segunda-feira, 22 de abril de 2013

Entrevista 8 - Joaquim Miranda - parte I - Greve na Cobrasma de 1968 e ABC paulista

Elaboração, coleta e transcrição da entrevista: Alessandro de Moura.
[Falta revisão]



Nasceu em Porangaba, em 1941. Quilometro 165 da Castelo branco, perto de Botucatu. Migrou para são Paulo em 1958, aos 16 anos, ingressou na Granada, onde trabalho durante 4 anos. Relata que nessa fábrica já havia um trabalho de organização operária desenvolvido pelo Partido Operário Comunista – POC (Organização que tinha Luiz Eduardo da Rocha Merlino como um de seus dirigentes – este foi assassinado pela ditadura). Em 1962 ingressou na Brás-eixo, onde se fabricava peças para veículos e caminhões, exercia função de afiador de ferramenta. Relata que começo a sua militância por volta de 1965, por via da Igreja católica, congregação Mariano. Na igreja conheceu membros da JOC, “Na congregação Mariano começou a aparecer uma ou duas pessoas que eram da JOC, Juventude operária Católica, e ai eles começaram a falar dessas coisas diferentes, de trabalhadores, de sindicato, de comunismo, de justiça social, e eu fui me interessando, fui embarcando, foi assim que começou. O Padre daqui também era um tanto progressista, isso ajudava... Padre Rafael Busatto. Foi assim que começou então, começou na Congregação Mariano”. Foi dirigente nacional da ACO – Ação Católica Operária.

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Uma das coisas muito interessantes, que eu acho de 1968, que até merece registro, é que, olha, noventa e nove por cento (99 %) daquele pessoa que estava na linha de frente da greve, eles continuaram em algum lugar, ou em sindicato, ou em uma associação, ou movimento social. Então, isso ai para mim é relevante. Porque muitas vezes, principalmente porque teve muita repressão, o pessoal dsbunda todinho né. Muitas vezes acontece isso. Bom, eu já vi acontecer isso.

Em 1965 eu já entrei para a diretoria do sindicato dos metalúrgicos de Osasco... o processo foi uma chapa única. Tinha havido intervenção no sindicato, depois foi liberado para ter eleição, teve uma chapa única. O interventor era Luiz Camargo... Ele era nomeado pelo Ministério do Trabalho, quer dizer... não representava nada. Na verdade, esse próprio Luiz que era interventor montou a chapa, ele não participou, mas ele montou, quem encabeçava a chapa era o Henos Amorina, que foi presidente do sindicato dos metalúrgicos, foi vereador aqui... Ai eu fui convidado... eu ia no sindicato jogar ping-pong, e eu fui convidado para participar da chapa e entrei... 

O Henos... Dentro da consciência que ele tinha, não da para dizer que era combativo, mas também não dá para dizer, o que alguns dizem, que era um pelego, eu não diria isso de jeito nenhum. Eu via como um amigo... Uma pessoa popular, ligado a área de futebol amador, metalúrgico, eu acho que sem grandes qualidades, vamos dizer, mas também... não via defeitos nele a ponto de comprometer seriamente a classe, a categoria metalúrgica enquanto ele era o presidente do sindicato. 

E nessa época também foi criada aqui em Osasco uma subsede da Frente Nacional do Trabalho... e toda segunda-feira tinha uma reunião para a gente conversar, reunia 10, 12 pessoas, metalúrgicos, não-metalúrgico, e a gente conversava sobre a vida dos trabalhadores. E acho que ali deu para gente se aprofundar... eu ia me aprofundando um pouco mais da questão de entender porque eu estava no sindicato, o que representava o sindicato, a história do sindicato, então deu para se aprofundar um pouco mais. A sub sede aqui... A sede da Frente era em São Paulo... [a sub-sede em Osasco], era na verdade um escritório de advocacia onde tinha o Mario Carvalho de Jesus, que o Albertino deve ter falado... Teve uma greve numa empresa em Perus, e acabou virando um marco essa greve da empresa em Perus... E a Frente Nacional do Trabalho, com alguns militantes, tiveram um papel importante nessa greve. 

O primeiro de maio na Praça da Sé em 1968 

Eu, hoje sei muito mais coisas, sei onde estou pisando e tudo mais. Mas, mesmo no primeiro de maio [de 1968], me deram lá um cartaz, o pessoal daqui da diretoria do sindicato, um cartaz do Che Guevara, e eu estava segurando... Eu não... Sinceramente, diante de todo o perigo que estava ali... Era realmente [arriscado]... Carregar um cartaz do Che Guevara... A organização [do primeiro de maio] era muito mais ligada ao Ibrahin [da VPR]... grupos de esquerda que eu não sei identificar... Eu nunca participei de reunião de organização... Só anunciavam: ‘no dia primeiro de maio nós vamos para a Praça da Sé’. Osasco teve uma presença forte sim... Teve uma presença forte nesse primeiro de maio, tanto na organização como na hora de destruir o palanque lá. De invadir o palanque onde estava o governador. Então teve... eu sei que teve uma presença forte sim...

Por que que se decidiu tomar o palanque e expulsar o governador?

Fazia parte do esquema do pessoal, principalmente da luta armada que preparou... Parece que o Lamarca nesse dia estava lá comandando um pessoal, uma quantidade... O capitão Lamarca né... Parece que ele era o comandante da segurança da Praça da Sé. E isso já devia estar combinado entre as pessoas [que dirigiram a organização do ato]. Mas eu não tinha conhecimento nenhum disso, não tinha não...

Mas, foi legal, tinha muita gente... Era época da ditadura, fazer um primeiro de maio daquele... Expulsar o governador não significava muita coisa... Porque o governador... mesmo no DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna], eu cheguei a ver... daqueles que estavam no DOI-CODI... bem... bastante tempo depois... fazendo chacota do Abreu Sodré... Então, era uma marionete [o Abreu Sodré], simbólica só... o governador né... Quem mandava mesmo era os militares né... Ai foi o primeiro de maio, depois a greve [da Cobrasma] foi em julho... Um mês e meio depois... 

E como se preparou essa greve? 

Antes um pouquinho... Voltando um pouco... Eu vim do interior... Tinha uma musica lá do Raul Seixas, quando eu vim do interior “Inocente, puro e besta” [O título da música é Sessão das 10], então foi mais ou menos assim que eu vim, inocente, puro e besta, e ai veio a “Disparada”, do Geral Vandré, aquela música disparada, para mim ela é muito interessante e tem um conteúdo muito bom. Como se fosse a caminhada de alguém que vira militante, digamos... não importa de que... pode ser até de direita... de esquerda... eu prefiro a esquerda... ‘E o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo’, eu acho que muita gente ouve essa música, mas não entende porra nenhuma... Eu entendo de uma maneira, de uma caminhada de um militante... Então para mim, eu faço questão de registrar isso... A “Disparada” influenciou bastante na minha vida... 

A greve foi um movimento grande, grande, e um desafio a ditadura. Hoje eu percebo isso, antes também não... Um desafio a ditadura... Um dos maiores desafios que teve... Principalmente uma maneira de fizer, uma parte das pessoas, de trabalhadores, dizerem... Tinha estudante... bastante estudantes também, da USP participando... Anteriormente, conversando com um e outro... da USP eu sei que tinha... Para apoiar, e também para tentar cooptar para o partido aos quais eles pertenciam, AP [Ação Popular], POC e outros, menos o PC...

O PC, na empresa em que eu trabalhava, a Brás-eixo, no dia da greve, um dos lideres históricos... do PC aqui em Osasco, o [Conrado Del] Papa... que tinha sido inclusive do Sindicato dos Metalúrgicos... Nesse dia, dentro da Brás-eixo, eu me lembro, apesar do alvoroço, eu me lembro... Ele era gordão... Ele saiu assim... Só olhando para o chão e [saiu de fininho]... Ele tomou uma atitude que ele achou que devia tomar... Deve ter dito lá, para o chefe dele no dia ‘Olha, eu não tenho nada com isso’, mais ou menos assim... Eu penso que foi isso. A motivação dele né... Ta morto também... Falar de morto né... Falar mal é um pouco de covardia, mas já que é história, não dá para a gente se omitir também, não é? 

Então a greve teve uma preparação, principalmente foi organizada pela comissão de fábrica [da Cobrasma]. Eu era da Brá-eixos, e a Comissão era da Cobrasma. Nessa época, um pouco, uns seis meses antes da greve, a gente estava começando a organizar uma comissão de fábrica na Brás-eixo... E ai, a greve, na empresa que eu trabalhava, na Brás-eixo, não tinha plano nenhum de greve, apesar de estar ali encostado. Mas acontece que no dia 16 de junho começou a greve na Cobrasma, e em outras empresas, eu trabalhava em uma máquina de afiar ferramenta, e durante o dia, logo de manhã, vinha um na minha máquina, estava lá, na sala onde eu trabalhava, e falava assim: ‘E nós?’. Eu falava assim, porque eu era do sindicato, então era como se fosse uma referência, uma orientação, uma cobrança, ai eu dizia: ‘Nós nada, a greve é da Cobrasma’. Para você ver o nível que a gente estava... E também, o pessoal da Cobrasma, ao bem da verdade, da comissão de fábrica, eles eram meio que, como se fosse.... Os donos da verdade, ou, os iluminados... os muito poderosos que não precisavam da Brás-eixo... Não, teve Brown Boveri, teve Lona-flex, mas eu, enquanto dirigente sindical nunca fui consultado para dizer ‘Na Brás-eixo, dá para acontecer alguma coisa?’. 

Na Lona-flex e na Brown Boveri tinha uma certa organização, mas na Brás-eixo, eu posso garantir, tinha mais de 800 trabalhadores, uma das empresas super importantes, ali do ladinho, não tinha nenhuma preparação para a greve... Ai começou, vai um e diz: ‘E nós?’, e um segundo: ‘E nós?’. E um terceiro... Quando chegou lá pelo décimo, eu falei, está acontecendo alguma coisa!’. Ai eu comecei a dizer: ‘Então vamos para o sindicato hoje a noite as 19:00’. A gente saia as cinco e pouco, seis horas do serviço, ‘vamos para o sindicato e vamos decidir’. 

