era... não havia... na chapa, quem era o presidente, o vice. Essa questão, de que é o presidente, o vice, é uma questão interna da chapa. Você até coloca na propaganda e tal. Mas não... O regulamento da eleição sindical não exige essa definição. Bom... então foi isso. Mas, agora, na Praça da Sé, também o Abreu Sodré não chegou a falar, tem alguns... Já li em livros assim: 'Quando Abreu Sodré começou a falar...'. Mentira, porque nós não conseguimos controlar também. A idéia era essa, só que o Ibrahim não chegou...

Mas o Abreu Sodré estava em cima do palco na hora?

Estava. Estava no palco, ele o Vandré...

(...)

Ai, o que eu me lembro, naquele burburinho, falou um sindicalista, falou um outro, acho que nem o Joaquinzão chegou a falar... Mas, ai, de repente, começou aquele mexe, mexe, se entendeu? E começa a balançar o palanque, de repente vem um ... ovos jogados no palanque, que atingem várias pessoas, uma acerta o Abreu Sodré. E eles saem correndo do palanque, eles descem. Atrás tinha a escadaria para a Igreja, que era uma escadaria mais pronunciada do que hoje. (...). Antes era maior... Mas, ai, sobem todos correndo e entram... O Vandré estava no palanque... Ai, eles descendo do palanque, uma outra turma sobe... E de repente, quem está com o microfone na mão: José Campos Barreto, não estava no plano. Ai o Barreto faz ali o discurso agitado, chamando para a greve, falando da ditadura, quer dizer, faz o discurso da cultura VPR, em que ele já estava, passa a palavra para o Neto, e fala mais um cara que é do ABC... falam uns três. Ai eles convocam para a passeata, quem também não estava prevista, até a Praça da República. Ai sai a passeata, na hora nós não tínhamos organizado uma segurança, quem estava na passeata, uma segurança mais ou menos organizada, era p José Dirceu da UEE, ai o pessoal da UEE começa a fazer a segurança da passeata, com uma posição, que era a posição da dissidência do partidão. Então, são eles que impedem que o CitiBank seja completamente quebrado, um cara que estava no meio da massa, eu conheci esse cara depois, o Barbosa, o Jessé, esse cara acabou quebrando o vidro do Citibank. Mas ai, os seguranças do José Dirceu impediram. Mas à frente nós passamos pela concentração da Guarda Marítima, a Guarda marítima era a elite da Força Pública, ai eles impedem... Apesar disso, alguns dos porretes que sobraram, nós jogamos na Guarda Marítima, provocando a Guarda Marítima. Mas eles tinham ordem de não intervir (..), devia ser uns 120 ou 240 mais [na guarda marítima] no começo, depois tinha mais se fosse preciso, claro, é o estado né... Mas eles não reagiram a nossa provocação. 

A turma do Zé Dirceu, também, fazendo a segurança impediu que a gente se aproximasse mais. Mas a marcha continuou. Na Praça da República tinha um Coreto. Ai o Barreto sobe, na Praça da República, no Coreto, e o Barreto faz o discurso... Ai, esse discurso do Barreto, já é chamando para a revolução, para a derrubada armada da ditadura, chamando para a guerrilha no campo e na cidade, em fim. Um discurso que não estava nos planos, tá certo, não estava planejado. O plano era outro, era tomar o palanque na hora que o Ibrahim falasse, talvez fazer uma pequena marcha pelo centro, no caso, era feriado, não estava tudo cheio de gente, mas em fim, foi isso que aconteceu no Primeiro de Maio. 

Quer dizer, foi um primeiro de maio emblemático, que rendeu cassação, cassação não... a suspensão do mandato da diretoria por quinze dias. Mas com isso, o clima para a greve fica pronto, tá certo, o clima para a greve fica pronto. E a campanha, o que falta é só ultimar os preparativos. O panfleto sobre o primeiro dia da greve, que era um panfleto descritivo, quer dizer, começava com o seguinte: 'Hoje as oito da manhã, o apito da fábrica da Cobrasma'... Conforme os planos, não tinha acontecido [a greve ainda], a gente mandava rodar no mimeografo, precisa dizer que tinha muita relação muito positiva com os trotskistas... Quem roda é a UEE, José Dirceu, a gente conversa com o Zé Dirceu, só que eles precisavam de quatro dias para rodar. Então, quatro dias antes, o panfleto que circularia no dia 16 de julho, já estava escrito, estava sendo rodado. Descrevendo, nesse estilo dos nossos textos: 'Hoje, o apito da fábrica tocou fora de hora, eram oito e quinze da manhã (...), não era festa, não era nada, era greve. A greve contra o arrocho. A greve pela dignidade dos trabalhadores. A greve (...)'.

Foi rodado, quer dizer... Estava sendo rodado enquanto a gente fazia... ultimávamos... E, o começo da greve, foi exatamente como nós prevíamos. Na Cobrasma, ai começaria pela limpeza e acabamento...

A greve de Contagem impactou aqui em Osasco?

Muito, muito. Houve dois impactos: o mais importante deles foi o de Contagem. Todos os nossos cálculos eram baseados em Contagem. Em Contagem, levou 10 dias para que a repressão fosse ativada, houve 10 dias de tentativa de negociação. Então a gente também achava que eles iam tentar negociar. Em Contagem, a diretoria do sindicato disse que foi pega de surpresa e que a greve era espontânea. Nós também planejamos isso, o sindicato ia fazer de conta que não sabia de nada. O Ibrahim ia se oferecer como mediador, se ofereceu como mediador. Então, o plano todo baseado em Contagem. No primeiro dia foi certinho, as 8:15 da manhã, 8:20, tocou o apito, começou na limpeza e acabamento, foi tomado o refeitório, foi organizado, o Barreto assumiu a liderança, foi para a porta, montamos guardas na portaria. Eu estava do lado de fora, ai eu já estava na VPR, a VPR alugou dois aparelhos: um aparelho aqui na Vila Iara, um quilômetro acima daqui [região próxima ao centro de Osasco], onde funcionaria a imprensa, tinha lá mimeografo, em fim... a imprensa. Três aparelhos foram alugados...

A VPR já tinha um grande número de militantes em Osasco?

Ah sim. Só o Ibrahim não tinha entrado, o Neto entrou na véspera... Ai já tínhamos entrado em uns 40 mais ou menos. As principais lideranças já estavam todas na VPR.

Era em Osasco que estava o maior núcleo da VPR?

Ah sim. O maior núcleo. E da VAR-Palmares também. Sempre foi. Claro, a VAR-Palmares depois, é uma organização bem maior, nacional. Mas Osasco sempre foi muito expressivo.

A VAR-Palmares tinha quantos militantes aqui em Osasco?

Os 80 ficaram. O único que não foi para a VAR-Palmares foi o Neto. O Neto ficou na VPR. 

Então tinha uns 80 na VAR-Palmares e mais uns 40 na VPR?

Não. A VAR-Palmares é o resultado da VPR. Quando a VPR fundiu com a COLINA, surgiu a VAR-Palmares. Deixou de existir a VPR. Depois, houve um racha dentro da VAR-Palmares, esse racha adotou o nome de VPR, o mesmo nome, que eu, para clareza, chamei de VPR II. Dos 80 de Osasco, cerca de 80, um foi para a VPR II, que é o neto. Os outros todos ficaram na VAR-Palmares, muitos já estavam presos, em fim, mas ficaram na VAR-Palmares. (...). Então, a VPR tinha esse aparelho na Vila Iara, um outro aparelho na Vila Iolanda, que era para funcionar como enfermaria, você levaria pessoas para serem... que fossem feridas, para serem cuidadas, tinha médicos da VPR, o Pio, que era médico. E um outro aparelho no São Francisco, São Francisco pertence a... São Francisco não... Jaguaré... Jaguaré já não pertence a Osasco, pertence à São Paulo, que era um aparelho de retaguarda, se precisasse esconder alguém, etc. Bom, esses três aparelhos aconteceu o seguinte, nos confrontos da Cobrasma, machucaram algumas pessoas, uma delas foi o próprio Natael, foi levado para o Vila Iolanda. O nosso aparelho aqui, de imprensa, puts, nós desconfiamos que ele tinha caído, porque era uma circulação... entra papel, sai papel, gente, e começou a greve, e, puta, todo mundo olhando, puta, vai cair esse aparelho de uma hora para outra. Ai resolvemos desativar. Fomos lá para o Jaguaré. Ai ficamos no Jaguaré. E a greve, depois de ocupada [a Cobrasma], estava dentro dos planos, o Ibrahim se ofereceu para a delegacia do trabalho como intermediador, como mediador, foi junto com o delegado do trabalho, com os donos da Cobrasma, chamaram uma assembléia no meio da...

Essa assembléia foi às 10 da manhã? 

Depois... Meio-dia, que durou até umas três da tarde, quatro. Ai, bom, não houve acordo, porque não era para haver mesmo, tá certo?! O Ibrahim fez o papel, difícil, de ator, ficar fazendo de conta no meio. Não podia sair com esquema, o carro do sindicato saiu, aparece. Saiu a pé pela rua da estação, foi quando ele foi localizado pelo pessoal do Fábio Munhoz, trotskista, do primeiro de maio, e sumiu. Bom, à noite vem a repressão. Além da Cobrasma, foi ocupada também a Lonaflex. Estava previsto que no dia seguinte, seria ocupada a Brown Boveri. (...). Isso deveria acontecer só no dia seguinte. Nos outros lugares haveriam paralisações, por exemplo, a Barreto Keller, que era o segundo fato que eu esqueci de te falar:

O primeiro impacto foi o de Contagem. O segundo foi uma greve espontânea que aconteceu na Barreto Keller. De repente, como fruto da nossa agitação, o pessoal da Barreto Keller se avançou e fez uma greve em abril, na mesma época que Contagem. E acabaram se incorporando, entraram todos no grupo, na Vanguarda, e houve um acordo intermediário para esperar a outra greve, a greve de verdade. 

Então [durante a greve da Cobrasma] nós iríamos para a porta, e disseram que não tinham condições de parar sozinho, e então nós tivemos que ir até a porta, e montamos um piquete na porta. Só que além da Barreto Keller, na hora do almoço, além da Barreto Keller, as moças, químicas, da granada, também entraram. Fomos em passeata até o centro de Osasco. Houve também passeata da Brás-eixos, que era em frente a Cobrasma, [foram] até o sindicato. Então ninguém ficava desativado, desmobilizado, não eram como as minhas [greves da adolescência], que eu voltava para casa de bicicleta, botava um calção e saiu procurando um campo. Bom, e ai foi. algumas fábrica não pararam no primeiro dia, a Brown Boveri, por exemplo, só pararam no segundo [dia], a Brás-eixos também, só parou no segundo, o [Joaquim] Miranda trabalhava na Brás-eixos.

Mas ai, no primeiro dia, 8:00 da noite, a repressão baixa na Lonaflex, cercam a Lonaflex, fica aqui em cima [faz um gesto]...

E na Cobrasma eles ainda estavam negociando?

Na Cobrasma nem estava negociando, já tinha interrompido. Na Cobrasma, o pessoal [da negociação] foi embora, foi servido o jantar, em fim, foi reforçada a guarda para a noite... 

Ai a cavalaria, PM, veio aqui para a Lonafex. Fechou, intimou... O Neto, avaliou de dentro que não haveria condições de resistência, resolveram sair e ir para o sindicato. Foi o que aconteceu... Saíram na hora, no dia seguinte alguns foram para o sindicato. A dominada a situação aqui [na Lonaflex] eles rumaram para a Cobrasma. Ai com força total contra a Cobrasma. Na porta da Cobrasma teve aquele lance, que o filme até mostra, tem também um CD feito pelo sindicato (...). A Cobrasma é desocupada na porrada. Lá pelas dez da noite, nove e meia, dez da noite, a cavalaria irrompe portões a dentro. 

O pessoal da Lonaflex vai para a frente da Cobrasma?

Não, não. A Lonaflex desocupou, a maior parte foi para casa. As lideranças foram para o sindicato. No dia seguinte, uma parte da massa da Lonaflex, ao invés de ir para a Lonafex, foi para o sindicato.

[na Cobrasma], a repressão vai das 9 e meia, 10 da noite até umas 4:00 da manhã, para desocupar a Cobrasma. Ai tem porrada, um monte de gente é presa. São presos 400 dentro da Cobrasma. São colocados lá na frente, aquela fotografia, que tem um cara na primeira fila, aquele cara é o Natael, que está com as mãos na cabeça. Está no Paraná hoje. era da VPR, VAR-Palmares, foi preso depois, respondeu a processo, o advogado dele, aliás, foi o mesmo que o meu e o da Dilma, do Amazonas (...). Então, prendem 400 ali, os 400 são levados para o DOPS. Dos 400 não foram todos, uns 200 foram levados para o DOPS, foram soltos em 1 ou 2 dias, foram soltos. 

No dia seguinte, nós marcamos uma assembléia na Igreja, dia 17, na Igreja Matriz de Santo Antônio, ai no meio da assembléia, irrompe a polícia. Um padre entregou. Ai nós conseguimos marcar uma outra assembléia no outro dia... Bom, acontece a mesma coisa...

E nesse primeiro dia, na assembléia na Igreja, tem prisões?

Já. Todas elas tem prisões. No [dia] 18 também tem prisões. E com isso, o movimento fica acéfalo, o sindicato desaparece. Então, nós, a partir desses aparelhos da VPR, assumimos o comando. O Ibrahim sumido, Barreto preso na polícia federal, por ter liderado a ocupação da Cobrasma, o sindicato, os sindicalistas sumiram, todos. Também ninguém queria assumir, porque a Frente [Nacional do Trabalho] não ia querer se queimar. Então nós acabamos meio que assumindo, a VPR, mais os quadros mais destacados da vanguarda, aqueles que você encontrava. E você encontrava esse pessoal como, na rua, você entendeu?! Ia para a rua tentar achar gente, localizar, 'vamos montar um piquete', para ir a um lugar a outro, começamos a inventar coisas... fazer piquete, por exemplo, em um aponte que havia no Piratininga, para que o pessoal que vinha do bairro do Piratininga não chegasse. Montava piquete para as ruas... As ruas todas ocupadas pela polícia, cada esquina dois soldados armados, tal. Então você passava escondido no carro. Escondido no carro, cheio de boné, em fim, disfarçado. Ia lá para um bairro de periferia, onde passava muito ônibus, ai você colocava o carro atravessado na rua, ia parando os ônibus, entrava dentro dos ônibus, fazia discurso, pedia para o pessoal descer, para o motorista ajudar, engarrafava o trânsito. Então não ia, os trabalhadores daquele bairro, trabalha naquele dia.

Ai, nesse meio, nós fazemos, no aparelho do Jaguaré, um panfleto, um balanço da greve, que é assinado pelo Ibrahim que estava sumido, pelo Barreto que estava preso. Assinatura dos dois. E propondo a continuidade da greve como 'greve de grevilha', mas não tinha jeito, foi se esvaziando, se esvaziando, e em 10 dias todo mundo já tinha voltado. Apesar disso, houve aumentos, os patrões perceberam que o clima não estava favorável e houve aumentos, mas também houve repressões. A Brás-eixos, por exemplo, eles construíram uma espécie de cerca entre as seções, para impedir a circulação, a partir daí. Intervenção no sindicato, nomearam interventor, demissões em massa. 

Nesse meio tempo, caí um cara chamado Joel Clemens, esse cara era da AP [Ação Popular], nesse meio tempo não, depois. Em janeiro [de 1969] tem prisões da VPR, ai é VPR já, passa a se chamar VPR em dezembro. (...). Em fevereiro caiu um cara da AP, aqui em Osasco, que era um pastor, Chamado Joel Clemens, era um belga, e esse cara caiu com um caderno com atas de várias reuniões. Ele tinha participado de algumas reuniões da Vanguarda Operária de Osasco. Então ele colocava titulo: 'Reunião da Vanguarda, dia tal'. Só que tinha sido presa a VPR. Ai 'Vanguarda do dia tal, José Cupertino de Novaes, o Groff, não sei quem... não sei quem'. Ai os caras saem prendendo, prendem 60. São levados para o DOPS, inclusive são torturados. Um desses 60 é o próprio Albertino. Só que eles estavam imaginando que era a Vanguarda Popular Revolucionária. 