E não é que assim, com tudo meio nas coxas, apareceu umas setenta e poucas pessoas no sindicato. Quer dizer, dez por cento (10%) dos trabalhadores, e lá nos decidimos. No outro dia, no dia 17 [de junho] nós decidimos: ‘Vamos parar também, e vamos ocupar a fábrica também’. A ferramentaria, disso eu sabia, a ferramentaria e a afiação de ferramenta, onde eu trabalhava, a gente reunia ali umas cem pessoas, eram os mais mobilizados, era um pessoal, digamos, mais consciente... Então o esquema era assim: ‘Vamos para a ferramentaria e a afiação de ferramenta’, e dentro da firma, tinha aquelas ruas, onde passa os carrinhos para conduzir peças... E a gente pára e começa uma passeata dentro da fábrica, pedindo para o pessoal aderir, da linha de produção, da usinagem, de todo o canto, pedindo para o pessoal aderir. E ai fomos por essas ruas, fazendo as passeatas dentro da fábrica. Ali pela terceira passeata, noventa por cento já tinha engrossado a passeata dentro da fábrica. E a diretoria, os cabeça, a diretoria da fábrica, junto com a gente, porque nesse dia eles entraram mais cedo... acho que eles ficaram sabendo... E ai eles diziam para mim: ‘O que é? Vamos conversar, vamos conversar...’. E eu lembro que eu dizia: ‘Hoje não tem conversa’. Porque era uma greve unicamente, na Brás-eixo, de solidariedade à Cobrasma, principalmente porque na noite anterior tinha havido toda aquela violência da cavalaria entrar na Cobrasma né... Então o pessoal fica sabendo... de um jeito ou de outro, e tem um sentimento de classe sim, que funciona nessa hora... Tanto é que quando uma pessoa dizia: ‘E nós, e nós? Via a Cobrasma parada do outro lado. É um sentimento de classe, eu entendo assim, de solidariedade. Ainda que na Cobrasma, os problemas da Cobrasma, tanto de insalubridade, de salário, de higiene, tudo mais, era muitíssimo pior do que na Brás eixo. A Brás eixo era um empresa moderna, um bom salário, condições de trabalho boa, restaurante bom... Então, uma motivação, assim, especifica para colocar como bandeira para o pessoal parar, não tinha não. Agora, a Cobrasma tinha de sobra... Motivação dos mais diversos setores... Necessidade de uma reação contra... insalubridade por exemplo, que eu saiba, na Cobrasma tinha muito, muito, muito... Então foi assim, e ai paramos no dia 17, parou, no dia 17 parou, só ficou o escritório trabalhando, o restante parou tudo...

E a repressão, como foi? O que aconteceu?

Ali por perto da Cobrasma, em frente o sindicato em Presidente Altino, era mesmo uma praça de guerra. Aqueles carros chamados ‘burucutus’, ‘Tatus’, que eu não ouço mais falar deles, estavam todos nas ruas ai... Polícia... Nessa altura, uns 50 trabalhadores da Cobrasma já tinham sido presos... E no dia 18, foi bem, mais uns 50 presos... Repressão teve, a cavalaria entrou dentro da Cobrasma, gente pulando o muro de noite... Eu não estava lá dentro, mas ouvi falar... Então a repressão foi fortíssima. Até porque uma greve de ocupação que nem foi aqui na Cobrasma... Ditadura... ocupar uma fábrica, segurar engenheiro lá dentro, para ir almoçar no bandejão, no mesmo prato... é meio atípico... Para uma época de Ditadura...

E na fábrica onde o senhor trabalhava, foi gente presa também? O senhor não chegou a ser preso nessa ocasião?

Fui. Fui.
E como foi isso?
Olha, nessa altura, o sindicato já havia sido invadido. E o ponto de encontro nosso... Porque se você vai fazer uma greve, você tem que ter um ponto de encontro, para se reunir, para planejar o dia seguinte. Mas que falou que dava... Me diz, o sindicato foi invadido, toda aquela perseguição... O nosso ponto de encontro era a Igreja Santo Antonio, que hoje é a Catedral. Então já estava combinado... no dia 17... Amanha, dia 18 a tal hora a gente vai se reunir na Igreja Catedral, vamos lá, porque lá a policia não entra, na minha cabeça... Eu tinha certeza absoluta disso... Ai no dia 18, quando eu cheguei lá, as sete horas da manhã para reunir com o pessoal lá na Catedral, já estava cheio de policia lá dentro... E na medida que eu entrei, já tinha uma salinha lá... uma salinha na saída da Igreja, já tinha uns 50 ali presos... Eu entrei na salinha, o policial com o Fuzil em direção aos caras... Quer dizer, ninguém me prendeu, eu fiquei preso por si só, sozinho...
E ai quando eu via aqueles policiais, com os fuzis dentro do Seminário, porque era um seminário ali, agora não é mais... Ai eu fale ‘O mundo está acabando!’. Porque eu estava pensando... E tinha uma idéia, tinha não, acho que eu tenho ainda... que com a Igreja ninguém mexia... Com a Igreja ninguém mexia, porque aquele era um lugar sagrado e entrar ali seria um pecado terrível. E ai que eu volto na “Disparada” [do Geraldo Vandré] e ‘as visões se clareando, até que um dia eu acordei’. Então nesse dia eu acordei, quando eu vi a policia dentro da Igreja. Acordei no sentido de que a luta de classe, principalmente porque era uma coisa muito sem entender... Para mim, comecei a entender que tem luta de classe, e que o capital é quem manda. Que a policia está a serviço do capital, das empresas, da Ditadura, e que eu era uma coisa a parte. Eu, os trabalhadores, eramos uma coisa a parte, que não tinha que se misturar. Então, ‘as visões foram se clareando’ a partir dos fatos.
Eles prenderam o senhor nessa sala, e depois?
Dali nós fomos para, trouxeram um ônibus, nos fomos para a delegacia de Osasco... Na delegacia de Osasco, acho que tinha lá, depois eu fiquei sabendo... Já tinha um oficial do exército que era agente da repressão... Já foi fazendo uma triagem para ver que ia para o DOPS, antigo DOPS. E ai, acho que desses 50, pelo menos uns 30 foi para o DOPS. Fomos para o DOPS. Fui para o DOPS.
O senhor ficou com medo?

Olha, um pouco.
Medo de desaparecer, porque se ia para o DOPS, nem todo mundo voltava...

Eu não sabia que desaparecia. Ainda não. Eu sabia que não era bom, mas que desaparecia não.

Curioso que nesse dia tinha nascido minha primeira filha... E na Delegacia de Osasco, dentro da Brás-eixo, trabalhava do meu lado um padre francês, chamado Pierre  Wauthier, isso ai vale registrar também, eles eram padre trabalhadores nas fábricas das comunidades aqui da Vila Yolanda... Ele estava na delegacia de Osasco preso também... Ai ele disse: ‘Sua filia deve se chamar Liberdade’, ela havia nascido no dia anterior, e eu não tinha nem visto ainda... acabou ficando Denise Liberdade...

Dali fomos para o DOPS, no meu caso, eu fiquei três dias... Outros ficaram mais, outros ficaram menos... É curioso notar também, que na sela, com as 8 pessoas, tinha três padres, que vieram em apoio. Não, o Pierre era trabalhador mesmo, os outros vieram do interior de São Paulo, os outros dois, em apoio a nós aqui em Osasco... Um era o Soares, só lembro do primeiro nome... O outro era... um que depois... também não lembro o nome dele agora... depois ele criou um centro de saúde... Sei que um era lá do lado de Lins, e outro era de Bauru.

E nessa ocasião, o senhor foi torturado?
Fui ameaçado, mas de alguém me bater não. Três dias, teve interrogatório, um tempo durante os três dias, interrogatório, aquelas ameaças, e tudo mais... Mas dizer que alguém, fisicamente... Porque a tortura, ela tem uma definição um pouco mais ampla. Porque na medida em que você é fechado na gaiola ali, dormindo na beliche junto com outro...
Depois teve um processo... em cima de quarenta pessoas (40), que a gente respondeu na Auditoria de Guerra, por conta da greve, Lei de Segurança Nacional. Então teve um processo, ninguém foi condenado. No meu caso, eu fui colocado como absolvido. Depois eu tive outro processo também, mas nessa luta eu fui considerado perdoado, mas isso porque... ai já era um desdobramento, não tinha mais haver com a greve, não necessariamente.

O senhor foi preso primeiro em 1968, e quando novamente?

Depois em 1971, duas vezes.

E teve muitas demissões depois dessa greve de 1968?

Do sindicato foram todos. Todos demitidos. E sem direitos. Eu tinha oito (8) anos de empresa... Ganhava bem. No dia, o engenheiro chefe do meu setor de ferramentaria, de afição de ferramenta, o engenheiro... Carlos Martins... engenheiro... Ele chegou em mim e disse: “O Joaquim Miranda, tem uma proposta para fazer para você...”.
Eu falei: ‘Legal, oquê que é?’.
“Você vai para os EUA, fica três meses, tem uma ajuda de custo... E quando você voltar vai ser chefe de um setor”.
‘Boa proposta, legal’. Mas ai ele disse em seguida:
‘Só que tem uma condição, você tem que largar o sindicato’. Ai eu falei:
“Me dá três dias para pensar”.
Depois de três dias, eu conversei com a minha mulher, acho que pensei bastante. Depois de três dias, isso antes da greve [de 1968], ele veio lá para mim e falou:
‘Decidiu?’ Eu falei:
‘Decidi!’. ‘O que?’
‘Vou ficar com o sindicato’.

E ai que o senhor foi demitido depois da greve da Cobrasma/Bras-eixo, o senhor foi trabalhar onde?
Depois, como tinha na época, organizado pela repressão, uma lista negra que funcionava muito bem. Com a participação que tive ali, fiquei marcado mesmo. Ai pensei, ‘eu vou para o ABC, trabalhar no ABC’. Quando eu ia para Santos, de vez enquando, passava do lado da Volkswagen ali na Anchieta, olhava aquela firma com aqueles tijolos aparentes, do lado de fora... Falei: ‘Que lugar bonito! Um dia ainda vou trabalhar aqui na Volkswagen!’. Mas eu acabei indo trabalhar na Ford Willis, que antes era só Willis, depois a Ford comprou e ficou Ford-Willis. Então, uns três meses depois da greve [da Cobrasma/Brás-eixo], no caso já no fim do ano, eu consegui entrar na Ford Willis, no final de 1968, lá no ABC. Então fui lá, de lá, eu já tinha feito teste na Volks, que era o meu sonho trabalhar no Volks. A Volks me chamou, pagava mais. E eu fui para a Volks... Fiquei na Volks seis meses. Depois descobriram na Volks que a gente era subversivo, e depois de seis meses mandaram embora.

O senhor estava ligado a alguma corrente política?
Eu tinha muitos contatos nessa época já... Com a AP... Morei com gente da AP, tinha o pessoal do POC... de outras tendências... Lia os materiais deles... Era cansativo, mas eu lia...Era um que a revolução ia se dar pelo campo, outro falava que era pela cidade... Outro falava que era cidade e campo... Um da linha Maoista, outro da linha leninista. Eu lia, era cansativo mais eu lia. Eu achava meio baboseira, um pouco... todas aquelas teses, mas eu lia sim...

Então o senhor acabou na entrando em nenhuma corrente?
Tive uma aproximação muito forte, no processo que teve contra mim, foi dito que eu estava ligado ao POC – Partido Operário Comunista. Mas eu não me sentia, sentia muito próximo, muito amigo.

Tinha quantos militantes do POC em Osasco?
A gente tinha nome de guerra. E nem tinha uma lista... Mas que eu saiba, no dia de hoje, tipo uns quatro (4). Era clandestino tinha nome de guerra e ninguém ia chegar para você e dizer assim ‘Olha eu sou do POC’.

Interessante notar também que na Volks a gente começou, lá... na Volks, porque passado a gente já tinha.. Acabava a gente fazendo uma corrente com outras pessoas.. Eu acabei me entendendo lá com um que foi até meu compadre, da AP. Ai um dia nós dissemos, ‘Vamos fazer um jornal aqui?’. Uma folha de sulfite, mimeografo a álcool... A minha mulher, com um mimeografo a álcool, ela que fazia a redação e impressão, e a gente fazia o conteúdo...
Dentro da Volks tinha quase que um quartel...

No ABC, a gente, quando foi para lá, era uma idéia mais ou menos fixa, de que as comissões de fábrica seriam a melhor forma de atuação... Lá no ABC a gente chegou... Era uma palavra de ordem que ninguém contestava né... Lá no ABC quando a gente foi para lá, eu e outros que já existiam por lá, começamos aos domingos a gente se reunia pelas quebradas, um daqui outro dali, dez, doze pessoas. Na casa de um, de outro, meio escondido para tentar organizar as comissões de fábrica lá.
E havia, quando teve a greve que o Lula assumiu a liderança lá, pequenos núcleos de comissões de fábrica. Não reconhecidos pela empresa como era o caso da Cobrasma, porque aqui [Na Cobrasma], era uma comissão reconhecida, aberta. Lá [no ABC] eram comissões clandestinas. Então quando teve as greves [1978, 1979 e 1980] já existiam pequenas chamas de organização operária dentro das empresas: Mercedez, Ford, Volks, Scania. Era uma palavra de ordem né...

E o senhor foi preso duas vezes em 1971, por que?
Em 1971 duas vezes. Porque eu estava... Nessa época eu estava trabalhando na Mercedez... Depois da Volks, eu fiquei um tempão desempregado, uns seis meses. Minha coisa era a indústria automobilística. Entrei na Mercedez depois de muitas tentativas, afiador de ferramenta. Um dia, quatro e meia da tarde, chegou um cara com uma capa, na máquina que eu trabalhava na seção... quatro e meia era o horário que eu entrava para trabalhar, chegou um cara lá, com a capa, apontador de produção: ‘É para você ir na seção pessoal assinar um documento’. Eu falei: ‘É fria!’. Meu faro estava até bom, ‘É fria!’, fria quer dizer ‘é repressão’. Era o DOI-COD que estava lá me esperando. Porque eu encontrei uma vez, lá perto da Mercedez, um sujeito da Ala vermelha, o grupo ala Vermelha, que tinha sido preso, muito torturado e ele falou de mim. Ele não sabia meu nome, mas acho que por foto alguma coisa, e deduziram que eu, ou o ‘Zé Maria’, que era meu nome de guerra, trabalhava na Mercedez. E lá eles me acharam, me levaram, troquei o macacão... e me levaram para o DOI-CODI, naquelas peruas veraneio, cheio de metralhadoras, com quatro pessoas. O DOI-CODI era um inferno. Porque ali a pessoa passava coisas que, muitas vezes a morte imediata seria melhor do que o sofrimento lá dentro.
Ai primeiro foi o interrogatório, tipo as oito horas da noite, estava em uma salinha, querendo saber disso, daquilo, daquilo outro. ‘Conhece fulano?, conheci fulano?’. ‘Não, não conheço’. Eu segurando, segurando. Ai nesse dia ficou nisso. No outro dia, pau-de-arara, choque elétrico... E eles queriam que eu falasse, tinha um rapaz, que tinha o nome de guerra de Gustavo, esse era o centro do interrogatório, eles queriam outras coisas, mas esse era o centro. Gustavo. Porque a função da repressão era justamente desmantelar, se a pessoa era comunista era até secundário, o que eles queriam era desmantelar os grupos organizados que ainda existia, porque nessa época [1971] já estava tudo sendo esfacelado pela repressão.

Gustavo. Esse Gustavo, nada mais nada menos, era um sujeito do POC, isso eu sabia. Ele virou ministro dos direitos humanos no governo Lula. Hoje, se eu não me engano, ele comanda esse Instituto que tem aqui no Perdizes, o Lula está sempre lá.. Gustavo, é
Nilmar Miranda é o nome dele. Esse sujeito é legal, ele prestou ainda um grande... Sobre anistia, comissão de anistia... ele escreveu livros, tem dossiê de quem morreu, porque morreu, onde morreu, ele que organizou tudo isso ai, ele com mais gente, mas ele encabeçou.

 E teve a tortura psicológica que é feroz, eu ainda passo muito mal na maioria dos dias... hoje até que eu estou legal. Porque eu peguei uma depressão do cacete, já passei por um monte de médicos, de remédio... e não digo que seja cem por cento oriundo disso, mas, uma parte é. Eu tinha uma propensão para isso e aquilo ali desencadeou. Por causa [da tortura], porque o sofrimento, que é assim, está em um lugar, você dorme lá em um colchonete, em uma cela... Mas você sabe que a meia noite, as duas horas da manhã ou cinco horas da manhã, qualquer hora alguém chega lá: ‘Zé Maria!’. O carcereiro chama, para interrogar, e com isso, você sabe que vai para um interrogatório e quando você sabe que para o interrogatório, sabe que ali o bicho pega.
E porque a qualquer hora da noite? Porque o DOI-CODI tinha diversas equipes, três ou quatro equipes com quinze pessoas cada uma. Tinha de interrogatório, tinha de busca, equipe de analise de documento, médico, psicólogo, eu cheguei a conhecer um, enfermeiro. Quando eu estava no pau-de-arara, uma vez, pendurado assim, um dos torturadores perguntou para um japonesinho que estava como enfermeiro, com um auscultador de coração - estetoscópio, aquele aparelhinho de auscultar o coração. Ele pediu para o cara auscultar meu coração, ai o japonês falou: ‘Vai mais devagar’. Quer dizer, estava meio que no limite o coração. Então, tinha o psicólogo, eles falava: ‘desenha uma árvore ai’. E a partir disso eles tentavam deduzir, achar o ponto fraco... quando você quer vencer uma luta, hoje eu sei, se você é meu inimigo, eu tenho que, de preferência, achar seu o ponto fraco, porque o ponto  fraco é seu relacionamento com sua namorada, com seu pai, com sua mãe... Se é com sua mãe... Tinha que catar sua mãe, e fazer alguma coisa com a sua mãe. Achar o ponto fraco de cada um, e cada um tem o seu. E eles tinham técnicas para isso. E ai pegava pelo ponto fraco.

Bom, eu falei de pessoas que já estavam no exterior... Por que ali, de cada pessoa que cai ali, dá para dizer que... de quinhentos pode ter um ou dois que resiste, o resto não resiste... depois de um tempo. Ninguém foi preso por causa de mim. Ninguém! E eu conhecia bem uns quarenta... Também é uma coisa que eu me orgulho, mas depois tem as conseqüências. Numa guerra, a gente pode dizer que estávamos em uma guerra nessa época, e numa guerra ninguém trás doce de coco... É como se tivesse racionalizando e dizendo “Isso faz parte”. Para racionalizar é fácil, mas sentir... ai é outra estória.
E tinha uma coisa interessante que passava pela minha cabeça também que é legal, até meio folclórico, quando eu morava no interior, uma pessoa super tímida, e o nosso ponto de encontro, dos mais velhos, era tomar uma cachaça na venda, jogar um baralhinho, os mais novos jogar bola. Uma vez inventaram lá, em um domingo a tarde, de fazer um pequeno rodeio lá perto da venda, onde eu nasci lá, bairro dos Mirandas. Um pequeno rodeio, ai foi lá, molecada, menino, mocinha, na mangueira tinha uns bezerros de um homem, ele cedeu os bezerros para quem quisesse montar nos bezerros. Os bezerros todos na mangueira ali, e quem falou que tinha alguém para montar nos bezerros, ninguém... Na saída era aquele entusiasmo, mas depois na hora de montar, ninguém, tomo mundo assim... E não é que me deu a loca de montar no bezerro... Eu era uma pessoa tímida, fui montar no bezerro, montei... Ele deu umas três voltas na mangueira saltando, pulando e eu não cai. Disso eu conclui que ser preso, depois quando eu já estava mais nessa vida, ser preso era a mesma coisa de montar em um bezerro. Depois fiquei com uma coragem do cão! Eu pensei, ah, ser preso é a mesma coisa de montar em um bezerro. No primeiro você vai ter medo, mas depois, na segunda vez você não tem mais medo. Mas não é nada disso! É o inverso. É uma relação inversa. Ser preso, você vai uma vez nessa circunstância, você pode não estar com muito medo. Mas depois que você vai na segunda você fica com muito mais medo. É a relação inversa do bezerro com essa questão do DOI-COD.
Ai, depois de uns dez dias me soltaram. [Tortura todos os dias?] Todo o dia eu não digo, mas aquela tortura psicológica, de escutar grito de gente. Foi batida na sola dos pés, pau-de-arara e choque elétrico.