Então os militares já estavam torturando em 1968?

Já, Já. O Barreto foi torturado. Mas isso [do caderno], foi em 1969, porque a ata que o cara... Nós nem sabíamos que o cara fazia ata, imagina. Não era nossa prática fazer ata da reunião da Vanguarda. Mas as pessoas que ele nomeia na reunião... 'Fulano falou isso, beltrano falou aquilo'... A repressão foi buscar um por um, imaginando que eles fossem da VPR. 

Mas, e se eu te perguntasse, por que não foi vitorioso o movimento de 1968?

Ah, não tinha clima. Não tinha condições objetivas. Bom o plano da greve, além de... Até a.. essa reunião que eu te falei, na Cobrasma, até ai foi conforme o planejado. Depois disso, a repressão não fez mais a parte dela [risos], ela tinha que esperar pelo menos mais uma semana. Mas ai, nos nossos acertos, seria ocupada no dia seguinte a Brown Boveri, o que não aconteceu, a greve se ampliaria, três ou quatro dia depois, Guarulhos entraria em greve em solidariedade. Se Guarulhos conseguisse entrar, uma parte dos metalúrgicos do ABC também pararia. A greve, depois chegaria a Santos. Chegaria ao Rio de Janeiro, depois do Rio chegaria a Contagem de novo. Então, o plano, era que a greve de Osasco se transformasse, que Osasco fosse o estopim de uma greve geral. Como a repressão não fez a parte dela conforme o planejado [risos], não esperou o tempo que nós precisávamos, então tudo isso foi abortado. Bom, porque que não deu certo, porque as condições objetivas não estavam favoráveis para a gente. 

Então não é porque foi feita por um pequeno grupo? Porque 100 pessoas apenas sabia da greve?

Olha, é uma interpretação possível. Uma interpretação possível. Mas eu acho que não. Porque saber da greve, todo mundo sabia, todo mundo tinha sido atingido pela propaganda. (....). Um pouco mais, era umas 400 que sabia. O que umas 400 pessoas sabia mais detalhadamente era dos planos. Estavam inseridas nos planos. Agora, debaixo da ditadura, de um policiamento intenso e ostensivo, a greve só aconteceu porque foi preparada clandestinamente. Se você fosse decidir em assembléia o dia, o local, quem ia desligar a máquina tal, não teria acontecido. Ela só aconteceu porque foi organizada clandestinamente e a maior parte dos planos não era de conhecimento da repressão. Porque foi preparada em planos distantes. Cada um desses 400 sabia o que ele ia fazer, mas não sabia o que os outros fariam. Se de repente um entregou, foi um pedaço que caiu, mas a maior parte foi preservada. Agora, só tinha como... Como é que você faz uma preparação detalhada, técnica, debaixo de uma ditadura, aliás, mesmo na democracia, imagina se o movimento do Passe Livre conta qual vai ser o trajeto, acabou o movimento.

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Dois relâmpagos na noite do arrocho
Retirado do site: http://www.centrovictormeyer.org.br/attachments/104_Greves%20de%201968.Cadernos%20do%20presente-2%2007.1978.pdf
 
A.R. Espinosa


As greves operarias de Osasco e Contagem em 1968 foram apenas dois breves e

intensos relâmpagos. Não bastaram para trazer a classe operária à luz do dia da luta política. Depois do breve (brilho) seus lampejos apagaram-se na longa noite de 14 anos (1964-1978) em que o movimento operário se viu reduzido a resistências individuais ou moleculares. A importância dessas greves, entretanto, não foi obscurecida pelos dez anos que se seguiram. As bandeiras da contratação coletiva do trabalho, dos reajustes trimestrais do salário e do desatrelamento da estrutura sindical voltam hoje a tremular, orientando a luta de milhares de trabalhadores. Nas secções de fábricas, agências de banco e até nos escritórios volta a correr uma expressão que sensibiliza um número crescente de trabalhadores: a organização de comissões de empresa. Ao mesmo tempo que se torna necessário compreender as leis que regeram a noite - arrocho salarial acompanhado de incapacidade de resistência da classe operaria — torna-se também imperioso saber o que foram exatamente e como ocorreram os relâmpagos - ou seja, como surgiram e se desenvolveram os movimentos de Contagem e Osasco e por que eles não tiveram continuidade.
 Na época, 1968 parecia o ano da grande revanche. Pelas milhares de cabeças que o incendiavam, passava a certeza de que aquele era o ano da lavagem de alma dos movimentos populares derrotados em 1964. E tudo se passava como numa festa, em que

muitos dançavam, mas os músicos e os principais dançarinos eram os estudantes; onde o vinho servido tinha o cheiro e o gosto da rebeldia estudantil. E tudo ocorria também como numa festa com hora certa para terminar: hora essa que não havia sido fixada pelos estudantes e nem eles sabiam qual era, mas que já estava próxima.

Depois da morte de Edson Luís, em março, o movimento estudantil entrara num período de rápido ascenso. Passeata dos cem mil; movimentos de rua nas principais cidades; luta acirrada entre as várias correntes políticas pelo controle da UNE e das UEEs (Uniões Estaduais dos Estudantes); correntes políticas tentando romper o cerco do movimento estudantil e influenciar o desenvolvimento dos movimentos de outras camadas sociais; ocupação de faculdades etc. Esse ascenso refletia-se também no surgimento de inúmeras entidades de profissionais liberais, artistas e intelectuais, que se inspiravam e viviam à sombra do movimento estudantil.

O movimento operário de 1968, certamente, tinha sua dinâmica própria, mas ela se confundiu, foi influenciada pela dinâmica dominante no microcosmo das oposições. As palavras de ordem gritadas pelos operários em 1968 não podiam deixar de misturar-se às vozes que entoavam as canções de Geraldo Vandré. Assim, a greve de Contagem em abril, o 1" de maio de 68 na Praça da Sé, a greve de Osasco em julho vieram a animar e a alimentar a grande esperança da desforra. A segunda greve de Contagem (outubro) ocorreria já numa conjuntura de descenso.


Os estudantes: entre a origem pequeno-burguesa e a vontade de chegar ao proletariado

Entre 1966 e 1968, a história do movimento estudantil, grosso modo, pode ser dividida em dois períodos: o primeiro vai de setembro de 1966 até o final de 1967; o segundo compreende fundamentalmente o ano de 1968. No primeiro momento, expressando à sua maneira a insatisfação generalizada da pequena burguesia, o movimento estudantil lançou suas bases e cresceu. No segundo momento, em face do processo de recuperação da pequena burguesia pelo regime, o movimento estudantil passou a se definir e organizar de 37 forma autónoma, em função de uma dinâmica interna que o fazia privilegiar a necessidade de aliança com uma outra classe social, o proletariado.

1965, 1966 e a primeira metade de 1967 é o tempo em que a pequena burguesia se afastou do regime que havia ajudado a instaurar em 1964. Em 1964, grande parte dessa camada social se manifestara contra o comunismo, clamando pelo golpe de Estado que redimiria a propriedade privada, a ordem, a moralidade e as "tradições ameaçadas".

Depois do golpe, com efeito, essa camada assistiu às investidas do novo regime contra os sindicatos, entidades e outras associações profissionais; acompanhou as intervenções feitas em todos os setores da vida social, com as prisões e cassações políticas e a perda de empregos pelos possíveis opositores, etc. Só que, além disso, o regime também promoveu uma redistribuição da propriedade, que favoreceu os grandes capitais nacionais e multinacionais - a "operação saneadora" do ministro Roberto Campos. Em conseqüência, centenas de pequenas empresas foram obrigadas a cerrar suas portas em 1965 e início de 1966. Para acertar as arestas e inaugurar um novo ciclo de acumulação capitalista também foi necessário reduzir os salários ou rendimentos profissionais das camadas médias. Logo depois do golpe, portanto, setores da pequena burguesia se viam de novo às voltas com risco da pauperizacão. Fato que ilustra isso: a breve crise da indústria automobilística, cujos pátios se encheram de automóveis para os quais não havia compradores. A propósito, a votação obtida pelo MDB nas eleições de 1966, quando ele ainda era tido como co-irmão da ARENA foi bem alta (só superada pela votação de 1974); também foi elevada a quantidade de votos nulos, através da campanha do MCD, promovida pela UNE.

Em 1966, quando voltou à evidência, o movimento estudantil foi entusiasticamente saudado nas ruas. Durante a "setembrada" (passeatas realizadas em setembro de 1966 em São Paulo), dos prédios choviam papéis picados sobre os estudantes. As campanhas em favor dos excedentes (vestibulandos para os quais não havia vagas nas universidades) eram encaradas pela classe média como movimentos seus. E o movimento estudantil crescia rapidamente. Chegou a quase todos os Estados, penetrando nas principais faculdades e se ampliando até a algumas escolas secundárias. A UNE voltou a se fortalecer, embora clandestina, e ressurgiram as UEEs e algumas entidades secundaristas, como a UBES.

Em 1967, completada a "limpeza da área", ou seja, redistribuída a propriedade segundo o modelo de acumulação que asseguraria a retomada e o "milagre", as várias frações e setores da burguesia estavam coesos em torno do regime. Tornava-se então possível reconquistar o apoio da pequena burguesia também porque, em parte, o desenvolvimento seguinte se processaria em cima do "consumismo" dessa camada da população. Fatos que ilustram isso: a criação de consórcios para a venda de automóveis; a política do BNH, para a venda de casas; a politica creditícia e os financiamentos para a venda de todas as modalidades de bens de consumo. Afastado o temor do empobrecimento generalizado a pequena burguesia reapurou os ouvidos para a fraseologia anti-comunista, moralista e "ordeira" do regime. Nesse quadro, a passeata dos cem mil, na Guanabara, não representou mais que o agradecimento final da pequena burguesia, que se despedia daqueles que haviam encarnado suas insatisfações.

A grande imprensa e as "famílias", aos poucos, passaram a ver o movimento estudantil como sinônimo de subversão e de ameaça à ordem. Tendo se aprofundado bastante nas escolas que mobilizara, o movimento deixa de se espraiar, passando a radicalizar apenas com as bases que já tinha. Num ritmo acelerado, os estudantes promovem seguidas manifestações de rua, sucedendo-se os combates com a polícia. Agora já sem as chuvas de papel picado, mas com os resmungos dos "chefes de família" que não mais queriam perder a hora do jantar nas ruas congestionadas.

Isolado da classe que lhe dera sustentação, o movimento estudantil passa a definir-se tendo como referência sua dinâmica interna. Seu móvel passa a ser um outro setor social, o proletariado, mas as organizações políticas que nele atuavam buscam açodadamente o controle das entidades estudantis (em São Paulo chegou a haver duas UEEs). O processo de busca do proletariado, na verdade, vinha desde 1966, mas só em 1968 assumiu formas quase dramáticas. E não só os setores atingidos pelo movimento estudantil ou pelas 38 organizações políticas estudantis seriam marcados por ele.

Frustrado em seu objetivo de conseguir uma vinculação significativa com a classe operária e corroído por suas lutas internas, o movimento estudantil estava historicamente condenado. Seu fim dependeria apesar de outros tantos enfrentamentos com a polícia, com o Congresso de Ibiúna.

A influência estudantil sobre o movimento operário

Nos momentos de extrema desorganização, decorrentes de derrotas profundas ou da inexistência de uma consciência de classe autônoma, a passagem da classe operária a uma atitude combativa depende de acontecimentos exteriores que tenham reflexos imediatos junto a ela. Utilizando uma metáfora: quando adormecida, é necessário algum impulso exterior para que ela acorde, mas é ela quem acorda. O sono não é sinônimo de morte, mas de uma vida sem atuação sobre o exterior. Implica, antes de mais nada, numa ação voltada para o interior, de sobrevivência.

Historicamente, esse "impulso externo" sobre a classe operária têm sido as crises

econômicas e/ou políticas que abalam o sistema de dominação. As próprias crises criam

condições para a movimentação da classe, que reage à depreciação de suas condições de

vida, animando-se ou reanimando-se. Geralmente, contudo, tem sido necessário um outro elemento social para a ativação do proletariado: os protestos das classes médias. Estas, em virtude de sua organização social, intimidade com as "ideias" e o poder, têm condições de se mobilizar muito mais rapidamente. E o fazem sempre que, para elas, é iminente o risco de proletarização. Nesses momentos, a pequena burguesia procura incendiar o ânimo do proletariado por ver nele o aliado ideal para conter seu próprio empobrecimento. Depois, dependendo da duração da crise, do grau de consciência e organização alcançado, o movimento operário pode adquirir força e clareza para caminhar sobre seus próprios pés, inaugurando um processo de construção de sua autonomia política e ideológica.

A animação do movimento operário em 1967/68 foi diretamente influenciada pelo movimento estudantil e pelas organizações políticas estudantis. Mas essa influência teve um peso diferente sobre cada setor ou parte da classe operária, variando segundo o tipo de tradição e organização local e, também, de acordo com o grau de clareza e capacidade das vanguardas locais de receberem influências externas e de dirigirem suas bases.

A própria natureza da influência do movimento estudantil, entretanto, já estava

historicamente marcada e delimitada em função de sua capacidade de sobreviver. O movimento estudantil já perdera suas bases de sustentação social. O regime se fortalecera em virtude da coesão das frações e setores da burguesia e já reconquistara o apoio da pequena burguesia. A questão social - operária, estudantil ou outra - só teria um tratamento: o da força. Para desarticular o movimento estudantil, que começava a adotar formas de luta mais violentas, ou para pôr em prática a política de contenção salarial (peça-chave do "milagre econômico"), o regime não encontraria qualquer obstáculo para lançar mão dos recursos policiais que se fizessem necessários.

Assim, embora o movimento estudantil tenha aberto espaços efetivos para a mobilização operária; apesar de ter ido "cutucar" os operários lá onde eles estavam e de haver obtido respostas, acabou também influindo sobre o isolamento e a radicalização dos setores mais organizados da classe operária (Osasco e Contagem). O movimento operário, dessa forma, não teria tempo para se organizar independentemente, para passar a marchar sobre os próprios pés. O desfecho da greve de Osasco (julho) e da segunda greve de Contagem (outubro) inauguraria o maior período de descenso do movimento operário dos últimos 30 anos.

A desorganização das bases, a intensa vigilância policiais e o domínio aberto dos sindicatos pelo peleguismo seria o tripé determinante da conduta operária nos anos seguintes. Logo após as derrotas, parte dos líderes operários acompanharam os estudantes mais combativos na aventura militarista, por meio de pequenos grupos, pretender derrotar o Estado pela via armada. Do ponto de vista organizativo, essa tentativa desesperada acabaria permitindo ao regime aplicar seu golpe de misericórdia no movimento operário (e 39 também no estudantil).


As condições para a reanimação do movimento estudantil

Em 1967, ou seja, apenas três anos depois do golpe de Estado, os salários reais já haviam caído cerca de 35% (ver, neste caderno, o artigo de Ana Jover sobre a CPI do arrocho). Num espaço de tempo bastante curto, portanto, as condições de vida dos trabalhadores haviam sido rebaixadas a ponto de provocar uma profunda insatisfação. O arrocho salarial não decorria de uma crise no modo de acumulação capitalista, mas, pelo contrário, decorria do novo modo de acumulação. Não refletia por isso, uma crise grave do sistema. Entretanto, a não resistência aberta da classe operária ao arrocho não pode ser explicada apenas em virtude da disposição do regime em impedir qualquer contestação à sua política econômica. Ela se devia principalmente a dois outros fatores: primeiro, a desarticulação das atividades sindicais em 1964; segundo, a profunda desorganização e desmobilização das bases depois do golpe de Estado.

A desarticulação das atividades sindicais em 1964 foi realizada mediante intervenções em centenas de sindicatos, acompanhadas pela prisão ou simples perda de emprego por parte de dirigentes sindicais. A propósito, consta que só em São Paulo mais de mil delegados sindicais perderam seus empregos depois do golpe. Inúmeros líderes operários que não foram presos foram forçados a mudar para outras regiões por não conseguirem emprego em suas cidades. Os interventores nos sindicatos e seus sucessores eleitos em 1965 – eles próprios ou candidatos por eles apoiados - formaram uma nova casta de pelegos caracterizada pela extrema docilidade em relação ao poder e por sua capacidade de desmobilizar as bases (transformaram os sindicatos em órgãos meramente assistencialistas).

Com o golpe de 1964, a classe operária ficou acéfala pois, de fato, antes ela realizava um dos mitos preferidos da burguesia: isto é, tinha "cabeças". A prática pré-64 era essencialmente cupulista (acordos interdireções sindicais) e a "massa" só era mobilizada para reforçar as manobras ou acordos das cúpulas. Sua mobilização era operada principalmente através de piquetes (que reuniam os quadros mais combativos da classe), que não contribuíam para elevar o nível de consciência e organização das bases. A aplicação da legislação anterior a 64, principalmente a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), mais a substituição dos antigos dirigentes sindicais, bastou para que o regime desmobilizasse a classe. As leis baixadas pelo governo militar, como a lei 4330 (lei antigreve) e a campanha sistemática de intimidação policial foram suficientes para que as massas, desorganizadas, fossem desmoralizadas e inativadas a ponto de se incapacitarem a resistir à política do arrocho. (A esse respeito, ver neste caderno a mesa redonda realizada com líderes operários paulistas).

Fenômeno ilustrativo da desmobilização e da incapacidade de organizar-se para a luta contra o arrocho são as raras e pequenas greves ocorridas em 1965 e 1966. Sem dúvida, a classe operária estava afetada pelo arrocho, mas as greves travadas nesse período sequer colocavam o fim do arrocho como um de seus móveis: as razões alegadas para sua realização foram atrasos de pagamento, cortes de funcionários (os facões) ou o não cumprimento do dissídio pelos patrões. (Única exceção: a "operação tartaruga", realizada pelos operários da Cobrasma, de Osasco, em fins de 1966; mas Osasco, nessa época, já se distinguia no conjunto da classe operária).

Não bastava, portanto, uma razão suficiente para uma reação da classe operária (condições de vida extremamente deterioradas pelo arrocho), era necessário mais: era preciso que a classe fosse despertada na sua vontade de luta, que ela se sentisse minimamente organizada ou, pelo menos, amparada, para retomar a iniciativa.

O impulso necessário à reanimação do movimento operário veio de fora. Dependendo das condições internas a cada setor da classe, ele teve efeitos peculiares. Em São Paulo, por exemplo, onde o movimento estudantil foi às ruas em 1966, levantando "slogans" que também diziam respeito à classe operária (e onde as organizações políticas de composição estudantil buscavam adesões de operários), desenvolveu-se a oposição sindical, organizando principalmente os quadros operários mais combativos do período pré-64, os "piqueteiros", que, em grande parte, começavam a repudiar a prática não organizativa e 40 não conscientizadora anterior. Atuando dentro de sindicatos com diretorias pelegas ou que se pautavam pelas práticas não mobilizativas (tipo pré-64), as oposições sindicais forçavam as diretorias dos sindicatos a atitudes mais decididas contra o arrocho. Em função de sua atuação, em setembro de 1967 foi formado o MIA (Movimento Intersindical Antiarrocho) que, nos moldes cupulistas anteriores, organizava dirigentes sindicais como José Ibrahim de Osasco; Joaquim Andrade, metalúrgicos de São Paulo; e Frederico Brandão, bancários de São Paulo. Mas a divergência que opunha a prática cupulista e as posições que pleiteavam a

participação intensa e organizada das bases, seis meses depois, provocaria o fim dò MIA. (A respeito, ver neste caderno o depoimento de José Ibrahim e a entrevista de Roque Aparecido da Silva.) Em Minas Gerais, na mesma época, também houve a tentativa de criar um FIA (Frente Intersindical Antiarrocho), que não passou da primeira reunião.

O MIA, contudo, cumpriu um papel: incorporou definitivamente a palavra de ordem "luta contra o arrocho" nas atividades sindicais, mesmo que apenas no jargão vazio dos pelegos.


Atividades sindicais de Contagem sobreviveram ao golpe de 64


Em 1964, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Contagem-Belo Horizonte era Ênio Seabra. Apesar da prática então nacional dos acordos de cúpula e dos pactos intersindicais, a diretoria desse sindicato buscava uma participação maior das bases na vida sindical, de maneira que após o golpe de Estado, sobreviveu na região uma espécie de confiança nas possibilidades de atuação do sindicato.

Além de este fato ter produzido uma diferenciação tênue entre o Sindicato dos Metalúrgicos de Contagem e os demais, os efeitos do golpe de Estado lá foram menos profundos que em outras regiões. O sindicato sofreu intervenção, tendo Seabra sido substituído pelo pelego Onofre Martins. Mas a maior parte das lideranças sindicais (a exemplo do próprio Seabra) pôde continuar trabalhando e residindo na cidade. Logo após o golpe, as antigas direções sindicais, agora na oposição, voltaram a atuar dentro do sindicato, tentando retomá-lo. Afastadas dos encargos de direção, procuraram criar raízes nas fábricas.

A história do movimento operário de Contagem obedeceu a um fluxo circular entre a tentativa de reconquistar (ou influenciar) o sindicato e a volta às fábricas, com o reforço constante da presença das oposições mais combativas no sindicato e nas fábricas. Em todas as ocasiões, como no dissídio de 1966, a oposição levou propostas às assembléias sindicais e, depois, retornou às fábricas denunciando o peleguismo de Onofre Martins.

Em 1966, já era evidente a presença de organizações políticas nas fábricas de Contagem e na oposição sindical. Um exemplo: na época já circulava regularmente na região o jornal "Piquete", que, em 1968, chegaria a seu número 100. Além do "Piquete" circulavam outros jornais clandestinos, denotando a presença de várias organizações políticas. A ausência de uma hegemonia clara de qualquer delas parece ter contribuído para manterem um relacionamento pouco competitivo e sem grandes atritos na oposição sindical. As sucessivas voltas às fábricas, acrescidas cada vez mais de denúncias contra o sistema e de propaganda sistemática para a politização da classe, contribuíram para o surgimento de novas lideranças dentro das fábricas, que acabaram por organizar grupos de trabalho altamente respeitados pelas bases. Inicialmente, esses grupos tinham pouca ou nenhuma coordenação entre si, mas, a partir deles, depois de novembro de 1967, iriam se desenvolver as "comissões de fábrica".

Outro fato que contribuiu para fortalecer a oposição sindical de Contagem foi a crise particularmente grave que afetou a região a partir do final de 1966 (quando a oposição já dispunha de alguma força), provocando drásticos cortes de pessoal (como na Manesmann, 600 operários despedidos) e atrasos de pagamento (como na Cia. Siderúrgica Nacional de São João Del Rei e Ibirité).

Boa parte das pequenas greves anteriores a 1968 ocorreram em Contagem e Belo Horizonte (tendo afetado inclusive serviços públicos municipais). Sem dúvida, elas foram, em parte, resultado do trabalho de propaganda e organização das bases pelas oposições sindicais.


A Chapa Verde: metade empossada na diretoria, a outra metade devolvida ao trabalho dentro das fábricas pela DRT


Os acontecimentos relacionados às eleições para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de BH-Contagem, em 1967, viriam reforçar ainda mais as lideranças e os grupos de trabalho. Durante a campanha evidenciou-se ainda mais a presença das organizações políticas, todas de composição basicamente estudantil. A campanha da chapa de oposição, a Chapa Verde, colocou no primeiro plano a luta contra o arrocho, mas fez também a propaganda do direito de greve (contra a lei 4330) e da autonomia dos sindicatos em relação ao Estado.

Com a campanha salarial, intensificou-se a ida-vinda sindicato-fábricas, agora integrando os vários grupos de trabalho antes dispersos. Simultaneamente, nos três colégios de Contagem, ressurge o movimento estudantil; brotam sociedades de amigos de bairro; cineclubes; e ganham novo alento as atividades religiosas (assembleias paroquiais). 0 período de campanha coincidiu com algumas pequenas greves em Belo Horizonte e Contagem e a Chapa Verde toma a defesa dos operários (caso da dispensa de 600 empregados da Mannesmann, por exemplo), denunciando a omissão e o comprometimento da diretoria do sindicato.

Durante a campanha, a DRT (através do delegado Onésimo Viana, o mesmo que destituíra Seabra em 1964 e nomeara Onofre Martins interventor) cogitou - e a notícia se espalhou - de impugnar o nome de Ênio Seabra, candidato a presidente do sindicato pela Chapa Verde. A Chapa Azul era encabeçada pelo ex-interventor Onofre Martins e foi derrotada nas eleições de julho de 1968, depois de um mês de acirrada campanha.

Vitoriosa, mas ainda não empossada, a Chapa Verde, por meio do jornal "O Metalúrgico" comemorava a vitória, conclamando os operários a lutarem contra o arrocho salarial, segundo índices "que possam atender o custo de vida". A chapa vitoriosa, contudo, não chegaria a ser empossada inteira: a DRT impugnou os nomes de Ênio Seabra e de dois outros diretores. António Santana, originalmente candidato a bibliotecário pela Chapa Verde, acabou sendo empossado na presidência do sindicato.

A impugnação dos principais nomes da Chapa Verde, por um lado, não impediu a chegada da oposição à diretoria do Sindicato; por outro lado, devolveu ao trabalho de fábrica, junto às bases, as principais lideranças operárias da região. Ao fazer isso, permitiu não só uma dinamização da atividade sindical, - que passou a ser regida por métodos democráticos - mas provocou também uma quase subordinação do sindicato aos grupos de trabalho de fábrica.


O surgimento das comissões de fábrica ou de cinco


A diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos, juntamente com a dos bancários de Belo Horizonte, não conseguiu implantar, em setembro de 1967, uma organização tipo MIA em Minas Gerais, a FIA, dadas as divergências com os dirigentes sindicais de outras categorias. Posteriormente, nos primeiros meses de 1968, essas diretorias sindicais tentariam promover a criação de uma outra entidade do mesmo tipo, o CIA (Comité Intersindical Antiarrocho) que teve a mesma sorte do primeiro. Só que o CIA, no dia 28 de março, ou seja, dezenove dias antes da greve de abril, promoveria uma concentração com mais de 2 mil trabalhadores, que certamente contribuiu para propaganda da greve e para que as direções operárias que vinham se agrupando nas comissões de fábrica, desde novembro de 67, acertassem seus "ponteiros".

As comissões de fábrica, também chamadas comissões de cinco, surgiram após o dissídio de novembro de 1967. Em assembléia, os metalúrgicos decidiram ir a dissídio com os patrões, levando a reivindicação de 60% de aumento salarial. Desde 1965, os reajustes salariais passaram a ser fixados pelo governo, por meio de índices de correção baixados todo mês. Em 1967, o índice foi de 17%. Uma vez mais os metalúrgicos de Contagem tinham explorado as possibilidades da atuação sindical. E uma vez mais voltavam para as fábricas frustrados com os resultados. De forma inicialmente espontânea, mas logo a seguir propagandeada pelas organizações de esquerda, começam a surgir as comissões de empresas. Nos panfletos que apareciam nos banheiros das fábricas, nos vestiários e, até, dentro dos capacetes dos operários, todos eram convidados a formar grupos de cinco que se coordenassem entre si para que, brevemente, partissem para a greve.

Em várias fábricas surgiram comissões e elas, em face de toda a luta anteriormente travada, tinham certo grau de representatividade.

Numa das fábricas da região, a Belgo Mineira, as comissões de empresa conseguiram ser mais amplas e ter maior autoridade, inclusive com uma direção horizontal. Havia quase o suficiente para declarar a greve: boletins afixados nos lugares os mais diversos da fábrica começaram a trazer orientações concretas para os operários, informando, inclusive, partes dos planos para tomada da empresa - o que mostra como a greve foi preparada. Faltava apenas uma difusão da expectativa da greve para o conjunto dos operários da região. Sem dúvida, ainda que não planejado com esse objetivo, foi esse o papel desempenhado pela concentração de 28 de março (coincidentemente, o dia da morte do estudante Edson Luís, no Rio), promovida pelo Comitê Intersindical Antiarrocho.


A primeira greve de Contagem: 16 mil participantes


A grande inovação das greves de 1968 foi o fato de elas serem realizadas sem a ação de piquetes, iniciando-se dentro da própria fábrica, em horário de expediente. Outra novidade, criada pelos metalúrgicos de Contagem, mas levada a extremos pelos de Osasco, foi a ocupação da fábrica, com os operários assumindo os postos dos vigilantes, passando a dirigir o refeitório etc.

A greve de Contagem ecolodiu a 16 de abril, na trefilaria da Belgo Mineira (1.200 trabalhadores). Logo depois, os trabalhadores formaram comissões para tomar os portões da fábrica, organizar o refeitório, dialogar com os patrões, enfim, para dirigir a fábrica sob seu poder. Nos próprios pátios eram realizadas as assembléias deliberativas. As turmas de outros turnos, quando chegavam, entravam e aderiam ao movimento. A ocupação da Belgo durou dois dias. Embora os operários tivessem se organizado para enfrentar a repressão, improvisando maçaricos e empilhadeiras como armas, os rumores de intervenção policial violenta os levaram a abandonar a fábrica e a ocupar o sindicato. A partir do terceiro dia, começaram as adesões: SBE, Mannesmann, Belgo de João Monlevade, Acesita, até um total aproximado de 16 mil grevistas.

A reivindicação levantada pelos operários da Belgo logo no primeiro dia, e depois encampada pelos operários de outras fábricas, foi de 25% de aumento salarial. O então ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, voou para Minas Gerais para negociar com os grevistas. O presidente do sindicato negou que a entidade tivesse promovido ou dirigisse a paralisação (mesmo porque poderia sofrer intervenção da DRT em caso contrário), mas se solidarizava com os grevistas e oferecia o auditório do sindicato para as negociações. No final de abril, o presidente Costa e Silva acabou assinando um decreto de emergência, concedendo 10% de abono salarial, quantia que seria compensada no dissídio de novembro.

O resultado não agradou a grande número de operários, nem à maior parte das organizações políticas, mas acabou representando uma vitória efetiva dos metalúrgicos mineiros (que prometiam voltar à greve para integralizar o aumento). No 1º de maio, a maioria dos trabalhadores ainda continua em greve. As fábricas só voltaram a funcionar normalmente dia 2 de maio.


Osasco: uma experiência antiga de organização nas fábricas


Em todas as greves anteriores a 1964, como as de 1953, 1957 e 1963, os metalúrgicos de Osasco, principalmente os da Cobrasma, tiveram participação destacada. Por volta de 1962 surgira em Osasco a Frente Nacional do Trabalho (organização operários-cristãos agrupados em torno de alguns advogados trabalhistas) que se opunha ao sindicato por este ser dirigido por comunistas e se propunha a realizar um trabalho de denúncia e conscientização dentro das fábricas. Em 1963, vários operários da Braseixos se afastaram do PC e das atividades sindicais por eles consideradas cupulistas, passando a se organizar no que chamavam "comitês clandestinos de fábrica". O objetivo era o de desenvolver sua prática junto a bases. Logo, eles influenciaram um pequeno grupo de operários da Cobrasma que também criaram seu "comitê". Tais comitês, na época, tinham escassa representatividade; constituíam mais grupos de trabalho, que editavam boletins, faziam denúncias e procuravam estudar a história da classe operária e a teoria revolucionária do proletariado. Em 1963 também, a FNT criou na Cobrasma uma espécie de '"comissão, semi-legal" composta por dez operários.

Assim, à época do golpe de 1964, havia em Osasco dois tipos de prática junto à classe operária: a oficial, que girava em torno do sindicato, e uma paralela e ainda pouco expressiva, centrada nas próprias fábricas ("comissão" da FNT e o "comitê"). Com o golpe, a primeira foi inteiramente desarticulada - o que levou de roldão também o "comitê" da Braseixos - mas a segunda praticamente não foi afetada. Para Osasco afluíram operários de outras regiões (onde não conseguiam emprego), que acabaram se vinculando ao nascente "grupo de Osasco" (oriundo fundamentalmente do "comité" da Cobrasma), carreando para ele suas experiências.