E você voltou a trabalhar na Mercedez depois dessa prisão?
Não. Fui demitido. Ai eu entrei na caixa, falei ‘agora não arrumo emprego de jeito nenhum’. A caixa seria um seguro do INSS, um seguro doença. Consegui entrar com o seguro doença. O médico da Mercedez me deu um laudo, quando ele soube que eu fui preso, ele, humanamente, quando eu fui pedir o laudo de doença, ele me deu o laudo. Eu não estava doente. Ai fiquei na caixa, acho que uns três meses, lá em São Bernardo. Um dia estava lá para ver um documento no INSS, cheguei no balcão, me apresentei e disse que queria saber disso, disso e disso. A moça pegou aquilo ali e foi lá para dentro de uma sala e não voltava mais, demorou uma meia hora e não voltava mais, falei ‘É fria! A repressão sabe que eu estou na caixa, até porque o médico da Mercedez deu o laudo, e estão me procurando de novo’. Nessa época eu estava escondido na Barra do Piraiba, vim de lá para cá para ver isso. Eu, minha mulher e três crianças pequenas. Ai a moça não voltava, eu pense: ‘Tem coisa ai!’. A repressão sabe que eu estou aqui, estão esperando eles chegarem para me pegar aqui. Quando sai na Marechal Deodoro, na porta os caras me cataram, não deu outra, o DOI-CODI. Ai é porque outras pessoas caem, falam da gente, cai quer dizer, é preso. Essa terceira vez também foi feroz, terceira contando com a do DOPS. Dois meses depois da ultima prisão. Ai foi feroz, aquela coisa de sempre, eles queriam saber de outras pessoas, que hoje eu nem me lembro. Com agravante que eu estava escondido na casa de uns amigos do POC lá em Barra do Piraiba, e ai? Numa dessas? Onde você está? Se dissesse eles iam levar os cara para lá e desencadeava... Nossa... Inferno.
Para não ficar tudo luto, ou tudo feio, um dia eu estava lá, essa Barra do Piraiba era uma fazenda, e tinha um hospital psiquiátrico lá. Esse amigo meu levou para lá, ele tinha contato com a dona da fazenda, arrumou uma casa lá, deicharam comida, tudo para mim, foi eu e minha mulher. Pegamos o trem aqui na Estação da Luz e foi para lá. Tinha uma senha, a pessoa que ia te receber a gente, as três horas da manha lá na Barra do Piraiba na estação tinha uma senha. Falava a senha para a pessoa poder dizer ‘então vamos lá’. Mas o que eu ia dizer era outra coisa: Estava lá num domingo de manhã, tinha uma espécie de um lago, andando atôa, depois que eu já estava, digamos, hospedado. Andando atôa, dali a pouco veio um cara bem vestido, um jovem ainda, começo a conversar, uma conversa bem legal, no fim ele falou assim para mim; ‘Sabe que eu sou?’ Falei: ‘Não.’. ‘Sou Dom Pedro Segundo”. Ai que eu me toquei, ‘aqui é hospital de doido’. E outra, nesse mesmo dia, nessa mesma hora, no campo de futebol, desses não-oficial, uma quinze pessoas jogando bola, com a bola lá. De repente todo mundo ia para o mesmo lado, chutando para o mesmo lado. Falei: que futebol do caraio...
Na terceira prisão o senhor ficou quantos dias no DOI-CODI?
Dez dias novamente. Ai, digamos, eu fui beneficiado novamente por esse padre Rafael. Isso não acontecia. Ele conhecia o coronel Ipiranga, através da Igreja. A essa altura esse tal coronel era chefe da repressão. Acho que estava no Rio de Janeiro. Ai minha família veio falar com o padre Rafael. Normalmente eles não atendia, mesmo filho de milico, de alta patente, não tinha perdão não. Ai vieram falar, depois de uns cinco dias que eu estava lá a tortura parou, o interrogatório parou, ai eu falei: ‘opa, o que houve?’, pensei comigo. Ai depois que eu sai eu fiz uma ligação... depois que vieram aqui o homem deve ter telefonado para o coronel, o coronel deve ter mandado alguma coisa, não sei se ordem, não chego a dizer, ‘baixa a bola ai’. Depois de dez dias eu fui solto novamente, ai um processo na auditoria militar. Ai eu estava incluído como militante do POC, eu e mais sessenta e cinco pessoas na auditoria militar na brigadeiro. No dia do julgamento tinha uns que estavam presos e outros que estavam respondendo em liberdade. Dois fatos curiosos desse dia do julgamento: o juiz auditor, porque lá era tudo major, tenente, o juiz auditor era civil mas da mesma panela. Eu fui na salinha do café, não é que o juiz auditor veio e falou para mim: ‘oh Zé Maria, seu filho da puta, você foi absolvido’, isso na saída, quando eles decidiram a sentença de cada um na salinha escondida deles lá, ele disse: ‘você foi absolvido, mas se você voltar aqui, ai não tem perdão, eles te matam mesmo’. Ai eu voltei para a sala onde estava todo o povo esperando a sentença, todo aquele clima, falei: ‘eu fui absolvido’, ‘Como? Como é que você sabe?’...

Nessa época eu estava trabalhando em São José dos Campos em uma escola, através de conhecidos de esquerda entrei em uma escola técnica lá. Eu estava ativo dentro da escola, conversando, fizemos até uma greve lá na escola e deu resultado. Instrutor de aluno, eu era instrutor de aluno de mecânica, nós achamos que o salário estava pouco e vamos parar, paramos umas duas horas ai veio o aumento.
Desse julgamento, como eu falei, teve dois casos interessantes, o advogado defensor desse pessoal do POC, da maioria deles, ou quase noventa por cento, era o José Carlos Dias, que foi Ministro da Justiça no governo Fernando Henrique. Ele ia lendo os nomes, um por um e dizendo... fulano, fulano, cicrano, não pode ou não deve ser condenado porque assim, assim, aquela defesa, fazendo a defesa. Ai chegou, o José Carlos Dias lá, agora tem o Luiz Eduardo Merlino... “Ele não está aqui’, o José Carlos Dias dizendo para o juiz, ele não está aqui, não porque perdeu o trem, ou taxi, ou avião ou navio, não está aqui porque vocês mataram... Até deu um calafrio, e dá até agora. Olha que coisa.

O Merlino estava militando em São Paulo?
Estava. A gente se encontrava lá no ABC, no Rudi Ramos. E ele foi para a França para fazer contato com a linha trotskista, era da linha trotskista o POC, ai acho que foi fazer contato político. Quando voltou cataram ele. Eu participei de reunião com ele lá no Rudi Ramos, ele com quarenta graus de febre, isso eu vi...

Ai nesse processo eu fui absolvido. Absolvido não, perdoado. Depois disso a repressão já foi chegando... ao final da ditadura... Não teve mais nada...

E o senhor foi trabalhar aonde depois disso?
Da escola, de São José dos Campos, a minha mulher morava aqui [em Osasco] eu vinha só de fim de semana. E eu já entrei em depressão quando estava na escola, fudida, passei mal um dia, desmaiei lá na rua... Estava mal, mal, fiquei seis meses na caixa novamente. Ai vim embora para cá [Osasco], ai entrei na Ferbate. Fiquei 89 dias na Ferbate. Tinha um alemão doido lá que gritava com todo mundo, mas gritava mesmo... A fábrica tinha umas duzentas, trezentas pessoas. Injetoras de plástico. O alemão devia ser daqueles neurótico da guerra lá do Hitler, gritava... e eu trabalhava como uma espécie de Office-boy dele, na mesma sala, que desgraça.Um dia ele gritou comigo, ele estava sentado ai, eu fiquei de pé assim e falei: “você não grita mais comigo não!”. Nunca mais ele gritou, no outro dia ele me mandou embora.
Dali, o ultimo até hoje, acho que é o fim da linha. Fiquei desempregado, passando na Autonomistas, em frente a Liquigás lá, precisa-se de mecânico de manutenção, falei: ‘Vamos lá!’. Isso em 1974.
A Liquigás dava dinheiro para a Ditadura?
Da Liquigás não. Da Ultragaz dava. Tinha um diretor da Ultragaz, Boilesen é um holandês se não me engano. Ele era diretor da Ultragaz, ele ia no DOI-CODI para assistir as seções de tortura, diziam que ele babava [durante as seções de tortura], tem até um filme, Cidadão Boilesen, não assisti, não sei como é. E a Ultragaz dava dinheiro, caminhões... E esse Boilesen, um dia, não sei qual grupo, não sei se a ALN, qual, que fez dele uma penerinha, por perto do parque Trianon na Paulista, fuzilaram. [os grupos foram ALN e MRT]. A Ultragaz, a White Martins dava dinheiro. Diversas empresas.

O senhor se lembra das greves do ABC?
Lembro.  Eu fui em uma das manifestações do Vila Euclides. Em uma delas. Fizemos campanha de arrecadação de alimentos por aqui com a combi saímos pelas ruas.

O Senhor lembra das campanhas pelas Diretas já?
Lembro. Estive lá, em um das principais lá, acho que foi em cima ali do Viadulto do Chá. Aquela estava bonita. E maior que a das Diretas foi quando o Lula foi candidato, saiu uma passeata da Praça da Sé foi até a Paulista. Aquela multidão... Nunca vi coisa daquele jeito, nunca vi e acho que não vou ver mais não, ninguém vai ver. Aquela multidão de gente animada... Tinha um jornalista Português que estava em um carro de som, pegando carona, disse: ‘Eu nunca vi isso aqui no mundo. Já andei o mundo inteiro e nunca vi igual’. Realmente, era para admirar! Aquela multidão de gente, digamos, sabendo o que quer, animada. Era muito bom! Foi muito bom.

O que o senhor acha da Comissão da Verdade?
E acho que a comissão da verdade é legal, mas acho que ela tem um limite restrito. De condições de trabalho. Porque ai é correlação de forças né. Não tem aqui no Brasil um... Porque aqui, acho que foram presos aproximadamente umas 50 mil pessoas, eu ouvi falar, no Brasil. Mortes, eu acho que não passou de 5 mil. Enquanto que na Argentina foram 30 mil mortos. Então a correlação de forças, do ponto de vista da repercussão, na Argentina é mais favorável para fazer... igual está acontecendo lá, com os generais sendo presos e tudo mais. Aqui não vai acontecer isso não.

E porque o senhor acha que não vai acontecer isso no Brasil?
Por causa disso, porque lá a contundência da ditadura foi muito maior, morreu muita gente, 30 mil. Você imagina em um país não muito grande como a Argentina, 30 mil, sempre tem um parente daqui, um amigo de lá ou daqui. Aqui, você pega essa idéia, não sei quantos são, mas acho que não passa de 5 mil, em um país desse tamanho... Então não tem uma massa de pessoas ligadas a essas pessoas que morreram, capaz de mandar um general para a cadeia.

Na época o senhor foi favorável a anistia ampla, geral e irrestrita?
Sim. Essa irrestrita eu não tinha capacidade de avaliação da palavra irrestrita, não tinha.

Não ficava claro que os torturadores seriam anistiados?
Não ficava claro! De jeito nenhum!