A inatividade do sindicato abriria espaços que seriam preenchidos pelas pratica antes marginais. Logo depois do golpe de Estado, com efeito, houve uma paralisação de cinco minutos na Cobrasma (promovida pelo comitê e pela comissão, que estreitavam seu relacionamento) em protesto à morte de um operário num acidente de trabalho. Na prática, ainda que não oficializada, já existia então uma comissão de empresa. Depois dessa demonstração de força, os patrões concordaram em formar uma comissão mista de operários e patrões para resolver os problemas internos. A primeira eleição para a comissão legal de empresa da Cobrasma foi realizada em 1965, tendo sido eleito 38 operários, dois por seção (um efetivo e um suplente). Os integrantes dessa comissão, na maioria, eram membros da FNT. Dentro da comissão legal e junto às bases, cresceria a importância do comitê. Na segunda comissão, eleita em 1966, a maior parte pertencia ou estava sob influência do grupo de Osasco, tendo José Ibrahim sido eleito presidente e Roque Aparecido da Silva secretário da comissão. Os elementos da comissão da Cobrasma passavam, aos poucos, a representar um pólo de aglutinação para todos os operários de Osasco, transmitindo sua experiência a outras fábricas e rearticulando, agora segundo suas concepções de trabalho de base, antigos participantes das atividades sindicais (ver depoimento de José Ibrahim).


O obreirísmo de Osasco e a influência do movimento estudantil


Diferentemente de Contagem (onde as organizações políticas de origem estudantil participavam sem maiores problemas da oposição sindical), em Osasco muito cedo desenvolveu-se um sentimento obreirista, de repulsa às organizações políticas e de

tentativa de independência em relação aos movimentos de estudantes de São Paulo.

As determinantes últimas desse obreirismo talvez sejam o desgosto com a atuação do PC em 1964 e outros fatores sociológicos (Osasco, na periferia de São Paulo, tinha certo bairrismo e, na década de 50, viveu campanha autonomista sob a égide de comerciantes e profissionais liberais locais). Imediatamente, entretanto, foram outras as razões do obreirismo. Em 1967, particularmente depois do início da campanha da Chapa Verde, quase todas as organizações políticas tentaram penetrar em Osasco e lá formar bases. Os integrantes do grupo de Osasco passaram a criticá-las então por não terem qualquer idéia sobre a realidade da classe operária e por terem definidas linhas de atuação que emperravam suas práticas. Mas, a princípio, não se negaram a trabalhar com elas. Confiaram-lhes, inclusive, certos trabalhos como cursos de educação política, impressão de panfletos e jornais. A competição entre elas, entretando, fez com que procurassem ampliar-se em Osasco de qualquer forma, seja adulterando panfletos (colocação de palavras de ordem próprias), seja tentando afastar operários (notadamente os que recebiam cursos) do grupo e do trabalho de Osasco. Por outro lado, o contacto de alguns membros do grupo de Osasco com a universidade contribuiu para o obreirismo; lá, eles passaram a ter uma visão extremamente negativa das organizações políticas que atuavam no movimento estudantil.

Apesar do obreirismo que permeava o grupo de Osasco, passando pelos trabalhos desenvolvidos nas fábricas, sindicato, escolas ou bairros, a influência do movimento estudantil universitário sobre Osasco foi extremamente forte, talvez até maior do que em Contagem (até abril de 68). A negação enfática de práticas pejorativamente classificadas como pequeno-burguesas acabou constituindo a condição mais favorável para uma influência mais profunda e duradoura do movimento estudantil sobre o operário. O conduto maior para essa influência foram os estudantes secundaristas de Osasco.

Da mesma forma que em outras cidades e bairros do Grande São Paulo, na década de sessenta, os cursos ginasial, clássico e científico do período noturno eram freqüentados por grande número e jovens operários e trabalhadores de escritório das fábricas. Boa parte dos líderes de Osasco haviam sido (como Ibrahim) ou eram estudantes secundaristas (como Roque A. da Silva, José Campos Barreto e outros). A reorganização do movimento secundarista em Osasco iniciou-se em 1965, mas completou-se em setembro de 1966, logo depois das tentativas feitas em Osasco para promover passeatas de solidariedade aos universitários paulistas.

A maior parte das mobilizações universitárias de São Paulo e outras cidades repercutiam quase imediatamente entre os secundaristas de Osasco. No início de 60 só havia em Osasco uma associação, a do curso (clássico) do maior colégio da região, o CENRART. Depois da setembrada, surgiram grêmios nos seis colégios da região e foi organizada uma entidade municipal de estudantes, o CEO (Círculo Estudantil Osasquense). José Barreto seria um dos presidentes dessa entidade. Roque A. da Silva, alem de pertencer à Comissão da Cobrasma e ao sindicato, integrou também a diretoria do CEO e da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundários). As tentativas dos secundaristas de Osasco de reproduzir as manifestações dos estudantes de outras cidades constituíram, assim, o conduto mais eficaz da política estudantil para a operária. Um dado que ilustra isso: em abril de 1968, quando ocorriam passeatas em várias capitais brasileiras como protesto á morte de Edson Luís, em Osasco houve duas passeatas de estudantes, operários (estes minoritários) e operários estudantes, com 2.500 e 3.000 participantes; na segunda, principalmente, foram agitadas questões operárias, tendo o desfile sido aberto com uma bandeira do Vietcong.


Grupo de Osasco: relações informais na base de uma vanguarda local


A expressão "grupo de Osasco" foi apenas uma forma posteriormente criada para designar o conjunto de operários, operários - estudantes e estudantes que viviam em Osasco e atuavam nos movimentos locais. As relações que uniam o grupo eram informais, ou seja, ele não tinha caráter partidário. Um conjunto de concepções vagas, entretanto, dava-lhe certa unidade: defesa do socialismo, recusa das práticas conciliatórias de classe e privilegiamento da participação e ação das bases. Ainda que com visões ligeiramente diferentes, todos os membros do grupo defendiam a criação de comissões de empresa (legais ou não) e a participação em todos os instrumentos legais de organização como o Sindicato). Além disso, também havia no grupo uma evidente simpatia pela Revolução Cubana e pela luta armada. Exceto em alguns momentos de maior mobilização quando eram criadas coordenações - o grupo não possuía qualquer direção regular. As reuniões dos seus integrantes eram realizadas nos mais diversos lugares, mas sempre em função do cumprimento de tarefas ligadas à mobilização ou organização para movimentos concretos.

A informalidade do grupo de Osasco decorria de sua própria origem (mais ou menos espontânea, a partir de grupos de amigos) e denotava um caráter quase provinciano que estreitava seus horizontes. A ausência de definições mais gerais confinava o grupo a Osasco. A inexistência de direção regular, praticamente, o impedia de cumprir certas decisões, como o enraizamento do trabalho de fábrica também nos bairros, em estruturas clandestinas. Mas, por outro lado, o grupo tinha extrema agilidade e notória sensibilidade para responder aos problemas imediatos mais intensamente sentidos pelos operários ou estudantes da região. Em espaços curtíssimos de tempo, mobilizava-se para responder (propagandeando ou organizando lutas) às possíveis reivindicações dos operários ou estudantes de Osasco.

A partir de seus núcleos iniciais (comissão da Cobrasma, associação de curso clássico), o grupo ampliou-se significativamente depois da setembrada, quando fundou e passou a dirigir os seis grêmios estudantis locais e o CEO. Em 1966, quando a UNE propunha o voto nulo, o grupo adotou uma posição singular: anular os votos para deputados e senador, mas participar ativamente da campanha eleitoral no âmbito municipal. Apoiou um candidato do MDB à prefeitura, Guaçu Pitteri, e lançou candidato próprio (pela legenda da oposição) a vereador; também fez propaganda de dois outros candidatos a vereador. Todos foram eleitos.

Aproveitando-se de sua presença na Câmara Municipal e relativa influência na Prefeitura, o grupo também tentou participar de sociedades Amigos de Bairro e em campanhas de alfabetização de adultos. (Ver artigo de Diogo Marques neste caderno).

A informalidade do grupo que, por um lado, dava-lhe agilidade e sensibilidade, por outro, além de impedi-lo de espraiar-se a outras cidades e criar outras formas de organização em Osasco, o tornava pouco apto a superar suas limitações. Depois de março de 1968, ou seja, depois das passeatas em protesto à morte de Edson Luís, Osasco entraria no processo de luta ideológica que se travava na esquerda. Também lá, um dos pontos centrais do debate era a questão da tomada do poder pela via armada. Com o debate travado em Osasco, enquanto uma parte do grupo passava a se posicionar em favor da guerrilha rural, os outros membros do grupo foram se retraindo e desmobilizando, números integrantes do grupo foram, um a um, sendo recrutados por uma organização militarista (entre março/abril e agosto/setembro de 1968). A integração individual dos últimos membros do grupo dificultaria que a experiência deste tivesse peso significativo dentro da organização política (que tinha composição basicamente estudantil e só crescia em função da grande impossibilidade histórica do movimento estudantil). Duas foram as razões para que os "osasquenses" fossem integrados por uma determinada corrente militarista: primeira, essa corrente não tinha qualquer definição acerca do movimento operário e, portanto, "não atrapalhava'; segunda, ela lhes parecia séria pelo simples fato de já estar praticando ações armadas, o que a isentaria de um "caráter pequeno-burguês"!


Um primeiro de maio de luta


Em 1967, a partir principalmente da Comissão da Cobrasma, mas com operários de outras fábricas (para onde haviam estendido sua influência), a FNT e o grupo de Osasco organizaram uma chapa para as eleições sindicais. A FNT ficou com a maioria dos cargos, mas o grupo de Osasco teve maior influência na definição do programa. Este colocava claramente a luta contra o arrocho, pelo direito de greve, pela organização de comissões de empresa, pelo reajuste trimestral de salários; também propunha a adoção do sistema de contratação coletiva de trabalho. Até hoje, este foi o programa mais avançado de uma chapa eleita para diretoria sindical.

A chapa da situação (Azul) era encabeçada por Henos Amorina (presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco de 1965 a 1967 e de 1969 até hoje). Em quase todas as fábricas, os resultados revelaram um certo equilíbrio entre as duas chapas. A Cobrasma decidiu as eleições em favor da Chapa Verde.

A partir de setembro, o presidente dos metalúrgicos de Osasco, José Ibrahim, participaria das articulações do MIA. Sua atuação dentro dessa entidade cupulista o afastaria ainda mais dos dirigentes pelegos e o aproximaria das oposições sindicais, criando impasses, que poriam por terra o MIA. Era virtude das posições assumidas pela direção metalúrgica de Osasco, o sindicato esteve prestes a sofrer uma intervenção da DRT, tendo Ibrahim sido suspenso do cargo por quinze dias. O principal reflexo do MIA dentro de Osasco foi a ativação da participação das bases na vida sindical: assembleias constantes por fábricas, seções, etc. Como resultado desse trabalho de agitação, começaram a ser criadas comissões de empresa clandestinas em outras fábricas, como a Lonaflex e a Brown Boveri.

Logo após o fracasso do MIA, os dirigentes sindicais paulistas passaram a organizar uma "festa" para o primeiro de maio. A direção metalúrgica de Osasco foi convidada para os preparativos, mas começou a articular-se também com as oposições sindicais, entidades estudantis e organizações políticas armadas para transformar a festa  num dia de luta. Enquanto as direções pelegas convidavam autoridades e artistas para a comemoração do dia do trabalhador, a diretoria dos metalúrgicos de Osasco mobilizavam suas bases, propagandeando duas palavras de ordem: "Minas é exemplo de luta" e "Greve contra o arrocho". (Ver depoimento de Ibrahim e entrevista de Barbosa).

Logo após o 10 de maio, José Ibrahim foi muito criticado por algumas organizações políticas estudantis, tendo sido classificado até como pelego por não ter aparecido na praça da Sé, embora o sindicato tenha fretado ônibus e custeado a ida de mais de mil trabalhadores ao ato. O risco de uma intervenção da DRT foi a razão principal da ausência de Ibrahim, levantada pela diretoria do sindicato e outros membros do grupo de Osasco. As correntes estudantis que hostilizavam Ibrahim não sabiam de dois fatos: uma greve estava sendo preparada secretamente pelos trabalhadores de Osasco; e, em Osasco, julgava-se fundamental continuar no sindicato para poder preparar e deflagrar essa greve.


O momento político em que ocorreu a greve de julho


A greve de Contagem, de certo modo, pegara o regime de surpresa. Forçara-o a negociar e a fazer concessões. Consistiria num primeiro "furo" no arrocho, mas este, se continuasse a sofrer novas afrontas, acabaria comprometendo a própria política econômica oficial. A greve de Contagem tivera implicações políticas na medida em que desafiara a política econômica oficial. E só ocorrera por ter partido de dentro das fábricas.

Em julho, o fator surpresa já não existia. Só um movimento amplo e extremamente organizado - para o que dependeria de uma análise de conjuntura muito clara - poderia ser vitorioso. A politização (ou pelo menos sensibilização a seus interesses políticos) das bases de Osasco fora operada pelo grupo de Osasco, mas apenas de acordo com suas possibilidades. No final de junho, os estudantes paulistas haviam ocupado a Faculdade de Filosofia (Maria Antônia) e havia notícias de movimentos camponeses em Santa Fé do Sul (São Paulo). Além disso, articulava-se a Frente Ampla com Carlos Lacerda, Jango e Juscelino, o que lançava suspeitas de uma cisão nas classes dominantes. Esses simples fatos bastavam para cegar os olhos à conjuntura política e para alentar a esperança de que a entrada do movimento operário em cena poderia alterar fundamentalmente os rumos históricos do país. Se a possibilidade de repressão quase imediata à greve era um dado quase palpável, por outro lado, haviam expectativas tão grandes que se acreditava na possibilidade de, pelo menos, abalar o regime.

Por outro lado, em Osasco a agitação da palavra de ordem "greve contra o arrocho" fora tão longe que as bases estavam prontas para paralisar o trabalho e começavam quase a exigir a greve. Em fins de maio, uma fábrica de 300 operários, a Barreto Keller, onde o grupo de Osasco sequer tinha bases, entrou em greve; conseguiu um abono salarial e a criação de uma comissão legal de empresa. A exigência da greve por parte das bases o de elementos do grupo de Osasco e da Frente iludia ainda um outro fato: com o aprofundamento da luta de posições políticas, o próprio grupo deixara de ter as mesmas condições organizativas que antes. A possibilidade de extensão da greve a outros lugares, como São Paulo, ABC e Minas Gerais, era reduzida, mas também era evidente a solidariedade e a disposição de luta das oposições sindicais. Além de todos esses fatos, a própria organização militarista, que pretendia a radicalização dos movimentos de massas, pressionava seus militantes a decidir-se pela greve.

Após o dissídio de novembro de 1967, quando o índice de correção salarial foi de apenas 17% contra os 52% pleiteados, a vanguarda de Osasco decidira ir à greve. Mas se preparava para a greve há época do próximo dissídio, em novembro de 1968. Todo o processo de radicalização acima descrito fez com que, em junho mesmo, fosse iniciada a preparação da greve. Os planos que serviram de base para a sua eclosão continham um erro fundamental: imaginava-se que a repressão levaria pelo menos quatro ou cinco dias para intervir. No primeiro e segundo dia, seriam paralisadas diversas fábricas, algumas seriam ocupadas pelos operários; os trabalhadores de outras marchariam em passeata até a sede do sindicato para não se desmobilizarem. Esses quatro ou cinco dias, imaginava-se, seriam suficientes para que os operários mobilizados formassem piquetes a fim de parar todas as fábricas das imediações de Osasco (Jaguaré, Lapa etc). E havia ainda uma última esperança: a de que em função de uma greve de tais dimensões, as oposições sindicais também pudessem paralisar outras fábricas em São Paulo e no ABC. As reivindicações gerais: 35% de aumento salarial; reajustes trimestrais de salários e a contratação coletiva do trabalho. Além dessas, cada fábrica elaboraria um elenco de reivindicações específicas.


A derrota da Greve de Osasco


No dia 16 de julho, atendendo ao sinal convencionado (o apito da Cobrasma, ás 8h e 40m), a partir da seção de limpeza e acabamento da fundição, os operários começaram a ocupar a fábrica. Organizaram, durante o dia, as comissões de vigilância, abastecimento, informações e mobilização. Nas horas marcadas, 12 h, 14 h, foram parando outras fábricas. Os operários da Barreto Keller, Osran e Granada dirigiram-se em passeata para o sindicato. Os da Lonafíex ocuparam a empresa.

Um enviado do delegado regional do trabalho, general Moacir Gaya, foi a Osasco dialogar com Ibrahim, que, como ocorrera em Contagem, procurou isentar o sindicato da responsabilidade pela greve. O coronel Passarinho voou para São Paulo e montou seu QG no Palácio dos Bandeirantes. No começo da noite, a polícia interveio. Primeiro na Lonafíex, depois na Cobrasma. No dia seguinte, outras fábricas aderiram: Braseixos, Brown Boveri e, parcialmente, a Cimaf, a Eternit (total aproximado de grevistas: 10 mil). Depois a polícia investiu contra o sindicato, pois já havia sido decretada a intervenção.

No primeiro dia, cerca de 300 a 400 prisões na Cobrasma (aproximadamente 50 operários ficaram detidos); no segundo, prisões em igrejas. A cidade toda ocupada por policiais em duplas, com cachorros amestrados e armas de guerra. (Ver depoimentos de Ibrahim).

No terceiro dia, embora já sem um comando de greve, o movimento continuou. Dispersas, as lideranças tentaram conter o movimento. Numa assembléia de estudantes em apoio aos grevistas, Manuel Dias do Nascimento, o Neto de Osasco, chegou a prometer a continuação do movimento com greves de grevilhas: ou seja, paralisação um dia de uma seção, outro dia de outra e, num outro ainda falta dos moradores de um certo bairro ao trabalho.

Por volta do sexto dia, todas as fábricas de Osasco já funcionavam normalmente. Inúmeros trabalhadores foram despedidos, outros tiveram que ficar foragidos em função da busca policial. Mas, tempos depois, a maior parte das empresas, para evitar problemas, atendeu a algumas reivindicações específicas e deu cotas variáveis de antecipação salarial.


A Consumação da derrota

Tanto em Contagem quanto em Osasco restaram núcleos organizados. Em Contagem, em outubro (quando o movimento estudantil já se desagregava) ocorreria uma segunda greve, preparada quase que exclusivamente e detonada a partir das organizações que atuavam na região. Só durou um dia. Foi totalmente dissolvida pela polícia. E o sindicato sofreu intervenção.

Em Osasco, os núcleos restantes, em setembro e início de outubro, começaram a se reaglutinar para, de novo, montar a oposição sindical. Entretanto, as lideranças mais expressivas já estavam mais voltadas para a vida interna de sua organização política e se preparavam para "abandonar a cidade" em troca de realizarem a guerrilha. A dificuldade para reorganizar a oposição sindical foi ampliada ainda mais quando, em virtude de sua atuação militarista, os ex-líderes de Osasco foram sendo presos. O desdobramento natural do movimento estudantil, o enfrentamento armado, levara consigo, primeiro para fora do movimento operário, e depois para a derrota armada, as principais lideranças operárias.
Os elos orgânicos entre os movimentos de Osasco/Contagem e o movimento operário posterior foram cortados. Mas a experiência daqueles movimentos permaneceu. Primeiro, eles foram tomados como exemplos pelo regime para intimidar a classe operária. Hoje, eles são repensados porque podem ajudar a classe operária a encontrar seus próprios caminhos. A experiência das comissões de fábrica, de atuação nos sindicatos (ainda que atrelados), a luta contra o arrocho, pelo direito de greve realizando greves e pelo contrato coletivo de trabalho parecem luzes presentes tanto no relâmpago quanto no dia.

sábado, 3 de agosto de 2013

“MANIFESTO DE BALANÇO DA GREVE DE JULHO", por Ibrahim e Zequinha Barreto 1968 e A história do movimento de Osasco - por José Ibrahim

Disponível nos endereços:
 http://contextohistorico.blog.terra.com.br/files/2009/12/zequinha-barreto-um-revolucionario-brasileiro.pdf
http://claudioautogestao.com.br/wp-content/uploads/2014/04/A-OPOSI%C3%87%C3%83O-SINDICAL-NO-EX%C3%8DLIO.pdf
por  Ibrahim e Zequinha Barreto 1968

Companheiros,   Conscientes de que vivemos sob uma ditadura de classe que precisamos destruir.   Conscientes de que só com a violência justa dos explorados,contra a violência injusta de que somos vitimas, e que iremos destruir a ditadura dos patrões e implantar uma sociedade sem classes.   Sabendo que para atingir o nível de organização que precisamos, temos que a cada momento analisar criticamente nossos trabalhos.
Reconhecendo ainda a superficialidade deste documento,que só visa incentivar a discussão,informamos que estamos preparando um balanço sobre nossas experiências nos comitês de empresa,no sindicato,sobre a organização de greves e ocupações de fabricas. 
  Conclamamos todos os companheiros a discutir nossas experiências,esperando com isso,além de receber criticas,iniciar uma proveitosa troca de experiências,para a organização da classe operaria,que possa ,aliando-se aos camponeses conduzir o proletariado ao poder.

A LUTA ANTI-ARROCHO E A GREVE DE OSASCO 
  Considerações sobre o arrocho. O arrocho não surgiu com o golpe de 64. Antes de 64, o poder político representava os interesses dos patrões e era dominado pela minoria totalitária patronal. Acontece, que com o golpe, o arrocho apenas centuou-se. Ele não se manifesta somente na política econômica-financeira do governo,mas em todos os setores da vida nacional , e todas as formas de repressão,quer o terrorismo cultural,quer o arrocho salarial,quer a Lei de Segurança Nacional,o acordo Mec Usaid,a lei Suplicy,etc,são formas de arrocho. Em suma, arrocho é o termo que o povo brasileiro encontrou para caraterizar a ditadura dos patrões.   Vejamos alguns objetivos e características dessa política;   a)contenção da inflação,tomando-se por base que o ‘aumento dos níveis salariais é que inflaciona a economia do pais’;   b)jogar nas costas do povo o ônus da crise do capitalismo;   c) o congelamento dos salários é uma forma de aumentar a taxa de lucro dos patrões sem acarretar grandes aumentos nos preços dos produtos;   d) enquadramento do pais dentro do esquema do capital internacional e submissão de nossa economia dentro do espírito de que ‘o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. 
  Essas medidas são necessárias ao capitalismo, em sua fase mais adiantada, o Imperialismo, para sustentar materialmente a repressão necessária contra a revolução proletária mundial,como exemplo disso temos a agressão de que é vitima o histórico povo do Vietnã. Por outro lado as mesmas medidas intensificam as contradições entre as massas exploradas e a classe dominante.   Logicamente, essas medidas que vieram adaptar o pais dentro da realidade internacional do capitalismo, tem as suas conseqüências no plano interno: a) diminuição do poder aquisitivo do povo e conseqüentemente a estagnação do mercado interno. b) Proletarização da grande parte da pequana burguesia. c) Falência das pequenas industrias,que vão sendo engolidas pelos grandes trustes internacionais. 

O REFORMISMO E O MOVIMENTO ANTES DE 64 
  Antes de 64, a chamada ‘burguesia nacional’ reformista e liberal, acenava com reformas de base e as massas dirigidas por elementos conciliadores e também reformistas iam à reboque. A burguesia reformista atrelou a seu carro instrumentos de lutas das massas como o PC, os sindicatos, etc, e moldou lideranças hoje reconhecidas pela massa como pelegos, traidores e reformistas. Esses conciliadores não necessitavam organizar a massa para fazer sua ‘jogadas’ nas cúpulas e ‘não entenderam’ que as contradições existentes na sociedade capitalista só podem ser resolvidas pelo proletariado, sob a condução da vanguarda, com um programa socialista e revolucionário, sendo pois necessário educá-lo, organizá-lo e conduzi-lo para estas tarefas. A burguesia reformista queria resolver sua contradição com o imperialismo sem mudar a estrutura social e a liderança revisionista mais uma vez ‘não compreendeu’ que essa contradição é secundaria e nunca poderia chegar a uma forma de antagonismo, pois a contradição fundamental reside entre o capital e o trabalho, sobre as forças que produzem as riquezas aos operários) e aquelas que detem os meios de produção (os patrões), entre o caráter social da produção e a apropriação individual dos produtos do trabalho, e que com o avanço do movimento de massas os setores mais reacionários da burguesia procurariam cortar esse processo antes que surgisse do seio da massa uma nova liderança capaz de dirigir-la para objetivos superiores aos da reforma dentro da estrutura capitalista. 

MOVIMENTO OPERARIO APÓS 64 
  Após 64, com o golpe militar de direita, o reformismo, representado pela ‘burguesa nacional’ e cujos órgãos PTB, PCB, PSB, Sindicatos, etc, eram sua base social, é alijado praticamente do cenario político. Desencadeia-se no Pais uma campanha ‘fascistoide’ de perseguição aos elementos tidos como subversivos. Muitos fugiram, outros caíram presos, houve aqueles que foram assassinados. O governo teve nesse primeiro momento a intenção de golpear profundamente a classe operaria. No entanto, impossibilitado de realizar tal política, eis que não tinha base social de sustentação (a pequena burguesia que dois meses antes tinha marchado com deus, pela família e pela liberdade, abandonou Castelo Branco sozinho na Praça da Sé no primeiro de Maio). E além disso, tendo em vista a necessidade de órgãos que sirvam de válvulas de escape aos reclamos do povo, numa tentativa de evitar a organização clandestina da classe, permite eleições nos sindicatos. A liderança que teve condições de participar das primeiras eleições sindicais foi apenas aquela que trazia as mesmas posições conciliadoras de antes de 64. Agora havia uma diferença: não tinha mais a burguesia reformista para se apoiar e o proletariado, devido às amargas experiências do passado, aprendeu a lição. A primeira tentativa dessa ‘nova liderança’ no sentido de poder aparecer perante a massa como alguém que luta por seus interesses foi na campanha pró-estabilidade e contra o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Uma outra coisa foi a resistência que os trabalhadores fizeram para não assinarem a ‘nova lei’, percebendo, inclusive, as razões pelas quais os patrões tanto se interessaram na opção pelo FGTS. A experiência ensina à classe que se o patrão diz que determinada lei é benéfica aos operários, o correto é exatamente o inverso da moeda, isto é, o que é bom aos olhos do patrão é nocivo aos trabalhadores. A queda da estabilidade, que havia sido conseguida à custa de luta, contrariou, profundamente os operários, porem, os pelegos não organizaram as massas, daí não se ter tido condições para movimentos capazes de derrubar o FGTS. O arrocho salarial já fazia sentir as suas conseqüências funestas para os trabalhadores. O desemprego e arbitrariedades patronais acentuavam-no. A classe movimenta-se sem encontrar ainda uma centralização. Surge nova oportunidade de os pelegos aparecerem perante a massa. É criado o MIA órgão inter sindical de luta contra o arrocho. Porém, os pelegos são derrotados macio e seus métodos de luta conciliadores, portanto insuficientes para conduzir a luta de classe, tais como abaixo-assinados, telegramas, entrevistas com as autoridades, etc. Em cada concentração operaria, a vanguarda surgida nas fabricas aparece com palavras de ordem de organização pela base através de comitês de empresa pregando a greve como forma de luta contra o arrocho. Essa vanguarda aglutinou-se objetivamente em torno do sindicato dos Metalúrgicos de Osasco.   Os metalúrgicos de Belo Horizonte responderam a essas palavras de ordem com a greve de onze dias, que se iniciou na Belgo-Mineira, estendendo-se a 16.000 operarios.
  O surgimento da vanguarda operaria nas fabricas, merece um estudo mais profundo,pois ela é produto da necessidade da massa nesta etapa, apesar de exprimir-se ainda de maneira obscura. Como vimos, a liderança pelega não convenceu. A contradição entre o caráter social da produção e o caráter individual de sua apropriação, isto é, a necessária concentração de operários para produzirem em grande escala e de forma organizada, onde cada um cumpre a sua função, e a maneira desorganizada de como os produtos são distribuídos na sociedade, onde a minoria patronal fica com os lucros, gera uma luta constante e intensa entre os operários e patrões que vai desde as formas mais simples até os choques mais diretos e violentos, em torno dos inúmeros problemas que variam desde as reivindicações especificas de cada secção até as lutas que atingem toda a classe. A massa com seus inúmeros problemas encontra as mais variadas formas de exprimi-los, que vão desde os contatos individuais até as formas coletivas e mais amplas de discussões nas fabricas. De lutas como a preservação do 13º salário em 64, por problemas específicos em cada fabrica (segurança, higiene, etc) levando os operários à greves parciais, inclusive, logo após o golpe, surgem aqueles que por melhor absorverem e entenderem as necessidades da classe e por se destacarem na condução destas lutas, passam a merecer a sua confiança e a partir disso são impulsionados a conduzi-la para a solução de suas necessidades e problemas do momento. Esse processo de luta é a “escola de guerra”. Nas reivindicações da classe operaria manifestam-se sempre as contradições dela com sua antagônica no poder. Neste processo, a vanguarda, tem consciência que o que interessa a classe operaria não são apenas as concessões dos exploradores, na medida que continuará sendo explorada, mas a destruição de toda a estrutura social que possibilita a exploração. Entretanto, a vanguarda organiza a classe, a educa, e ganha sua confiança nestas lutas parciais. As vitórias obtidas nestas lutas estimulam a classe a prosseguir com reivindicações mais avançadas e dá confiança a esta mesma vanguarda, que compreende, também, a necessidade de uma organização da classe que vise a tomada do poder pela classe, com uma visão do contexto social capaz de avaliar as forças e capaz de conduzir a classe em todos os níveis de sua luta até a tomada do poder. A tradição da luta da classe operaria brasileira é quase que só em torno do movimento sindical e, a vanguarda que surge, dada a ausência de uma organização de classe sob um programa revolucionário capaz de desenvolver as formas de luta que a conduz ao poder, acerca-se dos sindicatos e ai então surge o choque entre as direções sindicais pelegas e aquelas que têm ligações com a classe. São as chamadas oposições sindicais. As oposições sindicais lançam as palavras de ordem de organização pela base e através dos C.E. empreendem vigorosa campanha contra os pelegos sindicais. Muita coisa já se conseguiu de concreto com o trabalho das oposições, principalmente, nas assembléias anti-arrocho programadas pelo MIA e na comemoração do último Primeiro de Maio na Praça da Sé. Essas palavras de ordem, por não virem acompanhadas de uma teoria programática que apresentasse concretamente as perspectivas e a concepção de tais formas de organização na pratica, caem no vazio. Nos setores onde existem os C.E., estes não funcionam como devem, isto porque foram formados na ‘base’ da improvisação, contendo uma serie de desvios, o que prejudica muito a objetividade de luta. Temos vários exemplos que demonstram por um lado o espírito de luta e o sentido revolucionário da vanguarda e por outro mostra a sua imaturidade política e inexperiência na organização da classe.