Se o senhor soubesse, na época, teria sido contra?
Teria proposto uma emenda.
Mas mesmo que tivesse essa emenda, eles estariam soltos. Só um movimento de massas fortíssimo, como as mães de maio e outros, é capaz de mandar general para a cadeia.

E como o senhor vê o  movimento sindical hoje?
Ruim. Ruim porque tem muita corrupção, muito peleguismo, acomodamento e incompetência. Quatro elementos. E outra coisa, não pela vontade das pessoas, mas pela conjuntura política e econômica. Por exemplo, serviços terceirizados desmontou em grande parte o movimento sindical. Nossa categoria tinha três vezes a quantidade de trabalhadores que tem hoje.  A maioria é terceirizado. E isso, para o sindicato, é um prejuízo, porque você vai fazer uma greve onde tem 50 pessoas... Então, tem coisas... O movimento sindical não está bem, apesar de ter americano vindo aqui e querendo copia o sindicato...
Como eu disse, a conjuntura econômica-política no Brasil, e no mundo, no que diz respeito a terceirização, essa tal de precarização... É desfavorável para o sindicalismo. E uma mística que tinha em 1968, que vinha até da Europa, repercutia aqui... Da Espanha. Essa mística, essa coisa, ela está meio que apagada né, o partido comunista acabou praticamente, as correntes, tudo. Então isso tudo influi.



Deixa eu contar uma coisa que eu acho legal. Um dia seu estava lá no DOI-CODI, devia ser na terceira vez. Ah, uma tarde assim, um dia como hoje, nebuloso e de tristeza, meio que de sonho... E lá no DOI-CODI era assim: Tinha dez celas de um lado, aqui no meio tinha um muro, uma distancia de aproximadamente trinta metros separando uma da outra, uma de lá e uma de cá, e o muro aqui [desenha sobre a mesa]... Esse muro não era tão alto, se a gente ficasse na porta da cela assim, dava para olhar parte das outras celas de lá. E um dia deu na cabeça rapaz, naquela, digamos, meio que tristeza... comecei a cantar o Tema de Lara em inglês rapaz... (http://www.youtube.com/watch?v=YrRMQsnSvAE). Eu sabia, eu tinha estudado um pouquinho de inglês, e eu gosto do Tema de Lara e do Dr Jivago, apesar de tudo eu gosto. Comecei cantar... Dali a pouco sobre do lado de lá uma cabeça, dali a pouco outra, parecia um teatro, dali a pouco outra... Uns dez olhando para o lado de cá, quem estava cantando... Ai terminou a música, e do lado de lá ‘Canta mais, canta mais’. Eu não cantava mal também não. Foi bem legal. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Entrevista 7- Antonio Vieira de Barros - Greve na Cobrasma 1968

Elaboração, coleta e transcrição da entrevista: Alessandro de Moura.
[Falta revisão]



Antonio Vieira de Barros [Toninho três-oitavos], nasceu em Alagoas, na cidade de São Miguel dos Campos, em 1942. Migrou para São Paulo em 1959, com 17 anos. Seu primeiro emprego foi na Sambra/Jaguaré, onde era fabricado olé de soja, margarina, etc. Nesse período começa a militar na JOC – Juventude operária católica, espaço onde começa sua formação política. Na Sambra já se envolve na direção em uma greve em 1960.  Buscam divulgar essa greve para operário de outras fábricas Anaconda, S/A Vito, Tupi (fábrica de enxadas), etc. Na frente da S/A Vito foram cercados e presos pela Guarda Civil. Ficaram detidos uma noite e um dia presos sem comer, ‘Trabalhador não valia nada na época. A partir dessa experiência, Antonio refletia: ´Por que trabalhador é tão agredido, faz uma greve por melhores salários e vem tropas e mais tropas cercar, bater, prender, matar?’. No entanto, essa indagação não o paralisava, por onde passava Antonio continuava na luta por via do movimento operário, o que lhe levaria a outras prisões. Poucos meses depois, trabalhando em outra fábrica na Lapa, voltou a fazer greve, foi novamente reprimido e preso “O DOPS pegou a gente, bateu muito. Eu fiquei em um bar, fazendo que estava tomando um café, eles chegaram, o que você está fazendo aqui? Estou tomando café [respondeu]. Não está trabalhando? Não, estou esperando, para ver se a turma deixa a gente entrar... Ai já me deram uma bordoadas lá... Já me mandaram para o camburão deles. Me prenderam...”
Neste período, estava em curso um ascenso das lutas operárias no inicio da década de 1960, o envolvimento na direção das greves levava a demissões sumárias, por isso os operários ativistas era obrigados a mudar de emprego recorrentemente. Para conter as greves na região de Osasco, mesmo antes do golpe, Osasco já estava militarizada. A cavalaria estava patrulhando as ruas da cidade. ‘Osasco sempre foi um barril de pólvora’. Antonio, que profissionalizado como mecânico de manutenção, trabalhou em 33 empresas com registro e em mais 15 na informalidade. Ingressou na Cobrasma em 1961, desligou-se dessa antes do golpe militar de 1964, ficou um breve período na MAFESA, no entanto, foi admitido na Bras-eixo que funcionava dentro do pátio da Cobrasma. Praticamente não havia separação entre o operariado da Cobrasma e da Bras-eixo, o restaurante era um dos espaços em que os operários de ambas as fábricas almoçavam juntos. Isso permitia a integração dos operários das duas fábricas. Em 1964 ingressou a AP – Ação Popular.
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Quando a gente estava fazendo a greve da sambra [em 1961] a cavalaria estava aqui, rodando a rua da estação, o largo de Osasco... Osasco sempre foi um barril de pólvora, porque tinha a Cobrasma e tinha umas empresas importantes aqui. Então juntou um monte de trabalhadores que tinha uma certa consciência... Por causa disso isso aqui foi um barril de pólvora sempre. Só para você ter uma idéia, eu trabalhava na Brawn Boveri, eu saia da Brawn Boveri, saia não, eu deixava de entrar cedo na Brawn Boveri para ir fazer panfletagem na Leopoldina, Jaguaré, Lapa, essa região ai das grandes metalúrgicas, quem cobria era o pessoal de Osasco, os companheiros de Osasco. Nos juntávamos a companheirada de Osasco e vamos panfletar, vamos fazer piquete. Trabalhadores de varias correntes, tinha gente cristã, gente comunista, de outras organizações... E Osasco sempre deu essa contribuição para o movimento operário nas conquistas... na época eram mais conquistas salariais...
Comissões de fábrica antes do golpe militar
Existia na Cobrasma, já tinha comissão na Cobrasma. Lá tinha o... a pessoa mais esclarecida, mais importante na comissão era o João Candido, depois tinha o Din, o Groff que já morreu, tinha o Pedro Tintino, tinha o Ibrain, e outros...
Greve de 1968 na Cobrasma
Começou a organização pelo simples fato de que a empresa dizia que não dava aumento de salário porque o governo não permitia, o governo militar. (...). Então de inicio era assim, a gente queria aumento, a empresa alegava através da comissão, a comissão que fazia este trabalho, através da comissão que realmente não podia dar aumento porque o governo não permitia. E na época o governo não permitia dar aumento salarial. E a empresa até fazia um pouco de chacota, dizia: ‘Olha, se o governo quiser eu dou aumento, mas o governo não permite, porque se eu der aumento eu vou ser punido’. Eles falava assim para o pessoal da comissão. Ai foi quando começou a se organizar o pessoal dentro da Cobrasma. Porque o governo não permitia dar aumento. A empresa podia dar aumento, não dava porque o governo não permitia. Ai foi se preparando para poder fazer um enfretamento mais severo. O governo era o alvo principal. Essa greve não foi contra a Cobrasma, a gente fez a greve contra o governo, por causa das questões políticas e as questões econômicas, a greve de 1968. Antes disso... na Cobrasma já tinha gente que tinha feito outras greves, mas a mais importante foi essa, a de 1968. A gente quase todo ano fazia greve, de dois dias, três dias, um dia. A gente fazia. Mas a mais importante foi a de 1968, porque ai mexeu com todo mundo dentro da empresa, e outras empresas.
Ai quando a chapa do Ibraim ganhou a chapa do sindicato dos metalúrgicos, que estava nas mãos da chamada ‘pelegada’, a ‘pelegada’ perdeu as eleições para o Ibraim. (...) Ai o Ibraim ganhou essa eleição, o sindicato, fortaleceu o movimento sindical aqui em Osasco. Na formação da chapa do sindicato tinha dois grupos importantes que montaram essa chapa: um era a turma de esquerda ligada ao Ibraim, do partidão [PCB] e outras organizações [VPR...]. e tinha a Frente Nacional do Trabalho, que era um movimento mais cristão, comandado pelo doutor Mario Carvalho de Jesus, e o doutor Albertino também participava. Ai a chapa foi montada de acordo com as forças: a Frente Nacional do Trabalho e o grupo do Ibraim (que os estudantes participavam juntos), os estudantes estavam junto com o Ibraim, um bocado de estudantes... Ai montou-se essa chapa, colocou o João Joaquim, João Candido, Odin, e o Groff ficou fora porque ficou como presidente da comissão da Cobrasma. O Ibraim foi ser o presidente do sindicato e o Groff foi ser o presidente da comissão da Cobrasma.
Com o Ibraim chegado no sindicato começou a se fortalecer o movimento operário e a gente se engrossou e criou coragem para fazer uma greve, porque naquela época não se podia fazer greve. Não podia nem dar aumento quanto mais fazer uma greve. Ai foi, o grupo do Ibraim era mais novo, arrojado e queria as coisas muito correndo, e o grupo da Frente [nacional do Trabalho] era um pouco mais... sabia que não era brincadeira enfrentar a ditadura militar, então pausava as coisas, ‘vamos organizar melhor, vamos ver outras empresas’, e assim por diante. Mas o pessoal não tinha muita paciência, o grupo dos estudantes não tinha muita paciência, queria fazer as coisas logo. (...). Até que se tomou a decisão de sair a greve, e saiu a greve. Mas saiu porque... a Frente abriu mão de fazer a greve mesmo. Ai começaram a dizer que o pessoal [da Frente] não tinha coragem, não queria fazer, e era pelego, aquele negócio. Então a frente falou: ‘Então vamos fazer essa greve!`, mas o pessoal era mais maduro, sabia que era pauleira, não se ia fazer uma greve por fazer greve. Iria fazer uma greve e as conseqüências a gente não sabia o que iria acontecer. E a gente discutia na Frente: ‘vai sair, não vai, as conseqüências, ninguém sabe o que vai acontecer’. Porque era muita gente, e o pessoal com fome, o pessoal desempregado, era muito difícil a situação, e quem iria se responsabilizar? E o pessoal do Ibraim, como era um pessoal mais jovem, não tinha essa preocupação... Eu também não tinha tanta preocupação, mas o pessoal: Mario Carvalho, Albertino, Groff mesmo, o João Candido, eles tinham essa preocupação, de ver como um todo, a conseqüência que poderia acontecer, mas resolveram: então vamos fazer a greve?! Vamos!’. Eu também era meio jovem, eu queria fazer a greve também! Eu queria fazer a greve. Porque dentro da Cobrasma a gente tinha um grupo de jovens, onde tinha o Natanael, tinha o Luizão, tinha o davizinho, e tinha outros companheiros... O Natanael era da... do grupo da Dilma, da  VAR-Palmares, só que a Dilma era da parte mais intelectual e o Natanael era piaozão da fábrica...
Ai saiu a greve. No dia da greve, estava muito bem organizado lá dentro, todo mundo participando, ‘e vamos para as cabeças mesmo!’. A comissão tentando negociar, e a empresa queria dar um aumento, mas queria que a comissão fosse dentro do escritório deles. E o grupo não deixava, dizia: ‘Olha, se for lá, eles vão prender vocês lá forem lá. Então se quiser negociar, tem que vir aqui, no meio nosso. Tinha que vir aqui! No chão da fábrica. O Pedro Tintino dizia: ‘Se eles quiserem negociar tem que vir aqui no pé da cajarana’. Mas eles não vieram. Ai o tempo foi passando, começou a escurecer... Ai esse grupo de jovens ficou encarregado de dar segurança nas laterais da cerca da fábrica, para ninguém nem sair e nem entrar, uma comissão de segurança, tinha um aqui, outro lá, outro aqui, e cercando a fábrica, ai já tinha mais gente, um grupo grande de jovens, e a gente ficava ali. Daí a pouco, aparecia muita senhora chorando na beira da cerca, porque a televisão começou a dizer que as tropas estavam vindo para cá e ia ser um massacre... Ai as mães, as mulheres dos trabalhadores ficavam muito apavoradas e elas vinha chorando na beira da cerca... Ai a gente dizia: ‘Não, pode ficar sossegadas, está tudo sossegado’, ai elas voltavam um pouco mais confortáveis. E alguns que queriam sair nós não deixávamos também, porque tinha uns que queriam pular a cerca e ir embora, nós não deixávamos...
Quando foi uma certa hora a policia começou a chegar... Ai começou a cercar a empresa, e começou a aparecer muito policial lá na frente, fazendo formação... Ai o comandante queria negociar, a turma não obedecia muito ele... Ai o pessoal mais adulto, quando viu que a coisa estava meio pesada mesmo, eles saíram e foram se reunir lá dentro, em um escritório que tinha lá dentro. Ai que quem ficou mais lá foram os jovens, o Barreto, que era o mais aguerrido que tinha, o Zequinha Barreto, que era o mais aguerrido que tinha, e o Barreto dizia..., eles [os militares] diziam, falava macio, ‘Não companheirada, vamos sair, nos garantimos a saída de vocês, vocês vão para casa dormir, suas mulheres estão em casa querendo que vocês vão embora...’. O Barreto falava: ‘não, nos temos que resolver aqui! Daqui nós não vamos sair!’. Ai subiu no portão, e lá de cima ele gritava: ‘Companheirada [com o braço em riste], vamos resistir até o fim!’. E a gente estava ali. Até que os policiai começaram a andar de vagar, e foram chegando, encostaram no portão, já cortaram a corrente do portão [que havia sido trancado pelos operários], um guindaste estava na frente, só que o guindaste estava desligado e não tinha força [para barrar o portão], eles abriram o braço do guindaste, ai entrou a cavalaria. Ai nós saímos correndo lá para dentro da fábrica. Ai o Barreto gritava: ‘vamos botar fogo na fábrica, vamos botar fogo na fábrica!’. Mas não tinha... A fábrica, era uma fábrica que trabalhava com fogo, não tinha nem onde pegar fogo... alguns lugares pegava fogo.. era só ferro, a maioria da coisas não tinha como incendiar. Mais ai ele correu lá dentro, tentou botar fogo na bomba de gasolina, mas a bomba estava travada com cadeado, que o Groff tinha colocado, o Groff era do almoxarife, e ele já prevendo estas questões já travou a bomba com o cadeado. Se não fosse isso o Barreto tinha botado fogo mesmo, era uma forma de protesto! Teve gente que andou falando que o Barreto foi um bandido, falo ‘não, foi uma forma de protesto, tem que fazer mesmo!’. Ele não conseguiu. Dentro da Cobrasma tinha um cimento que fazia os moldes para fazer as peças (...), tinha um monte de saco de cimento, e não sei quem, botou fogo nos sacos de cimento, ai deu aquele fogo alto... Clareou tudo, dava a impressão que era a bomba que estava pegando fogo. E a turma se apavorou, tinha um pessoal perto, os engenheiros estavam escondidos em uma sala lá também, eles ficaram com muito medo, se a bomba explodisse... iria matar todo mundo ali.
Mas nisso, a maior parte correu para dentro da fábrica. No escuro, só que conhecia era quem trabalhava lá, tinha muito ferro, muito abismo, podia se machucar, cortaram a luz (...). Mas como eram muitos soldados, eles conseguiram fazer uma varredura completa dentro da fábrica. Eram muitos soldados, tinha uns túneis onde eu trabalhava, que era a forjaria da Bras-eixos, que era dentro da Cobrasma, era um túnel que dava mais ou menos uns duzentos metros... Aquilo ali encheu de gente. A policia fez o seguinte: chegou em uma ponta e jogou uma bomba, ai ficou esperando do outro lado. Saiu todo mundo do outro lado. Mas a maioria não prenderam não. A maioria eles deixaram ir embora...
Eles [os militares] entraram e começaram com a mesma conversa: ‘Companheiros, vão embora, suas mulheres estão precisando de vocês em casa. Nós lhes garantiremos a saída’. O interesse deles era que as liderança viessem junto, e eles pegassem as lideranças. Porque lá na frente estava a direção da empresa apontando quem é... A turma passava, todo mundo passava, mas as lideranças eles pegavam. Ai começou o pessoal sair... Isso foi na varredura... Começou o pessoal sair... E eles apontavam... Que nem, o Barreto já pulou o muro e foi embora, o Pedro Tintino foi embora, mas outros que nem o Groff...
E tinha subido lá na ponte, eu trabalhava com manutenção de ponte, fiquei lá de cima olhando, tudo escuro... Ai eu vi o João Candido saindo, e outras pessoas... saindo... Ai eu digo, então está bom...Checou lá na frente cataram o João Candido... Quando eu fui passando me cataram também...Eles me cataram... Depois, quando eles fizeram a varredura, eles cataram outras pessoas, quem nem o Nathael, o Luizão... o Luizão não, o Luizão fugiu... e outros companheiros que estavam escondidos eles pegaram...