A GREVE DE OSASCO – BALANÇO CRITICO 
  Antes de analisarmos o que foi a greve de Osasco e o que ela representou para o M.O.,é necessário definir o que é uma greve.
  O operário recebe um salário pelo trabalho que executa para o patrão. É lógico que o interesse do patrão é pagar menos salários para que seu lucro seja maior. Por outro lado, o operário, que só tem a sua força de trabalho para vender, procura vende-la pelo preço mais alto. Um operário isoladamente não tem condições de fazer frente á ambição patronal e a única forma de evitar que seu salário seja rebaixado ou conseguir que estes sejam aumentados é unir-se com outros operários que são vitimas da mesma exploração.A forma de se encaminhar esta luta é paralizando o trabalho para conseguir as reivindicações. As greves surgem da própria sociedade capitalista, é uma forma bem simples em que se expressa a luta de classes. As greves mostram aos operários a sua força e também as do patrão. Mostram que o patrão é o seu principal inimigo e que o governo protege sempre os patrões e que também a policia existe para impedir as greves ou evitar as suas conseqüências. A colocação da palavra de ordem ‘greve’, mostrou para a vanguarda operaria de Osasco o estado de revolta da classe, motivado pelas conseqüências do arrocho salarial e alta constante do custo de vida e que realmente haviam as condições objetivas para deflagrar o movimento. Todos lançaram-se na organização da greve empiricamente. Os C.E.,recém-organizados, com exceção dos da Cobrasma, tinham a principal responsabilidade nessa tarefa. Reivindicava-se aumento salarial de 38%, aumento de três em três meses do acordo com a elevação do custo de vida, contrato coletivo de trabalho por dois anos, e reivindicações especificas de cada fabrica. A vanguarda baseava-se nas necessidades imediatas da massa, por isso as reivindicações acima citadas, mas, por outro lado, se explicava que o sentido mais importante da greve era o político, na medida em que se lutava contra a lei do arrocho salarial e contra a própria lei de greve e que aquela ação era apenas uma parte da longa luta pela derrubada da ditadura dos patrões. Evidencia-se inexperiência dessa nova liderança na medida em que essa não soube conduzir no mesmo nível a propaganda junto às massas e a organização da vanguarda. Este descompasso entre a propaganda e a organização precipitou as condições objetivas para a greve. Empolgada com a receptividade das massas a vanguarda acaba por ficar a reboque destas, e ao invés de proceder uma analise do movimento político nacional, baixou a palavra de ordem de greve e de ocupação das fabricas, sem estar subjetivamente em condições, antecipando mesmo uma posição anterior de se tirar a greve por ocasião de dissídio coletivo. Dado o caráter ainda bastante limitado dos C.E.,visto que funcionavam sem uma perspectiva clara e definida, estes passaram a se apoiar mais no aparelho sindical do que na organização da massa. A falta de clareza teórica causada pela falta de discussão política levou a vanguarda a não se preocupar em organizar uma estrutura clandestina paralela ao sindicato para dar continuidade à luta na clandestinidade. Na pratica, subestimou as forças da repressão, achando que o governo iria negociar e não reprimir violentamente, inclusive, intervindo imediatamente no sindicato. Comparou-se o M.O. que tem conseqüências imediatas na economia e prepara a classe revolucionaria para assumir a direção do pais, e por isso é bastante temível pela reação,com movimentos de setores da pequena burguesia (estudantes, artistas, etc) que por maiores perigos à classe dominante. Esse imediatismo foi sentido em todos os momentos posteriores e que obrigou a improvisações. A ocupação das fabricas devido à falta de clareza, à não planificação foi também improvisada, deu a greve um caráter insurrecional, quando a mesma era localizada e feita a partir de reivindicações da classe e não a partir de imposições que a colocasse num enfrentamento definitivo com a burguesia. Com isso não queremos dizer que nas próximas lutas a tática de ocupação de fabricas não deva ser utilizada. No passado, antes de 64, a pelegagem decretava greves e mandava os operários para suas casas. Agindo assim desmobilizavam a classe evitando que ela mantivesse unida e discutindo problemas que lhe estavam afetos, para que os conchavos com os patrões não encontrassem resistência nas bases operarias. A outra importância da ocupação está no fato que as greves com ocupações de fabricas, experiências recém iniciada no Brasil, ultrapassam os limites das reivindicações normais dentro do capitalismo. Independentemente das reivindicações grevistas a ocupação temporária das empresas acerta um golpe no ídolo da propriedade capitalista. Toda greve de ocupação, independente do objetivo reivindicatório que a determinou, coloca na pratica o problema de saber quem é o dono da fabrica: o patrão ou os operários. A ocupação poderia se dar com prazo determinado, objetivando discussão política com toda a massa no sentido de se ter consciência do próprio significado das ocupações, sobre os objetivos da greve e a necessidade de sua extensão a outras fabricas. Quando as fabricas fossem desocupadas a massa deveria sair mobilizada para ações praticas como piquetes, panfletagem, etc, em outras fabricas ainda não em greve, e através da organização por bairros permaneceria em constante mobilização, objetivando discussão política, em grupos pequenos se assim o exigissem as condições de segurança. A greve de Osasco mostrou que é possível conduzir a classe para um enfrentamento com a ditadura patronal, sendo para isso necessário organiza-la. Significa uma nova e grande experiência para todo o movimento revolucionário brasileiro. Apesar de ter sido propagado pela imprensa burguesa e alguns oportunistas de ‘esquerda’ que a greve de Osasco não havia conseguido nenhum de seus objetivos, há fatos que falam bem alto para a massa: os aumentos recebidos pelos operários de varias fabricas (Cobrasma de 15 à 35%. Cimaf 10%, etc), indenização aos companheiros demitidos, e o atendimento das reivindicações especificas como: higiene, segurança, insalubridade, enfermaria, etc, que vem se dando à partir da greve, deixa claro aos operários que: isto são vitórias parciais da greve; a greve é uma forma de luta para conseguirmos as nossas reivindicações; pois se obtemos melhores resultados em nossa luta necessitamos elevar o nosso nível de organização, e aumentar as discussões políticas para despertar a consciência de luta nos mais amplos setores da massa. Com a greve, o sindicato caiu na mão de policiais, centenas de companheiros foram presos, dezenas perderam seus empregos, grande parte perdeu seus dias de trabalho, muitos companheiros estão na ilegalidade e apesar disso tudo ninguém se arrependeu de ter aderido à greve, aqueles que não aderiram ao movimento são desprezados pelos companheiros, o que não significa que para as próximas lutas não se deva discutir, e aprofundar com eles no sentido de que avancem e participem do movimento.   Ficou claro para as lideranças que: 1) Apesar da repressão brutal que impossibilitou a extensão e continuidade da greve, a demonstração do nível da luta de classe, fez os patrões cederem em varias reivindicações. 2) A brutalidade da repressão foi prejudicial para o movimento em si, porém benéfica a longo prazo, dado o avanço político da massa, com o desmacaramento da ditadura, deixando claro que reprimirá violentamente qualquer luta justa da classe trabalhadora. 3) Na luta a classe elevou o seu nível de cosnciencia devido a realização de assembléias, discussão política possibilitando maior aceitação das palavras de ordem das lideranças, e o surgimento de novas lideranças o que facilitou a organização dos mais amplos setores da massa, que vem se dando através da formação de núcleos clandestinos para discussão política e realização de ações praticas. Apesar de tudo o que houve a disposição de luta continua e isso nos permite dizer que ‘os homens que se sujeitam e resistem a tais calamidades para quebrar a resistência de meia dúzia de burgueses, saberão sem duvidas também quebrar a força de toda a burguesia”. 

PERSPECTIVA PARA O FUTURO DA LUTA
   Os setores conscientes da classe operaria, sua vanguarda, não podem ter mais duvidas quanto à existência das condições objetivas de se fazer greves. Só falta criar condições subjetivas, que se resumem na organização da classe. Aproxima-se o dissídio coletivo para todas as categorias, sabemos que dentro das leis do arrocho o aumento não corresponde nem a metade da elevação do custo de vida no ano de 68, isso sem contar o que perdemos nos anos anteriores. Os pelegos sindicais, percebendo a disposição da classe, mais uma vez farão, manobra para engana-la, dizendo que ‘não entraremos em dissídio, exigiremos um aumento salarial digno e se não for concedido entraremos em greve”. Essa tática oportunista já é velha e também conhecemos a sua saída. Se o sindicato não entra em dissídio o patrão entra, e daí eles dirão que ‘não estamos preparados para a greve, que ninguém tem o direito de, numa aventura, jogar pais de família no abismo, etc”. Os pelegos para sobreviverem se apóiam na desorganização da classe.A vanguarda para ser a direção autentica da classe deve organizá-la e apoiar-se na sua organização.O arrocho salarial está ai´. A tatica para combate-lo é a greve. No processo das greves, a vanguarda amadurecerá como direção e a classe compreenderá que o arrocho é apenas uma faceta de poder patronal e que só ficará livre dos arrochos quando derrubar esse poder numa luta prolongada, debaixo de um programa socialista revolucionário de libertação. A tarefa da vanguarda de cada categoria, de cada fabrica é preparar as condições subjetivas de organização, para com ou apesar dos pelegos, lutarmos concretamente por o aumento salarial menos injusto. Desde já deve-se iniciar a formação dos comitês de greves por secção, por fabricas e por municípios. Não devemos nos iludir nesta etapa com uma greve geral. Devemos sim, concentrar nossas forças nas fabricas onde existam melhores condições de greve. Lembrem-se que a greve de 16.000 metalurgicos mineiros, até o 6º dia só acontecia na Belgo Mineira e em Osasco, a greve iniciou-se em quatro fabricas, estendendo-se só a partir do dia seguinte. Uma greve apavora os patrões para trabalharem para eles próprios na medida em que lutam por seus interesses, ela coloca em duvida aqueles que se julgam senhores onipotentes dos meios de produção, ela leva os patrões a fazerem concessões e arrasta companheiros de outras fabricas à adesão, não somente em solidariedade, mas porque são vitimas da mesma exploração e são encorajados a tomar posição. Os grevistas de Osasco e a sua vanguarda levam as seguintes reivindicações de caráter geral e as propomos a outras categorias na certeza de que vão ao encontro dos interesses de toda a classe: a) aumento salarial de acordo com a elevação do custo de vida. b) Contrato coletivo de trabalho, isto como forma do combate ao desemprego. c) Aumento salarial de três em três meses. As reivindicações especificas de cada fabrica devem ser levantadas ‘in loco’ pelos companheiros,pois ajudará muito na mobilização da massa. 

PARALIZAÇÃO 
  A paralisação de cada fabrica deve apoiar-se na organização dos Comandos Clandestinos internos. A forma da paralisação através de piquetes nas portas de fabrica está superada, o piquete deve ser fator de estimulo para que outros adiram ao movimento e não como fator de imposição no sentido de se aderir à greve. A pratica demonstrou que a forma mais correta e educativa para a massa é a greve partindo da organização interna através dos comandos clandestinos de cada secção, parando uma a uma, com a massa de cada secção para engrossar as fileiras e indo parar as outras. Isso funciona se existir organização, estimula os vacilantes e impede a identificação dos lideres. A saída das fabricas deve ser em massa pois grupos isolados tornam-se fáceis para a repressão. Os comandos clandestinos da greve devem ser organizados ao nível de cada secção, cada fabrica, cada município. Com o avanço do processo, será necessário a formação de comandos gerais a fim de coordenar a luta em nível nacional. Esta é a experiência dos trabalhadores de Osasco. O objetivo deste documento é fornecer dados de analise a toda vanguarda revolucionaria brasileira na luta pela transformação social, pelo socialismo. 
                        JOSÉ IBRAHIN                         JOSÉ CAMPOS BARRETO 

                       OUTUBRO DE 1968.


Artigo publicado no Cadernos do Presente, 1978. Uma coletânea de artigos que, depois de 10 anos, fazia o balanço dos processos de 1968. Retirado do site:http://www.centrovictormeyer.org.br/attachments/104_Greves%20de%201968.Cadernos%20do%20presente-2%2007.1978.pdf

A história do movimento de Osasco
José Ibrahim
Eu considero o sindicalismo brasileiro bastante limitado até mesmo para conduzir as lutas econômicas da classe operária. É um sindicalismo paternalista, atrelado ao Ministério do Trabalho, fora da massa. No entanto, se remontarmos ao período anterior a abril de 1964, vemos que o Partido Comunista Brasileiro, que detinha a hegemonia do movimento operário, e estava à frente de quase todos os sindicatos, não só aceitou essas limitações, como também aprofundou-as, em função de sua estratégia geral, de conquista do poder pelo caminho pacífico. Esta prática fica bastante caracterizada durante o governo do Jango, quando o movimento operário é utilizado como massa de manobra do populismo. Apesar disso, em determinados momentos, o movimento popular escapava ao controle do Partido e realizava greves memoráveis, como a de 1953 e a de 1963. Nesta última a radicalização foi muito grande, com manifestações de rua, nas quais foram incendiados carros de polícia. Ocorre que a força dessa mobilização não refletia um elevado nível de organização da classe operária. Este é um fenómeno perfeitamente explicável, quando se analisa a conjuntura política daquele período. De qualquer forma toda aquela experiência de movimentação de massa, ainda que limitada e não dirigida a criar uma organização pela base, foi assimilada por um setor da classe operária, formado por elementos que participaram mais diretamente das assembleias sindicais, das manifestações organizadas pela CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) e dos piquetes destinados a garantir o sucesso das greves. É bom lembrar que o piquete cumpriu a função real de preencher o vazio criado pela ausência de um nível de organização mais elevado. Foi, em certa medida, um instrumento utilizado pelo reformismo para suprir a falta de organização nas empresas, embora contasse com a participação ativa dos operários mais combativos, que seguiam mais de perto a orientação do Partido e dos sindicatos. Quando ocorreu o golpe de abril de 1964, e o conjunto da esquerda mergulhou em profunda crise, foi esse setor mais avançado da classe operária que se voltou novamente para o sindicato, visto como o único órgão capaz de canalizar o descontentamento da massa, pois não surgiu outra alternativa por parte das forças de esquerda. Agora, procurava-se tirar as lições do golpe, fazer uma autocrítica na prática. Foi a partir daí, que começaram a surgir as oposições sindicais, e é assim que eu analiso a origem de nosso grupo em Osasco. Nós surgimos de uma crise geral das esquerdas.

Nas fábricas, nasce uma nova concepção de trabalho
Eu e alguns companheiros tínhamos ligações com operários militantes do Partido, (jamais pertencemos à organização) que vinham divergindo, desde antes de abril de 1964, de sua linha política e criticavam o cupulismo e a falta de preocupação com a organização de base.
Em decorrência disso, haviam organizado por volta de 1962, 1963 um comitê de empresa na Braseixos, uma experiência pioneira, criticada pelo Partido como prática divisionista; segundo a direção do Partido os patrões poderiam envolver o comitê e tratar diretamente com ele e desconhecer o sindicato. Sob a influência desses companheiros fundamos também na Cobrasma, onde eu trabalhava desde os 14 anos (1961), um comitê clandestino, que se dedicou à distribuição de pequenos panfletos, volantes que agitavam os problemas existentes na fábrica e algumas questões políticas mais gerais. Eram colocados nos banheiros, nos armários e dentro dos capacetes dos companheiros de trabalho, que os passavam adiante. Era um trabalho miúdo, cujo centro era a atividade sindical, embora mesmo antes do golpe tivéssemos uma atitude crítica frente ao sindicato. Achávamos que o sindicato era um instrumento de luta importante, que se devia atuar dentro dele, sem desconhecer, entretanto, suas limitações. Assim, começamos a defender a necessidade de criação de uma organização independente, mas sem negar a participação no sindicato. Era necessário negar o sindicato a partir de dentro, pois era uma bobagem dizer "abaixo o sindicato, viva o comité de empresa"! Essa posição sempre norteou nosso trabalho em Osasco. Jamais a abandonamos, e pessoalmente, continuo com essa posição até hoje.
Na época em que iniciávamos essa experiência de criação de um comité clandestino na Cobrasma que, se não me falha a memória, foi por volta de 1962/63, surgia em Osasco um outro elemento que deve ser levado em consideração, para qualquer análise sobre os acontecimentos posteriores: a Frente Nacional do Trabalho, congregando elementos da Ação Católica e da Juventude Operária Católica (JOC), e fazendo oposição aos comunistas dentro do sindicato. Eles acusavam o sindicato de fazer muita agitação política e esquecer os problemas dos operários nas fábricas. Tinham uma visão cristã da questão operária e defendiam para tanto o diálogo entre patrões e trabalhadores.
Assim, um núcleo de militantes da FNT que trabalhavam na Cobrasma organizou, por volta de 1963, uma comissão de fábrica, semi-legal, formada por 10 trabalhadores, e junto ao patrão reivindicaram sua legalização. Este, a princípio não aceitou o diálogo e o pessoal mais combativo da comissão foi inclusive, dispensado.
Enquanto isso, nós mántínhamos o comité clandestino, e, antes do golpe de abril de 1964, decidimos nos aproximar da comissão, pois, ao nível do trabalho de massa na fábrica, ela realizava um trabalho de agitação semelhante ao nosso. Como eu não era "queimado" e tinha muita mobilidade dentro da fábrica, por trabalhar no setor de controle de qualidade, fui destacado para fazer a aproximação entre os dois grupos. Daí em diante, passei a fazer parte das duas organizações. Isto é, do comité clandestino e da comissão dos dez.
A comissão da Cobrasma: uma experiência organizativa nova
Logo após o golpe ocorreu um fato que fez com que a comissão ganhasse importância. Um dia houve uma explosão na fábrica e um companheiro muito conhecido, que trabalhava na boca do forno, feriu-se gravemente e morreu no hospital. O acontecimento comoveu todo mundo e a comissão programou uma paralisação para a hora do enterro. No momento exato tocou-se o apito da fábrica e houve um silêncio total, com todo o pessoal tirando os capacetes em sinal de respeito. Durante cinco minutos a fábrica parou. Inclusive os chefes e os engenheiros que estavam na produção.
Imediatamente os patrões procuraram estabelecer um diálogo mais direto com a comissão, tentando envolvê-la e desmoralizá-la. Nós reivindicamos então sua legalização, com imunidade para os representantes - isto é , a garantia de que não seriam despedidos. De início a proposta foi negada, mas finalmente a própria direção da empresa propôs que se realizassem eleições dentro da fábrica, para que os membros da comissão fossem escolhidos.
A fábrica foi dividida em 19 setores, correspondentes às 19 seções existentes, e cada um deveria eleger um representante e um suplente para a comissão, que ficou composta por 38 operários (19 efetivos e 19 suplentes), representando mais ou menos 3 200 trabalhadores. A força mais influente na comissão era a Frente Nacional do Trabalho, que contava com a maioria dos representantes. Havia também operários independentes, iniciantes na luta sindical, sem nenhum compromisso político. Eu fui eleito pelo setor de controle de qualidade e era o único elemento de esquerda.
Na primeira reunião da comissão foi eleita uma mesa diretiva, sendo que o presidente e o vice-presidente eram da FNT, o primeiro secretário era um companheiro independente e eu o segundo secretário.
De acordo com os estatutos, a comissão deveria reunir-se mensalmente com a diretoria da empresa e para isso eram feitas anteriormente reuniões preparatórias, no sentido de elaborar uma agenda de problemas, previamente enviada aos patrões. A ata da reunião era assinada pela diretoria da empresa e pela mesa diretiva da comissão.
Embora participássemos dessa comissão, continuamos mantendo organizado o comitê clandestino, e, através dele, pretendíamos impulsionar a atuação da comissão, lutar para que ela avançasse e realizasse um trabalho de base dentro da fábrica. Além disso, a comissão sempre corria o risco de ser dissolvida pelos patrões e nesse caso o comité daria continuidade à organização e ao trabalho clandestino.