Então ai, a direção da empresa, a gente não sabia né, mas era muito ligada ao DOPS, a segurança, a gente não sabia, a gente está sabendo agora como é que eles faziam.. Eles entregava ficha dos trabalhadores lá para o DOPS, dava o nome, a direção da fábrica. Na época do golpe mesmo, depois do golpe, eles forneciam... O Vidigal [proprietário da Cobrasma] era um dos colaboradores em dinheiro... Tinha um banco deles ai também que colaborava em dinheiro, e os outros... . Eles davam dinheiro para manter a repressão. Davam dinheiro para manter a repressão, e era dinheiro grosso. Aquele que foi morto em São Paulo, Henning Boilesen... aquele era um dos chefões também, e outros e outros, que a gente não sabia... Por exemplo, a metal-leve, a gente não sabia que dava dinheiro, mas era uma das colaboradoras em dinheiro, e outros grupos né, outros grupos faziam isso.

Então, depois dessa saída foram fazer a varredura, conseguiram pegar o resto do pessoal, o pessoal iam saindo e eles iam pegando o pessoal que interessava. A prenderam alguns companheiros... Ai eu fui preso, fiquei aqui na delegacia de Osasco, aqui em baixo (na seccional), e me trouxeram, me bateram muito, queria saber onde estava Barreto, o negócio deles era o Barreto, onde estava Barreto, e eu não sabia do Barreto, onde tinha ido ou deixado de ir... Por causa disso eu apanhei muito, me fizeram... até me queimaram... me queimaram com cigarro... pegaram no meu penis e enfiaram cigarro, tenho marca até hoje de queimadura... Mas depois eles me soltaram... porque eu não tinha como saber, eu não tinha... eu tinha ligação com o Barreto como companheiro, mas eu não participava do grupo dele, então não tinha o que dizer... Ai me soltaram, me soltaram... e mais uns três que estavam presos ai.

Ai nós voltamos... no outro dia recomeçou a luta. Porque nós estávamos pedindo, acho que era 15%, não me recordo muito bem, acho que era 15% que nós estávamos pedindo... O delegado do trabalho, que era o general [Moacyr] Gaya, ele veio aqui em Osasco. Todo o movimento se canalizou para o sindicato dos químicos no quilometro 18. Ele veio ai no sindicato dos químicos. Eles cercaram o 18 todinho... A policia cercou, civil, policia, cercou cada esquina, estava tudo cercado, então ele foi lá... Cercou o sindicato dos químicos, lá que foi a assembleia com o Gaya... isso no dia seguinte...

Foi nesse dia que a Brown Boveri desceu... Então teve a primeira reunião lá, junto com o delegado... mas a intenção dele era prender mais gente... no dia não tinha nenhum sindicalista lá, estava todo mundo foragido... Ai foi lá... quem defendeu a tese dos trabalhadores foi o doutor Albertino, o advogado... Ai o general dizia: ‘nós não podemos fazer isso porque é contra a lei, a lei não permite!’. Ai o doutor Albertino dizia “se a lei não serve para os trabalhadores que se mude a lei”. Por causa disso prenderam ele depois... Ai depois teve o julgamento na Delegacia Regional de São Paulo...

Os operários da Brown Boveri:

“desceram direto para o sindicato dos metalúrgicos, em Altino, como o sindicato estava vazio, ainda não tinha interventor... então eles desceram todo mundo para o sindicato dos metalúrgicos. E essa assembleia para discutir a questão salarial foi nos químicos. A dos químicos foi na parte da manhã, e nesse mesmo tempos, eles [da Brown Boveri] já estava descendo para o sindicato lá... Porque era uma coisa assim... não era organizado... Porque não tinha como se organizar não... vai para o sindicato dos químicos, e ia todo mundo para os químicos... Outros grupos desceram. O pessoal da Granada... também desceu para o sindicato dos metalúrgicos... E esse grupo aqui [no sindicato dos químicos] ficou mais o pessoal da Cobrasma...

Era muita gente andando... e era uma pertubação muito grande... Todo mundo com medo... todo mundo tinha medo de ser presos... na rua todo mundo... e era uma situação delicada... Só saia na rua pessoas que tinham uma certa coragem de sair… senão não saia... boa parte não saia, ficava em casa... foram pra casa e não voltaram mais... Mas ai fizemos isso, fomos lá... e o Doutor Albertino sustentando a questão da porcentagem dos trabalhadores... E eles dizendo que não podia, que a lei não permitia... E o Doutor Albertino dizendo que se a lei não serve tem que mudar a lei...Por disso custou prisão para ele também...

Ai teve a questão de leva para ser julgado lá na Delegacia Regional de São Paulo, isso ai quem cuidou disso foi a Federação... a Federação tinha o Ageu, era o Ageu que era presidente da Federação... O Ageu era presidente da Federação dos metalúrgicos do Estado de São Paulo... ele que foi defender lá na Delegacia regional do trabalho a questão do aumento que nós estávamos pedindo... a reivindicação nossa... tinha outras coisas... Porque a greve se deu assim... política e econômica, essas duas coisas juntas... Porque é lógico que a grande maioria, uma boa parte do pessoal, não entendia muito a questão política, mas a direção que estava cuidando, o pessoal mais interessado, sabia que tinha questão política... a questão da ditadura, da repressão aos trabalhadores, da não permissão para o aumento de salários... Então chegou lá também a mesma coisa... perdeu... A gente perdeu. Não deram nada... voltou...

Ai foi feita assim a limpeza [demissões em massa], desses dias para cá, da greve de 1968 para cá, limpou um pouco Osasco. O pessoal mais importante, a militância mais importante, saiu todo mundo, fugiu... Fugiu de Osasco... . O João Candido saiu... não voltou até hoje... foi para são José dos Campos... que era o mais importante que tinha ai... leva a discussão junto com a direção da Cobrasma... João Candido era muito macio... muito... tinha uma habilidade de colocar as coisas... e o pessoal gostava de conversar com ele. Inclusive ele ficou três dias preso... Parece que três dias, depois soltaram ele... O Groff ficou mais tempo... E o Pedro Tintino fugiu... não pegaram ele não... pegaram depois... naquele dia não pegaram...

A gente voltou sem resultado nenhum da delegacia do Trabalho, ai nós fomos também fazer também uma manifestação em frente da Brown Boveri, em frente a Brown Boveri, o grupo da Brown Boveri... Uma manifestação lá em frente, e fomos tocados de lá... porque era muito... muito perigoso...
No dia seguinte a maioria voltou a trabalhar... A gente ficou para fora... Ai depois eu consegui um atestado médico... eu não queria perder o emprego... eu consegui um atestado médico, levei e fiquei trabalhando... Mas como eu estava machucado, mas eu não disse que tinha sido tortura... eu disse que tinha sido alergia que eu tinha tido... ai deu aquela infecção... o médico me deu dois dias... ai fiquei assim... ai eles aceitaram o atestado que o médico me deu... um médico ligado ao partidão... me deu o atestado... Foi até o João Joaquim que me levou lá... Ai o médico me deu esse atestado, eu fui lá consegui voltar a trabalhar, mas foi pouco tempo, trabalhei mais um dois meses e ai me despediram, isso na Brás-eixo...


O pessoal da Barreto keller, da Granada desceram em passeata para o sindicato dos metalúrgicos... Porque o sindicato do Granada era o dos químicos, mas eles não foram para os químicos... [porque o dos quimicos estava sendo utilizado pelos operários da Cobrasma] eles foram para o metalúrgico... Tinha um pessoal bom dentro do Granada, um pessoal de esquerda, conseguiram fazer um trabalho lá e levou um pessoal...

Voltamos a trabalhar, aquilo... dentro da empresa, parecia que todo mundo era policial... Porque o pessoal ficou todo mundo assustado e tinha muita gente infiltrada dentro da empresa, disfarçado de operário... Como a gente conhecia a maioria, via os caras estranhos, já ficava... a gente dizia ‘olha, tem gente dentro da empresa, tem gente dentro da empresa’’. A gente estava conversando, vinha alguém a gente parava... Isso levou tempo, levou tempo depois dessa greve em Osasco, levou tempo para apagar um pouco... Dentro de ônibus ninguém falava. Porque ai o Quartel fez uma barreira ali em frente o Quartel também, todo mundo... O ônibus chegava lá, parava, eles tinham que entrar lá dentro, investigar, as vezes pegava os documentos de alguém... Carro tinha que passar, ligar a luz interna... que era para eles verem dentro do carro quem eram quem não era... quem estava... Então era um sistema de terror muito grande... Caçando gente de greve, e que eles precisavam, de organização... Porque ai começo a aparecer aqui em Osasco também, muitos estudantes, vinha gente de Minas Gerais, vinha gente de São Paulo, da Bahia, vinha gente do Rio de Janeiro... E eram muitas pessoas que vinham aqui... E tudo isso sendo vigiado aqui em Osasco... A segurança deles aqui em Osasco foi grande, levou um tempo para eles afrouxa um pouco... E nisso a gente ficou um tempo no cabresto ali, a gente ficou ali sem poder abri a boca ou fazer qualquer coisa, levou tempo...

Teve um episódio assim, o Robertão, o Roberto Unger foi ser o interventor no Sindicato dos metalúrgicos, e a gente tinha que tirar ele, porque sabia que o sindicato tinha que estar nas mãos dos trabalhadores, tinha que tirar ele. Nós montamos uma chapa... a gente não tinha... A gente chegava nas pessoas, dizia assim: ‘Você não quer participar da chapa do sindicato dos metalúrgicos?’ A pessoa sai acorrendo, ninguém queria nem saber. Nossa, ninguém queria... Então, para montar uma chapa, com vinte e poucas pessoas, era muito difícil. A gente conseguiu montar uma chapa, chegou, acho que a dezoito pessoas. Ai o cara que estava encabeçando já tinha sido presidente... O sujeito tinha sido presidente dos metalúrgicos, era o Henos Amorina... Ele entrou nessa chapa junto conosco... A gente convidou ele porque não tinha gente... E o pessoal mais habilitado para tocar o sindicato estava tudo sumido, não tinha... Então ele foi a única pessoa que a gente conseguiu, através da Frente Nacional do Trabalho [mas ele não era da Frente]. Ele não era de nada. O Henos não tinha uma posição política, dessas coisas não... O Henos aceitou participar da chapa, ai fomos conversar com o Robertão, ai o Robertão chegou e disse ‘Nem eu nem vocês tem condições de montar uma chapa sozinho, eu tenho um grupo de gente aqui, acho que vocês tem outro. Nós não temos condições de montar uma chapa sozinho. Então, eu tenho um pessoal aqui, nós juntamos monta uma chapa (...) eu dou a presidência para vocês, eu só quero ficar na direção, lá na rabeirinha... E que nem ele ficou, ele ficou lá na rabeirinha... Era interventor, mas ele continuou junto com nós, sem apitar... Ai o Henio ficou com a presidência, o Carlos Euber era vice presidente... O Manuel Hipolito que era da Frente ficou como secretário geral... Eu fiquei como membro da Federação, e ai montamos essa chapa... Ai entrou o cunhado do Ibrahim também junto com nós... A gente montou essa chapa com intuito de tirar ele... de anular ele, ele estava meio anulado, mas a gente começo... O Henos dava muito espaço para ele. Até que passou dois anos, nós fizemos outra diretoria... Até o Manuel Hipólito que foi junto conosco, que era da Frente como secretário geral, passou para o lado deles [de Henos e Robertão]. Ai, praticamente ficou eu e o Jaci, ficou eu e o Jaci como oposição lá dentro... eu o Jaci’’ como minoria.

Ai na segunda eleição, ai nós, conversando com o Jaci, nós montamos, botamos mais cinco, seis pessoas dentro da chapa, era o Jaci, Zé Pedro, o Taxinha, que era de um jornal aqui, uma cooperativa, o João Smoli, Vicente Moreira, então era um grupo maior... Mas o pessoal se vendeu... Ai ficou eu, o Zé Pdero e o Jaci outra vez...
Ai na terceira vez nó fizemos oposição no Sindicato dos metalúrgicos de Osasco. Nós fizemos oposição e perdemos... em 1977.
A gente se esparramou de Osasco, porque não conseguia emprego quase em lugar nenhum... foi lá para Cotia... e eu fui lá para Taboão... Para Embu...Depois a coisa foi se apagando e a gente voltou... O Zé Pedro voltou para cá, eu voltei...
Da Cobrasma [em 1968], eu fui trabalhar na Sufunji, no Anastácio... lapa de baixo... Depois sai de lá fui trabalhar na Ron, empresa que faz mandril de furadeira... na Raposo Tavares... trabalhei um ano e meio na Ron, pedia as contas nela porque fui para Cimpal ganhar o dobro do salario que eles me pagavam, Cimpal no Embu, fui para lá... Quando eu cheguei lá, a Brown Boveri me indicou lá... no outro dia me mandaram embora... Eu estava na lista negra... Eu estava doente porque eu tinha sofrido uma torção, estava com o pescoço torto, aqui no ombro... E as coisas andaram assim... No Embu também a gente fez greve... Porque Osasco tinha nove municípios, e o Embu fazia parte, Itapecirica, Cotia [Taboão, Bareri, Carapicuiba, São Lourenço, Itapevi, Jandira, Pirapora de Bom Jesus]... A mesma base, eram nove municípios... Fui para o Embu... A gente fez aquela chapa de oposição, ganhamos mas não levamos...