Fortalecimento do grupo de Osasco
Como era de se esperar, as divergências logo surgiram no interior da comissão . Ela passou a realizar um trabalho de cúpula, servindo de amortecedor entre patrões e operários, o que correspondia à visão da FNT. Apenas, os pequenos problemas eram resolvidos, os grandes não eram solucionados e a maioria ficava em suspense. Aos poucos a comissão foi se desgastando perante a massa , pois além de sua inoperância os patrões passaram a promover a cargos de chefia os representantes eleitos.
Percebendo o que ocorria, nós do comitê clandestino, começamos a combater essa tendência, lutando contra a burocratização e a prática colaboracionista da comissão.
Passamos então a incentivar a mobilização na fábrica, a organizar o pessoal por seção e a mostrar que nossas reivindicações, tinham que ser conquistadas na luta, através da organização, da pressão e, inclusive, da paralisação. Alguns companheiros da comissão começaram a concordar com a nossa perspectiva, mas ainda de uma forma muito tímida. Com o tempo a FNT foi se desgastando e nossa influência crescendo à medida que dávamos um encaminhamento mais radical às reivindicações na fábrica. Dentro dessa perspectiva em fins de 1966, organizamos uma operação tartaruga, como forma de pressão para obter aumento salarial. A produção chegou a cair quase 30%, sem que os patrões conseguissem detectar a atuação da comissão. Quando nos chamaram para conversar, dissemos que os operários ganhavam muito pouco e por isso a produção não saía. A empresa terminou concedendo reajuste e apesar de ser menor do que esperávamos, significou uma vitória parcial, que marcou a atividade da comissão.
Por outro lado, a essa altura dos acontecimentos , a posição de esquerda dentro da comissão já estava bastante fortalecida. Tanto é que, por ocasião das eleições para a segunda comissão, todo o pessoal que vinha sendo trabalhado pelo comitê clandestino conseguiu ser eleito. A Frente Nacional doTrabalho não elegeu quase ninguém, e eu fui
reeleito e escolhido presidente da mesa diretiva da comissão enquanto o companheiro Roque Aparecido era eleito secretário da comissão.
Gozando das regalias e imunidades que havíamos conquistado, intensificamos o trabalho de agitação e organização em todas a seções e núcleos a elas ligados. Em nossa prática procurávamos não ser paternalistas, não assumir uma posição de cúpula, não resolver os problemas pela massa, mas fazê-la participar dando-lhe tarefas concretas.
Com isso, contribuíamos para o surgimento de novas lideranças, que passavam a receber uma atenção especial do comitê clandestino, no que diz. respeito a discussões sobre a situação política do País, e mesmo sobre a questão do socialismo. Procurávamos nesse sentido, sempre ligar essas discussões à situação concreta da fábrica, segundo nossas possibilidades e nosso baixo nível político.
Ao mesmo tempo, como grupo de esquerda, nós nos reuníamos de forma clandestina e acompanhávamos o debate político-ideológico que se desenvolvia no conjunto da esquerda brasileira, embora continuássemos mantendo nossa independência, porque não víamos nenhuma alternativa nas propostas apresentadas.

Participar do sindicato, organizar as bases. E preparando greves
É bom ressaltar que nunca abandonamos a atividade sindical, embora de 1964 a 1965 o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco estivesse sob intervenção, sendo presidido pelo Camargo, um crioulo que sempre fizera oposição de direita no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Os membros da interventoria eram operários já bastante corrompidos, ligados a UDN e ao Herbert Levy. Enfim, representantes do sindicalismo amarelo. Foi nessas condições que começamos a fazer oposição no Sindicato, desenvolvendo uma luta por eleições livres, apoiados na própria legisiaçao trabalhista. Mesmo com o fim da interventoria, quando, através de uma convocação de última hora o interventor conseguiu organizar uma chapa única, com o apoio da FNT, e, eleger o Henos Amorina, um operário da Brown Boveri, nós continuamos dentro do sindicato. A segunda comissão da Cobrasma, da qual eu era presidente, foi eleita pouco depois da diretoria do Henos, que embora aceitasse o sindicalismo paternalista e assistencialista, não era uma pessoa desonesta ou conscientemente de direita, como o Joaquinzão (Joaquim Andrade, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo). O nosso trabalho na Cobrasma nos deu uma grande autoridade para atuar nas assembleias sindicais e atrair para nossas posições os melhores elementos de outras fábricas. Muitos haviam sido do Partido, vinham de outras regiões do país, tinham liderado greves e até mesmo estado na prisão. Assim, nós fomos nos encontrando e aglutinando no decorrer da luta e em função dela, até se constituir num importante grupo de esquerda, tendo como principal ponto de apoio o pessoal da Cobrasma.
Nosso trabalho no Sindicato nos distinguia de todas as outras oposições sindicais e eu acho que essa diferença explica porque fomos a única oposição que conseguiu ganhar a direção de um sindicato. Ao combater a atuação do sindicato, nunca dizíamos que a diretoria era pelega ou traidora, e nem mesmo vaiávamos os pelegos. Apenas apresentávamos uma alternativa baseada no exemplo da Cobrasma e da comissão de empresa. Além disso, quando eles diziam durante a campanha salarial que era necessário reivindicar 30% de aumento, porque de acordo com a tabelinha do governo o reajuste seria de 25%, nós afirmávamos que essa era uma proposta incorreta, que o certo seria reivindicar 50%, para dessa forma denunciar o arrocho e o aumento do custo de vida. No entanto, alertávamos que não éramos capazes de conseguir o aumento porque estávamos desorganizados. Era preciso se organizar melhor para ir à greve e que só através dela conseguiríamos exigir mais.
Como se vê, nossa ascenção no sindicato foi um processo, e, durante esse período, ocorreu um fato dentro da Cobrasma que contribuiu decisivamente para desmoralizar a direção do sindicato. Nós estávamos numa campanha por aumento salarial, dentro da empresa, e a diretoria aproveitou para despedir, por justa causa, 40 soldadores da montagem de vagões, cuja tarefa já havia terminado. O presidente e o advogado do sindicato e nós da direção da comissão nos reunimos com a diretoria da empresa para discutir o problema. Como os patrões se mostrassem intransigentes, o presidente do sindicato disse apenas que iria entrar com um processo na Justiça do Trabalho, solução ideal para a empresa, levando em consideração o tempo de duração do processo. Da parte da comissão afirmei que não aceitávamos a solução proposta e que paralisaríamos a fábrica, caso os companheiros não fossem readmitidos. Daí, passamos à agitação na fábrica e realizamos duas assembleias no sindicato, que contou com o comparecimento maciço do pessoal da Cobrasma. Na primeira assembleia, denunciamos a posição assumida pelo sindicato e por ocasião da segunda a diretoria não compareceu, ficando o sindicato em nossas mãos.
Demos um ultimatum à empresa e nos preparamos para a greve. Na última hora ela recuou e alguns soldadores foram readmitidos e os demais indenizados. Esse movimento aumentou bastante o prestígio da comissão da Cobrasma e contribuiu para a desmoralização da direção do sindicato.

Oposição Sindical em Campanha
Foi em decorrência dessa vitória na Cobrasma que, no início de 1967, começou a se espalhar o boato de que nós iríamos sair com uma chapa de oposição para concorrer às eleições do sindicato, e que eu seria candidato à presidência. Por essa época o grupo de esquerda já havia crescido bastante e sua influência se estendia por várias fábricas. Para nós o sindicato, apesar de ser um instrumento válido, era um órgão limitado e o mais importante era a organização pela base, os comités de fábrica, legais ou clandestinos. Assim pensando éramos contrários à diluição do grupo no sindicato e foi por isso que eu fui o único integrante dessa organização a sair como candidato à direção do sindicato. O restante da chapa era formado por elementos da FNT e independentes, que estavam sob nossa influência.
Apesar de sermos minoria na chapa resolvemos dela participar, pois achávamos que o importante era o programa por ela defendido. Era um programa de classe, que saía dos marcos do assistencialismo e levantava a luta contra o arrocho, contra as leis antioperárias, principalmente a lei de greve. Durante a formação da chapa entramos em contato com a direção do PC, no sentido de incorporá-lo à composição. No entanto a direção do Partido se negou, achando que era necessário marginalizar os cristãos e compor com a situação. E mais, afirmou que éramos aventureiros, sem nenhuma chance de ganhar, pois a situação contava com a máquina sindical. Entretanto, as bases do Partido participaram de nossa chapa, enquanto a direção ficou com a situação.
O ponto chave de nossa campanha sindical foi a discussão do programa com as bases de todas as fábricas. Para isso contamos com a participação de um grupo formado por cerca de cem companheiros, mobilizados para divulgar o programa da oposição nas portas das empresas. Foi durante a campanha que se criaram os embriões do que mais tarde seriam os comités nas outras fábricas.

A vitória da Oposição. Suas novas tarefas enquanto diretoria
As eleições se realizaram em julho de 1967 e nós vencemos com maioria absoluta em primeira votação. Foi a primeira vez na história do sindicalismo que uma chapa de oposição, concorrendo com duas outras e sem nenhuma ligação com a máquina sindical ou com qualquer tendência política tradicional no movimento operário, obteve uma vitória dessas.
Vale ressaltar que nós perdemos em todas as fábricas e só ganhamos na Cobrasma, onde tivemos 99% dos votos. Só a chefia não votou conosco.
No início de nosso mandato tivemos que enfrentar sérias dificuldades. Havia muita descrença, pois os operários não tinham grandes ilusões na direção sindical, nem no próprio sindicato. Apesar disso, fomos ganhando autoridade no decorrer da luta.
Embora fôssemos contra o assistencialismo no sindicato, nós não o eliminamos. Ao contrário, a assistência médica, dentária e jurídica no sindicato até melhorou. Mas a ênfase de nossa ação passou a girar em torno da luta económica e política. Para atingir esse objetivo voltamos toda a máquina sindical, no sentido de criar uma organização independente, iniciando um processo de mobilização fábrica por fábrica. A agitação de todos os problemas internos na empresa abria caminho para a organização dos comitês
clandestinos.
No nosso trabalho de organização e mobilização procurávamos esgotar, em todas as fábricas, os métodos legais de atuação, utilizando o diálogo entre o sindicato e os patrões. Chegamos mesmo a convocar mesas redondas, por fábrica, na Delegacia Regional do Trabalho, embora sabendo que isso não levava a nada. Agindo segundo esses critérios, partíamos de um princípio básico: não adianta radicalizar, apregoar a greve, se a massa não compreendeu sua necessidade. Para que isso ocorresse foi que começamos pelas lutas parciais, pelas lutas do dia a dia, ao nível de cada empresa.
Outro método de trabalho, por nós empregado, foi o do exercício da democracia dentro do Sindicato. Nós deixávamos que as decisões mais importantes fossem tomadas em assembleias gerais, onde a posição do grupo de esquerda era sempre vitoriosa, obrigando, assim, a maioria da diretoria do sindicato, sobretudo a FNT, a seguir a reboque de nossa orientação.
Ao mesmo tempo em que organizávamos os operários a partir das fábricas, nos integramos aos movimentos mais gerais das organizações sindicais, mesmo quando eles não correspondiam à nossa perspectiva para o movimento operário. Foi o caso de nossa
participação no MIA (Movimento Intersindical Anti-arrocho). que surgiu mais ou menos por volta de setembro de 1967, com o objetivo de lutar contra o arrocho salarial. Seu programa era convocar concentrações em vários Sindicatos, culminando com um ato em praça pública. Foram programadas 5 concentrações: a primeira no Sindicato tios Metalúrgicos de São Paulo, a segunda em S. André, a terceira em Osasco, a quarta em Campinas e a última em Guarulhos. Somente os dirigentes sindicais faziam parte do MIA, ficando os mesmos encarregados de convocar a massa para as concentrações, nas quais eles eram os únicos oradores. Era uma tentativa de dirigentes sindicais que não tinham massa, de aparecerem como nova liderança.
Seguindo nossas posições, defendemos no MIA a necessidade de se agitar as palavras de ordem de organização pela base, formação de comitês de fábricas e greve contra o arrocho, servindo de porta-voz das diversas oposições sindicais. Na concentração promovida pelo MIA em Osasco, só falaram representantes das oposições sindicais e nela foi aprovada a "Carta de Princípios dos Trabalhadores de Osasco", onde aparecia todo o nosso programa.
Foi nesse momento que houve a tentativa, por parte do Ministério do Trabalho, de decretar intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Eu cheguei a ser suspenso por 15 dias e o caso provocou uma grande mobilização em defesa do sindicato, que contou, inclusive, com a solidariedade de todos os dirigentes sindicais de São Paulo. A reunião de Guarulhos terminou em conflito entre as oposições sindicais e os dirigentes pelegos, e nesse processo o MIA extinguiu-se. Começou-se, então, a organizar o Primeiro de Maio na Praça da Sé.