Aquela questão, quando a gente saia de Osasco, ia cobrir a Leopoldina, lapa... o grupo que que era... Era Arcenio, era o Paulo, era a mulher do Arcenio era outras meninas que tinha ai, mais umas três ou quatro... , comigo e mais outras pessoas, lá do jaguaré... A gente que fazia essas regiões... A gente que panfletava na porta das fábrica para o pessoal fazer greve, parar... a gente cobria tudo isso aqui... A gente não parou... e hoje eu estou com 71 anos e a gente ainda está ai fazendo alguma coisa...
Hoje eu estou por causa dessas coisas, dessas prisões que eu tive, na Leopoldina nós fizemos uma greve ali onde mataram o Santo Dias, em 1979, e ali foi quando eles cercaram... Nós chegamos de manha, a gente vinha de São Paulo com o carro cheio de panfletos para distribuir ali... mas eles cercaram tudo ali com a policia... Não deixavam a gente panfletar... Abria os capus do cambirão e diziam ‘Quem não quiser entrar na fábrica, entra aqui’, ameaçando o pessoal. A gente não aguentou e falamos ‘vamos panfletar de qualquer jeito’. E estava com um fusquinha cheio de panfleto, vamos lá no começo da... Eu o Arecenio e a Mercedez, a Mecerdez era uma militante da oposição de são Paulo, e o Arcenio também era de tudo, era de lá [de São Paulo], daqui {Osasco], de tudo... Era pau para toda obra o Arcenio... Arcenio e o Paulo eram companheiros. A gente deu a volta, no começo da rua e saiu... A Mecedez de um lado, o Arcenio de outro, dos dois lados da rua jogando panfleto... Ai passamos na frente da policia, a policia com as armas ‘pára, pára’... Não atirou não, mas poderia ter atirado e matado a gente. Ai começamos a furar cerco, ai saíram umas tres viaturas atrás. Eles queriam passar, a gente estava em um fusca, a gente fechava [o camburão], ia passar a gente fechava... Ai entrei numa contramão feia... os ônibus desciam , mas era curtinha... atravessei a rua que subia para a Lapa, atravessei, na baixada bateu o motor do carro na valeta e estourou o motor... Mas mesmo assim, eles passavam, os carros quase bateram neles , freiada danada... Ficaram mais bravos ainda... E seu que eu dei a volta, cheguei lá na frente... não dava mais para andar... Quando estava saindo eles chegaram, pegaram a gente, bateram que nem o cão. Ai bateram muito, fomos presos, fiquei lá... O Arcenio foi preso, a menina também foi presa... Por causa de todas essas prisões que eu tive, eu juntei toda documentação e entrei na anistia política, e hoje eu recebo uma anistia...

A Frente era um movimento, era pequena, ela não tinha grande expansão... Ela tinha um nome muito bom, que consegui aparecer a nível de Brasil, mas ela não tinha muita gente para fazer isso. E a gente tinha uma coisa assim, a Frente trabalhava sempre com os sindicatos de trabalhadores... nessa linha, e deu muito apoio a oposições sindicais a nível de Brasil, ela fazia isso. Ela partiu também para dar apoio aos sem... aos posseiros, os sem terra hoje, os posseiros era quando eles se apossavam de um pedaço de terra, dai a pouco chegava um dono e queria tomar, ai era uma briga muito grande. A Frente fazia isso, tinha advogado para defender os posseiros, tinha a militância que ia lá dar orientação, fazer reuniões políticas... A gente ia mais aqui no Vale do Ribeira, Vale do Ribeira tinha uma grande área de posseiros. Essa briga de posseiros começou em Santa fé do Sul, saia daqui, ia para lá organizar o pessoal. E geralmente era assim, como a Frente tinha uma visão mais cristã... Os padres das regiões... onde as coisas vão mais choraminga nas Igrejas né, é lá nas Igrejas que eles vão... Então os padres geralmente chamavam a Frente para dar um apoio político... Padres de outras paróquias, de outros municípios de outros Estados... Ai a Frente fazia isso, eles chamavam, muitas vezes a Frente não tinha condições econômicas, eles pagavam a gasolina e a alimentação para a gente ir até lá. Chegando lá eles enchiam o tanque do carro, davam dinheiro para encher o tanque do carro, mas era só isso que eles faziam. A gente fazia reunião com o pessoal, as vezes o advogado ia junto, dar orientação jurídica, fazia algum processo de defesa deles, porque não tinha defesa, vamos dizer assim, mas a gente lutava por isso. A Frente era um pouco assim.

Então, os estudantes... não se envolvia muito com estudante... não se envolvia muito... Costumo dizer hoje, que os sem-terra hoje, já é fruto daquele trabalho que a Frente iniciou naquela época. Então, não tinha muito estudante dentro da Frente, não tinha... [eram sobretudo os católicos, posseiros e operários]...

Agora, do outro lado, tinha o pessoal, os estudantes... Os estudantes iam em todo o lugar, por exemplo, se tivesse uma oposição de sindicato, vamos dizer assim, lá em São Bernardo, e se a gente precisasse colocar os estudantes, para eles dar uma mão para a gente, panfletar, agitar, fazer as coisas, ele iam tranqüilos...

Eu costumo dizer assim, veja bem, quem fazia greve e brigava antes por melhores salários, eram os operários, e operário era assim, tratado como lixo, ninguém dava valor ao operário de fato, ‘ah, você trabalha na fábrica?’Ninguém valorizava, nem estudante, nem o pessoal da prefeitura, do Estado, ninguém, não valorizava nada... parecia que os trabalhadores eram... Então que apanhava, quem fazia greve, nessa época, isso era antes de 1964, vamos dizer assim, eram os trabalhadores de fábrica... Ai veio, quando foi no golpe, quando deu o golpe, a ditadura jogou tudo num saco só, ai entrou operário, estudante, médico, professor, entrou todo mundo e ‘reio o paú’. Ai professor entrou no cassete, médico entrou no cassete, os funcionários públicos que eram... os funcionários públicos tinham um bonezinho na cabeça, ficava na porta da entrada ali, parecia um Deus, entrou todo mundo no saco e ‘paú comeu’, ai foi quando começou a aparecer as organizações, médica, de professores, até de policial, foi assim, ai começou, entendeu... porque antes não tinha. Ai começou, médico chamar operário para poder participar junto, trocar experiência e tal... Professores também, ninguém sabia de nada [de como se organizar], que sabia fazer alguma coisinha era a peãozada, a peãozada fazia alguma coisa... E a gente [peão], já tinha aquele estilo... Um estilo assim: você era o chefe, você chegava em mim, ai dizia assim: ‘Antonio, como é que está as coisas ai, ta bem na fábrica?’. ‘Não, está ótimo aqui, tá uma beleza’. ‘Tá bom mesmo?’. ‘Tá, tá bem!’. Mas se você era um peão, que vinha falar comigo como é que estava, ai eu dizia como é que tava, eu falava a realidade, ta assim... mas eu nunca ia falar para o chefe, nem para outras pessoas que eu não conhecia que a coisa estava ruim... Então o operário começou a se prevenir, se defender um pouco assim. Se esconder um pouco, para um ele fala a verdade, para outro ele não fala... não conhecia... era disfarçado...  Essa coisa, a gente tinha isso. Os outros, o pessoal não tinha, porque não participava das coisas, e não levava paulada quase...

Então a ditadura chegou e disse: ‘agora é tudo no mesmo saco!’ e tome cassete, tome cassete. [os operário estavam mais preparados] mais organizados. Os estudantes, que é um pessoal guerreiro, uma meninada com um gás danado, mas eles não tinha assim uma... Eles faziam as coisas deles lá, mas não tinha... Depois que foram aprender as coisas... A gente fazia as reuniões, aqueles atos juntos, aquelas coisas que a gente faziam, a gente atuava junto... Agora, a gente tinha uma questão difícil, porque você tinha que trabalhar, e essas coisas acontecia... de dia você não podia participar, a noite você ia, mas era uma dificuldade danada, porque tinha que trabalhar. Mas muitos trabalhadores faziam isso, participava das duas coisas... E a gente fazia isso, a ponto de, para você ver, daqui de Osasco, aquele ato do primeiro de maio na Praça da Sé [1/5/1968], quem fez tudo aquela coisa foram os metalúrgicos de Osasco, e o Luizão, esse que trabalhava comigo na Cobrasma, estava lá no meio. Segundo a turma, falam que foi ele que deu a primeira pedrada [no Abreu Sodré].

Antes do golpe de 1964
Aqui tinha muito tanque de guerra, aqui pelas esquinas... Aqui mesmo, aqui em cima, bem aqui nesse cruzamento aqui em frente a Telesp aqui, ficavam um tanque de guerra rodando para lá e para cá...

13: 37 (falta um trecho grande aqui).
Osasco se tornou um seleiro de militância, de pessoas, de ativistas que enfrentavam mesmo a luta. E tinha gente que mudava para Osasco. Vinha gente de todos os Estados, até gente do exterior vinha aqui para Osasco.

Greves no ABC

Nas greves do ABC, na época, eu e outros companheiros estávamos na Frente, eu fui presidente da Frente Nacional do Trabalho, e, a gente ia lá panfletar nas fábricas. O espaço nosso lá era miúdo, não abria muito não, era mais Volkswagen, Mercedez as vezes a Scania um pouco, a gente fazia aquilo ali. A gente saia aqui da Leopoldina e ia lá para a Zona Sul, panfletar toda a Nações Unidas lá, a Metal-leve, Caloi. Ia para o ABC o pessoal da Frente, junto com todo o pessoal [de outras correntes], estudantes. Tinha estudantes que ofereciam condução para a gente. (...). Fizemos arrecadação de fundos e alimentos, nós levamos caminhões e caminhões de alimentos para o ABC. (...). Para manter a greve, porque o cara com fome não faz greve. (...). As greves, a gente já vinha ajudando a costurar essas greves. A gente fazia as reuniões lá antes. O sindicato dos metalúrgicos daqui [Osasco], também era muito ligado lá [ao sindicato do ABC]. Quando teve aquela concentração dos 200 mil, nós íamos com 2 ônibus para lá, daqui [do sindicato] dos metalúrgicos...Chegou lá em Diadema a policia prendeu o ônibus. Nós descemos todo mundo e fomos a pé. (...). Foi uma concentração que teve em São Bernardo, aquela vez que os helicópteros começaram a jogar pó de mico no pessoal, eram 200 mil, na época tinha 200 mil pessoas ali. Organizados por lá [São Bernardo], nós aqui [de Osasco] é que íamos apoiar, ia gente dos bancários, ia gente dos metalúrgicos de Osasco, do centro. Essa foi no centro de São Bernardo, foi a maior concentração de pessoas em são Bernardo nessa época. Os helicópteros, para tocar o pessoal, ia por cima jogando pó de mico... Naquela concentração, quando eu cheguei lá estava um bocado de estudantes de um lado e a policia do outro jogando bomba...



 
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