Bases participam do 10 de maio e exigem a greve
Os dirigentes sindicais que integravam o MIA defendiam a realização de um ato público com a participação das autoridades e convidaram o governador Abreu Sodré, o Ministro do Trabalho e Franco Montoro. Nós, por outro lado, achávamos que do Primeiro de Maio deveriam participar apenas trabalhadores, sob pena de descaracterizar a manifestação e aparecermos comprometidos com o governo. Como nossa posição não foi aceita, reunimo-nos no sindicato e decidimos partici-par do ato publico, utilizando-o como forma de protesto. Assumimos então a decisão de tomar o palanque e dele expulsar os pelegos, autoridades e transformar a manifestação num ato autenticamente operário, dominado pelas oposições sindicais, verdadeiras representantes das tendências mais consequentes do movimento operário naquele momento. E asim foi feito. Tomamos o palanque e logo em seguida saímos em passeata pelas ruas da cidade. Eram cerca de 15.000 pessoas que desfilaram até a Praça da República, onde o Barreto fez um excelente discurso, explicando a significação do Primeiro de Maio e a ocupação do palanque.
Essa manifestação repercutiu profundamente em Osasco, acentuando o nível de radicalização e de combatividade da massa. Era uma época em que se realizavam pequenas paralisações por empresas e eram frequentes as assembleias gerais no sindicato. Foi nessa ocasião que ocorreu a greve da Barreto-Keller.
Os trabalhadores dessa empresa estavam reivindicando aumento salarial, e os patrões haviam prometido atender suas reivindicações. Mas no dia do pagamento o aumento veio apenas para alguns companheiros, numa tentativa clara de dividir o movimento. Após o almoço, os operários reuniram-se, cercaram o Departamento de Pessoal e disseram que só voltariam ao trabalho quando o problema do aumento fosse resolvido. A seguir, telefonaram para o sindicato e avisaram que estavam em greve. E eu segui para lá.
Formamos, imediatamente, uma comissão provisória com os companheiros mais antigos na fábrica, para discutir a questão com os patrões. A empresa não aceitou receber a comissão e disse que só discutiria comigo. Rejeitamos essa proposta e a greve durou 7 dias. Um fato curioso: o dono dessa fábrica, numa reunião, chegou a chamar-me de comunista que fazia o jogo do imperialismo porque a sua empresa estava ameaçada pela Telespark e a G.E. Nessa semana mobilizamos toda a massa, realizamos assembleias gerais e criamos comités de solidariedade. Um clima de greve tomou conta de todas as fábricas e os operários ficaram esperando a hora de parar. Na Barreto-Keller, apesar das ameaças de dispensa, os patrões terminaram concordando em ceder: aumento salarial, melhoria nas condições de trabalho e legalização da comissão de empresa.
Entretanto, os operários não queriam aceitar o acordo. A greve fora organizada por um comitê totalmente independente do grupo de esquerda e do sindicato. Diante disso, nós do grupo de esquerda nos reunimos, analisamos a situação, convocamos os comités de empresas e explicamos que não estávamos organizados para ir à greve; que ela deveria ser feita somente em novembro, época do dissídio coletivo dos metalúrgicos. Argumentamos politicamente e os companheiros da Barreto-Keller terminaram aceitando.

Isso ocorreu em fins de maio de 1968.
Era um momento de intensa agitação política. Os estudantes estavam nas ruas e alguns grupos de esquerda intensificavam as ações armadas. Vários companheiros do grupo de Osasco, inclusive, eram atraídos por um desses grupos. A maioria dos integrantes do grupo de esquerda tinha a perspectiva de ir para a clandestinidade e realizar um trabalho de outro nível.
Apesar da euforia da radicalização, nós sabíamos que havia um grau de organização suficiente para tirar a greve, mas não para sustentá-la. Por isso, nossa intenção era transferir o movimento grevista para novembro.
A posição do sindicato e do grupo de esquerda não correspondia, no entanto, às expectativas da massa. Começaram a aparecer nas fábricas pichações pedindo greve e os operários só falavam em paralisar o trabalho. Era voz corrente que todos estavam dispostos a ir à gpreve, menos o sindicato. De um lado, nos sentíamos cobrados e pressionados, e, de outro, fazer a greve era, há muito tempo, uma questão importante para nós que procurávamos nos afirmar como uma liderança de novo tipo.
Nesse sentido o exemplo de Contagem, em Minas Gerais, que havia parado em abril, calara fundo na liderança de Osasco. Eu havia estado lá depois do movimento e voltei convencido de que tínhamos mais condições do que eles para realizar a greve. E havia também um dado concreto: lá não houvera repressão, e, em São Paulo o movimento estudantil não estava sendo reprimido. Por fim, existia uma questão política que norteava nossa atuação prática. Estávamos ligados ao movimento de massa, mas ideologicamente nos encontrávamos bastante comprometidos com as propostas de luta armada que setores da esquerda começavam a levantar. Em outras palavras, partíamos da mesma análise de conjuntura que o restante da esquerda estava fazendo: o governo está em crise, ele não tem saída, o problema é aguçar o conflito, transformar a crise política em crise militar. Daí vinha nossa concepção insurreicional de greve. O objetivo era levar a massa, através de uma radicalização crescente a um confronto com as forças da repressão.
Foi essa concepção que nos guiou quando, em julho de 1968, decidimos desencadear a greve. Era uma análise errada de conjuntura - comum a toda esquerda - e um fator subjetivo a nossa vontade de fazer o movimento.

A greve de julho de 1968: ocupação de empresas, do Sindicato e passeatas
Com esse propósito partimos para organização do movimento. Fizemos um esquema para a greve e um cronograma para as paralisações. No primeiro dia ocuparíamos a Cobrasma e a Lonaflex, paralisaríamos a Barreto-Keller e a Fósforos Granada, cujos operários tomariam o sindicato. No segundo dia, seriam paralisadas Brown Bolveri e a Braseixos.
No terceiro, estenderíamos o movimento ao restante das fábricas. Em três dias toda Osasco estaria em greve, e nosso plano era estendê-la a São Paulo, só não contávamos com a repressão no primeiro momento. Para isso nos baseávamos nas atitudes de Sodré, em relação ao movimento estudantil e na posição adotada pelo Ministério do Trabalho por ocasião da greve de Contagem.
A ocupação da Cobrasma foi detalhadamente planejada, devido às dimensões da fábrica. Foi pensada a melhor maneira de impedir a infiltração policial, a saída do pessoal, como reter os funcionários da administração, dominar as vias de comunicação da empresa e como organizar grupos para explicar à massa as razões da ocupação. Essa ação englobava, ao todo, cerca de 200 companheiros pertencentes aos setores mais avançados da Cobrasma. Esse mesmo esquema foi montado em relação à Lonafex e nosso principal ponto de apoio eram os comités e núcleos clandestinos, que atuavam em cada fábrica. Para coordenar o movimento foi formado um comando geral da greve, ao qual estavam subordinados os comitês a nível de empresa. Somente os companheiros que integravam esses comandos sabiam o dia e a hora do movimento.
A Cobrasma parou às 8:30, quando um companheiro do Comando Geral, que trabalhava no setór de fundição, parou seu maçarico e gritou: "PESSOAL, Ê AGORA!" Com essa palavra de ordem foram parando seção por seção e o pessoal que deixava o trabalho passava a engrossar o piquete. No mesmo dia às 13 h e 45 m parava a Lonafex.
Durante a ocupação da Lonaflex houve alguns incidentes, pois entre os técnicos e o pessoal de escritório havia grupos ligados à TFP, os quais tentaram atravessar os portões, agredindo os companheiros que ali se encontravam. A massa veio em seu auxílio e deu uma grande surra nos técnicos e sobretudo nos elernentos pertencentes à diretoria da empresa.
O movimento grevista foi se estendendo e já de manhã haviam sido paralisadas a Barreto-Keller e a Fósforos Granada. Eram duas fábricas vizinhas, pertencentes ao mesmo dono, embora só a primeira seja metalúrgica. A Granada tinha cerca de 400 operários, dos quais 350 eram mulheres e menores, o que tornava o trabalho de organização bastante difícil. Foi com a ajuda dos companheiros da Barreto Keller que conseguimos organizar um grupo de companheiras mais avançadas, dispostas a criar condições para que a Granada aderisse ao movimento. As duas fábricas pararam e os trabalhadores desfilaram em passeata até o sindicato.
Depois de organizar a atividade no sindicato fui para ia Cobrasma. A fábrica tinha dois portões: o da frente que conduzia ao escritório central e, a seguir, um outro que dava acesso direto ao interior da empresa. Como só este último havia sido tomado pelos companheiros, quando cheguei aí, fui barrado pelos guardas da segurança que não me deixaram entrar, dizendo que eu tinha de pedir autorização ao diretor da empresa. Este, da janela do escritório, me chamou para conversar. Eu respondi que não tinha por que lhe pedir autorização, pois a fábrica estava em nossas mãos e se os operáros me dessem ordem para entrar eu pularia a cerca. E foi o que eu fiz. Os companheiros então me levaram nos braços ate a assembleia, enquanto os patrões olhavam pela janela prostrados.
Já não mandavam na empresa.

Intervenção oficial: negociação e repressão
A essa altura o Ministério do Trabalho já tinha declarado a greve ilegal, decretado a intervenção no sindicato e designado representantes para ir a Osasco discutir com a direção sindical e os grevistas. Chegaram com tom conciliador, tentando me envolver e dizendo que se parássemos a greve e desocupássemos as fábricas eles garantiriam o início de conversações com os patrões. Mostrei que a greve havia começado nas fábricas e nós como direção sindical a apoiávamos incondicionalmente. Além do mais, não estava autorizado a realizar qualquer tipo de negociação. Por fim, falei que se eles quisessem, poderíamos discutir com os companheiros das fábricas e com a assembleia dos operários no sindicato. De fato, na Cobrasma, realizou-se uma assembleia, da qual participaram os representantes do Ministério e um representante dos patrões. Em nome do sindicato eu disse que a greve continuava firme e que contávamos com um grande apoio; o representante do Ministério tentou defender o governo, recebendo uma estrondosa vaia e o emissário dos patrões manteve uma atitude conciliatória, dizendo que a empresa estava estudando o problema. Quando saíamos dali a massa estava convencida de que o Ministério e os patrões inclinavam-se a negociar.
Ao cair da tarde do primeiro dia de greve tudo marchava segundo havíamos planejado. Eu circulava livremente no carro do sindicato e não havia sinal de mobilização policial. A repressão chegou com a noite. A tropa de choque da Força Pública entrou em Osasco trazendo cavalaria, tatus, brucutus e atuando em consonância com o DEOPS e passando a controlar todas as saídas da cidade. Os soldados cercaram as fabricas ocupadas, exigindo que a massa saísse. Mas nenhuma medida foi tomada em relação ao sindicato.
Os companheiros da Cobrasma d i s c u t i r am o problema e resolveram não abandonar a fábrica. Da rua, os soldados começaram a fazer guerra de nervos. Foi então que o Barreto aproximou-se da cerca e fez um discurso para os s o l d a d o s , conclamando-os a não acatar as ordens dos oficiais e não reprimir os trabalhadores grevistas.
Foi uma cena impressionante. Toda a massa colocou-se atrás dele e os soldados vacilaram. A oficialidade teve que falar com firmeza, para fazer os soldados avançarem.
Era mais ou menos meia noite, quando começou a invasão. Os tatus e brucutus romperam as barricadas e os companheiros, para se protegerem, apagaram todas as luzes. A tropa de choque entrou na fábrica dando rajadas de metralhadoras para cima e jogando bombas de efeito moral. Houve muito combate corpo a corpo, pois os operários conheciam muito bem a fábrica e valiam-se da escuridão.
Nesse momento a massa mostrou uma grande disposição de luta e o pessoal do comando, liderado pelo Barreto, dirigiu a saída dos grevistas. Foi aí que ocorreu um episódio pleno de tensão, envolvendo o Barreto. Ele estava dando cobertura a um grupo que pulava o muro, quando surgiu um pelotão da Força Pública. Então ele acendeu uma tocha, correu para perto do depósito de gasolina e gritou: "ou vocês param, ou vai todo mundo para o inferno!" Os soldados pararam, os companheiros conseguiram fugir, mas o Barreto foi preso, quando tentava sair. Ao todo foram presos cerca de 300 grevistas, mas depois da triagem feita na fábrica, somente uns 50 grevistas foram para a delegacia.
A Lonaflex também foi desocupada da mesma forma um pouco antes. Só que lá não houve prisões. Depois de dialogarem com a Força Pública e receberem a garantia de que ninguém seria preso, a massa saiu à rua em um bloco único, que só se dispersou quando se havia distanciado bastante da repressão.
Nessa mesma noite também foi decretada a intervenção no sindicato.
Apesar de toda a repressão à greve, no dia seguinte, a Brown Boveri parou. De acordo com o plano combinado, os companheiros mais avançados deveriam reunir-se num determinado ponto da fábrica e desencadear o movimento. Mas em decorrência da repressão na Cobrasma o esquema furou, pois só uma minoria compareceu ao local combinado. Nesse momento um companheiro muito combativo, não conformado com a situação, resolveu parar assim mesmo o seu setor. Falou aos companheiros de trabalho e conclamou-os à paralisação, dizendo que não era correto abandonar os trabalhadores das outras fábricas, que haviam aderido ao movimento e sofrido a repressão. A massa aceitou a formou-se um grande piquete para levar a greve às demais seções. Diante da ampliação do movimento os diretores correram para a calderaria, o setor mais importante da empresa, onde trabalhavam cerca de 600 operários. Caso esse setor continuasse funcionando, não havia maiores problemas para a fábrica, mesmo com a paralisação do resto do pessoal. Quando o piquete se defrontou, na seção, com os patrões, a massa vacilou. Novamente o mesmo companheiro fez uso da palavra e gritou que se o pessoal tivesse medo de parar as máquinas ele mesmo pararia. Dizendo isso, saltou de onde estava e desligou a primeira máquina que encontrou à sua frente. Em meio aos gritos de "Greve, Greve!" a seção parou. Depois saíram às ruas e foram em passeata até o sindicato.
A fábrica seguinte a parar foi a Braseixos, que ficava junto à Cobrasma. Mas esses companheiros abandonaram o trabalho e se organizaram em grupos clandestinos nos bairros e nas igrejas.
Também nesta mesma noite o Sindicato foi cercado pela polícia a qual ordenou sua desocupação. O interventor foi até a sede do sindicato com um pelotão de soldados, para assumir as novas funções, mas não conseguiu nem entrar no prédio. Quando a polícia invadiu o sindicato havia lá dentro cerca de 80 companheiros e eram 22 h.

Final melancólico
No terceiro dia; nos reunimos para tentar articular um esquema de organização por bairros. Mas embora a greve continuasse, não havia se alastrado como se esperava. No quarto dia começou o refluxo: 50% dos operários voltaram ao trabalho. A partir desse momento praticamente perdemos o controle do movimento. Estávamos sendo procurados pela polícia, não podíamos mais circular por Osasco. No entanto, a greve ainda continuou por mais um dia, depois do qual cerca de 80% dos trabalhadores retornaram às fábricas.
Como era de se esperar, com o refluxo da greve, os patrões negaram-se a atender qualquer reivindicação e começaram uma dispensa em massa. Diante disso, retomamos a agitação, através de p a n f l e t o s , comi cios- relámpago. protestando contra as dispensas e tentando articular uma nova paralisação. Foi aí que os dirigentes sindicais de São Paulo, junto com a FNT e a Igreja convocaram uma reunião com os patrões na DRT, onde chegaram a um acordo: não haveria mais dispensa, seriam atendidas algumas reivindicações e as empresas pagariam indenizações aos operários despedidos. Além disso, chegaram a conceder reajustes salariais entre 15 e 20%.

Uma avaliação autocrítica e suas Lições
Para terminar é necessário tirar algumas conclusões dos acontecimentos. Um movimento de envergadura como a greve de Osasco, para ser vitorioso, tem de levar em consideração uma série de fatores, como a correlação de forças, o nível de organização, a disposição da massa. É preciso sempre tentar obter vitórias parciais, para que se fortaleça a organização e se eleve o nível de consciência da classe operária. Como eu já disse, anteriormente, nós fizemos a greve num mau momento, pois se tínhamos condições para mobilizar a massa, faltava-nos organização suficiente para sustentar o movimento. Por outro lado, embora lutássemos sempre para criar uma organização independente nas fábricas, os comitês que surgiram continuaram na dependência do Sindicato. Não que tivéssemos intencionalmente fortalecido o Sindicato em detrimento de nossa meta principal, mas porque se tratava de uma experiência nova. Além disso, os comités também dependiam muito do grupo de esquerda, que por sua vez controlava o Sindicato. Tudo girava em torno do Sindicato: era lá que se realizavam as reuniões das comissões e dos comités. Jamais nos preocupamos a sério em montar, nos bairros, uma infra-estrutura independente do Sindicato. Foi por essa razão que quando a polícia ocupou o Sindicato e nós fomos impedidos de circular em Osasco a greve entrou em refluxo.


Fora isso, existe o problema de nossa visão política (nessa época bem militarista), que influiu na decisão de antecipar a greve, bem como na forma de encaminhá-la. Essa posição nos colocava a todos no mesmo nível de prática de um setor importante da esquerda brasileira, que se encaminhava cada vez mais para as ações armadas. Entretanto, nenhum desses grupos oferecia uma alternativa para o movimento operário, e nós de Osasco sem sermos um partido, fomos levados pela contingência a assumir tarefas de direção política da massa.

 
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